AVISO A POLÍCIA ESTA CONTA E MEU COMPUTADOR ESTÃO SENDO UTILIZADOS POR BANDIDOS À MINHA REVELIA
Ao leitor:
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O Devir das Ciências Humanas
Eliane
Colchete
Como acima registrado, o texto integral do título não pode ser veiculado por "blogspot" assim como outros textos de maior tamanho. Devido ao meu intenso investimento literário, assim como de leitura e pesquisas, não tenho vagar para a assimilação do que seria necessário à exploração de outros recursos na Internet.
O texto integral corresponde a pesquisa que realizei, entre
2006 e 2008, resultando em cinco núcleos que correspondem cada um a uma fase do
pensamento humanístico, até sua transformação em "ciências humanas"
desde o século XIX e vindo a concretizar-se por metodologias sucessivas até
agora. Como acima registrado, o texto integral do título não pode ser veiculado por "blogspot" assim como outros textos de maior tamanho. Devido ao meu intenso investimento literário, assim como de leitura e pesquisas, não tenho vagar para a assimilação do que seria necessário à exploração de outros recursos na Internet.
O que constatei nessa pesquisa é a singularidade de cada núcleo, correspondendo
ao que seriam mapas epistêmicos, com temas e regiões próprias, ao invés de uma
continuidade de disciplinas ou conceitos. A eclosão da cientificidade na era
contemporânea é porém uma transformação mais profunda, permitindo a já bastante
conhecida duplicidade de todo o horizonte de estudos, entre a orientação
ao "ser", até aí, e a orientação ao Sujeito ("pensamento), desde
então. Porém os paradigmas sucessivos internos à contemporaneidade são
igualmente singulares.
Ao longo deste estudo eu ainda não descobrira o que meus blogs tem
apresentado como minha concepção de "geoegologia"
(geopolítica, ego, logos), como leitura meta-teórica dos paradigmas da
modernidade em função da expansão ocidental científico-industrial. Aqui não
tratarei pois desse tema, cuja descoberta ocorreu logo depois deste estudo, em
2009, quando realizei uma pesquisa complementar visando apenas esse período, e
o que pudesse ser haurido em termos de correlações entre arte e conceitos
humanístico-científicos ("Conceito e expressão: dois séculos de pensamento
e arte"). A base da minha descoberta porém veio deste
"devir das ciências humanas", porque viabilizou apreender
a consistência singular de cada paradigma. Junto com o
que imediatamente se seguiu, resultou na minha ruptura para com o
"pós-estruturalismo", que até então havia sido o referencial da
minha orientação universitária.
Os cinco núcleos do estudo de "O devir das ciências humanas" sendo "antiguidade e
helenismo" , "idade média", "renascimento",
"idade moderna", "período contemporâneo" e
"pós-modernidade',
tenho feito compactos (trechos selecionados) relativos a
alguns temas em blogs na Internet. Aqui aproveitarei o espaço para colocar
alguns blocos inéditos, conforme possam caber na página, o que é imprevisível
de antemão. Referencio os trechos que já estão circulando em blogs. Estudos
de filósofos específicos ainda não estão circulando, porém seria demasiado para
este espaço e pretendo depois transcrever em blogs.
Blocos que não couberem
aqui pretendo publicar em blogs com o mesmo título da
pesquisa, acrescido de numeração consequente. Estou iniciando a transcrição em 25/06/2016, aproveitando para revisar o texto. Coloquei entre colchetes informações relativas a conhecimentos que só vim a ter posteriormente, de modo a não alterar anacronicamente a redação. Os comentários entre colchetes correspondem a "notas" sendo escritas ao longo da revisão, agora em 2016.
= Sobre a Grécia Antiga : ver blog "estudos gregos"
= O período helenístico
– A Transição ao Helenismo
Há um conjunto de temas que se entrelaçam na compreensão das decisões
efetivadas no século IV a. C. Em geral optei por considerar esse período na
extensão de sua continuidade com os acontecimentos que perfazem o helenismo.
Isso se deve principalmente ao fato de associar o período clássico mais
propriamente com o apogeu dos movimentos retóricos do século V.
Esse conjunto de temas pode ser orientado a partir de um exemplo concernente à
conservação dos tratados médicos atribuídos a Hipócrates. Os escritos
hipocráticos, que Bréhier afirma tratar-se de “uma série de quarenta e um
tratados”, Harvey “cento e vinte obras” e Colin Ronan “uma coleção de cerca de
sessenta textos importantes”, não são todos de mesma autoria,
indubitavelmente. O relevante aqui é o que Bréhier registra sobre o “importante
conflito de método” que surge entre os autores reunidos sob o nome de
Hipócrates. Contudo, e isso é o que me parece a orientação histórica geral
devida às decisões que se operam no quarto século, esse conflito permanece
ignorado na maioria dos registros sobre a medicina grega assim como ocorre em
Harvey e Ronan.
A oposição observada por Bréhier envolve a relação de medicina e cosmologia.
Enquanto alguns reservam a cosmologia apenas aos movimentos celestes “de que
nada de seguro se pode afirmar”, à falta de meios de comprovação imediata,
outros consideram que a compreensão do corpo depende do conhecimento da alma
que, por sua vez, depende do conhecimento do universo. Se aqueles se reservam
um método empírico, baseando-se na observação dos sintomas e na experiência
acumulada de tratamentos aplicáveis, estes outros adotam a teoria dos quatro
elementos ou qualidades, onipresente entre os pré-socráticos, frio e quente,
seco e úmido, designando-os agora como princípios físicos do equilíbrio
corpóreo fundamental, conforme a harmonia universal.
O que se costuma obliterar na descrição da medicina antiga é o aporte empírico,
atribuindo-o exclusivamente ao cenário moderno e contemporâneo. E isto tanto
mais facilmente, uma vez que a doutrina dos quatro elementos subsistiu na
medicina ocidental como oficial até aproximadamente o século XVII. Mais
geralmente esse é o sentido da conservação do passado que o século IV
implementou: desvirtuamento das contribuições mais importantes da geofilosofia
grega, que só podem se recuperar através da leitura ou escuta historial assim
como a decifração de um palimpsesto. Mas o sentido desse desvirtuamento nada
tem de fortuito. É bastante visível a coerência com que ele se entrelaça ao
quadro de evolução da Antiguidade ao mundo feudal.
Quanto a isso a modernidade ocupa um lugar curioso. Pois se aparentemente ela
deriva de um Renascimento que se debruça historialmente, ao menos na sua
intenção manifesta, sobre uma Antiguidade que ela quer ver isenta dos
preconceitos da “autoridade” medieval e eclesiástica, não seria esse o lugar em
que se poderia recuperar os traços daquela geofilosofia, o que só se efetiva na
contemporaneidade. Mas essa observação está em conexão com alguns dos temas do
conjunto que ainda precisamos examinar para que seu alcance se esclareça, em
relação a nossos propósitos, de modo mais amplo.
O resultado da Guerra do Peloponeso alterou não apenas o estado de coisas no interior
da Pólis ateniense mas influiu no evoluir dos acontecimentos no sentido de ter
favorecido as forças de desagregação na Hélade, conforme Rostovtzeff acentuou.
Atenas consolidou a democracia mas também representou o ideal pan-helênico que
aglutinava as forças de agregação no multifacetado território grego. Sparta
jamais havia feito seu esse ideal. Mesmo com a consecução da hegemonia
mostrou-se incapaz de conservá-lo uma vez que carecia de bases culturais que
lhe permitissem desenvolver as negociações entre as cidades sob um princípio
mais abrangente do que o da simples força bruta. Assim a capitulação perante a
Macedônia se tornou inevitável, como vimos.
Lewis
Munford analisou o quadro de decadência da pólis grega após o quinto
século justamente a partir desse ponto de vista. Os dois fatores que ele aponta
como responsáveis pela exaustão da cidade clássica se relacionam com o
crescimento dos impérios vizinhos à Grécia. A expansão colonial tornava-se
impossível sem conflitos com esses poderosos concorrentes e a proteção do
território mesmo, contra eles, estava na dependência de uma “união política”,
isto é, de algo como o ideal pan-helênico que se havia tornado impraticável nos
quadros de uma hegemonia espartana.
Mas com relação estritamente a Atenas, os efeitos da Guerra do Peloponeso se
relacionaram ao estatuto da democracia, não tanto no sentido de sua manutenção,
afinal assegurada pela própria Sparta como uma concessão após o fracasso do
governo dos tiranos, mas no sentido de sua influência enquanto pensamento
político e social. Assim esses efeitos se estenderam a tudo que a democracia
havia favorecido. Se, como penso, a democracia ateniense do século V traduziu o
verdadeiro milagre grego, o apagamento de sua preponderância pelo
recrudescimento das tendências de pensamento oligárquico redundou, por muito
tempo, nesse deslocamento da perspectiva que verificamos no exemplo da recepção
dos escritos de Hipócrates.
Pelo viés dessas tendências, a contribuição real do espírito grego devia ser
observada alhures, conforme a índole do platonismo, tudo o mais aparecendo sob
o signo do oportunismo cínico ou apenas como circunstancial, se chegasse a ser
registrado. No entanto parece que algo muito mais profundo do que simplesmente
a tendência oligárquica se encerra no sentido desse processo. Pois trata-se de
uma "Imagem do Pensamento" que prevaleceu mesmo lá onde se tratou
de reverter o platonismo, o que pode se constatar pela persistência das versões
detratoras da sofística. Mesmo assim não se pode deixar de constatar a
convergência dessa Imagem idealista com elementos oriundos da tendência
antidemocrática na Grécia, isto é, ao menos lá onde ainda se pode falar de
processo e decisões, onde a Imagem estava não formada mas sendo plasmada, por
assim dizer.
Poderia-se usar o termo “influência”, quanto a isso. Mas para observar que
sempre que a influência da preponderância oligárquica pode ser rastreada no
desenvolvimento da filosofia do século IV, ela se institui sobre uma base ampla
de diálogo com o que já se havia desenvolvido e continuava em marcha na
transição ao helenismo em termos de pensamento. Tratava-se nesse diálogo então
de certas decisões que precisamos resgatar agora. Pois o que estava em jogo aí
era justamente o significado do pensar, o domínio daquilo que deveria se
designar conhecimento, ou a questão: o que é a filosofia? Nesse momento mesmo
em que ela estava nascendo.
A tarefa dessa resposta dominou o clima intelectual no século IV e sob esse
ângulo a estreita correlação dos diálogos platônicos com a sofística parece
bastante consequente, do mesmo modo que a recuperação, por Aristóteles, do
pensamento pré-socrático, desenvolvendo-se como crítica.
Já examinamos algo do “Rivais” , em que três personagens se arvoram a
legitimidade da resposta ao que é verdadeiramente o conhecimento mais
fundamental. Mas o que parece estar assim inteiramente no mesmo plano, na
realidade se joga sobre um real desnível. Pois não são as mesmas as condições
de exercício do polímato, do filósofo e a do homem livre e cultivado.
Minha hipótese é que entre o polímato e o filósofo as condições do exercício
não mudam ainda que se mantenha a diferença epistemológica apontada no diálogo
platônico. Apenas o exercício de pensamento retórico, do homem livre e
cultivado, depende, no contexto da Antiguidade, exclusivamente da pólis
democrática ateniense. Mas isso não porque haja uma dependência do pensamento a
algo extrínseco, por exemplo, como se pudesse ser demonstrado um vínculo
necessário de determinada doutrina política com uma certa teoria do
conhecimento. Na verdade deve-se mais pensar esse tópico no sentido das
relações efetivas com o estado de coisas social, mas não como dependência
unilateral ou sempre dada da mesma forma. É o exercício de pensamento retórico
que se lança em uma série de pressupostos que já o determinam conforme um
vínculo social, enquanto que a relação do pensamento pré-socrático com a
emancipação da economia à agricultura se determina de modo não de todo
semelhante.
O polímato, conforme o “Rivais”, vê a excelência do conhecimento como uma
totalidade de saberes válidos enquanto o filósofo o circunscreve ao bem do ser
humano. Contudo, ambos o concebem como independente do processo de negociação e
acordo sobre o que seja o relevante no saber ou o propriamente humano no valor
estabelecido como o bem.
Isso se torna particularmente oportuno se o relacionarmos a esse problema de estabelecer o alcance da influência da virada oligárquica na orientação do pensamento do século IV ac. Pois se, como Vernant, se pode afirmar que a origem do pensamento racional na Jônia do século VII ac. é inseparável do regime dessacralizado da palavra interlocutiva associada à democracia, observamos também, com Sagan, o quanto esse processo está ligado à introdução de uma escala de valores que não deprecia o trabalho e a iniciativa pessoal de artesãos e comerciantes nessas cidades costeiras em que o multimorfismo de regimes não esconde um certo critério geral de liberdade e autonomia dos cidadãos.
No entanto, o pensamento platônico, em que sem dúvida aquela influência oligárquica pode ser apontada, não deixa de se estender num certo sentido de continuidade em relação ao pensamento pré-socrático, como se houvesse uma marcha linear teoricamente sustentável sob certo ponto de vista. Pois o tipo do filósofo platônico reúne Heráclito e Pitágoras num discurso racionalista baseado na ontologia do “eidos”, bastando para isso introduzir Sócrates e a exigência conceitual. Vernant, por exemplo, observa a continuidade de Empédocles a Platão quanto à concepção da alma e da valorização da memória no interior de uma doutrina da transmigração. Vernant acentua assim que a definição de filosofia em Platão se dá como tradição muito antiga de “melete”, “exercício” de purificação. Novamente o esquecimento se opõe à verdade: “a anamnésis platônica, por meio de exercícios de memória do pitagorismo, prolonga o velho tema mítico de Mnemosyne”, a memória, “fonte de vida inesgotável”, conforme a expressão de Vernant.
Podemos constatar também essa mesma pertença condicional do polímato e do filósofo pelo fato de que o saber único e fundamental que pertenceria ao filósofo só é alcançável no platonismo pelo exercício dialético. Mas a progressão da dialética platônica à lógica aristotélica já se joga no pressuposto de um instrumento de acesso a todo saber verdadeiro. Logo, serviria também ao polímato caso se convertesse, seja do desviamento dos sentidos, seja da ignorância dos processos causais e silogísticos. Trata-se portanto da filosofia como método que já se pressupõe na senda de uma articulação do real com o verdadeiro, daquilo que é com o saber enquanto o como desse conhecimento.
Mas o exercício do pensamento retórico do homem livre e cultivado não pressupõe
como dada essa articulação. Assim o conflito dos “Rivais” não se faz tanto
sobre três mas sobre dois caminhos. Munford por exemplo acentua a real
singularidade da Pólis do século V em que se desenvolve a sofística. É o fato
de ser “encarnada”, isto é, ser efetivamente ordenada pelos cidadãos. Tudo
aquilo que mais tarde se considerou institucional, restrito portanto à
burocracia ou à especialização dos técnicos encarregados, de “inspetores e
magistrados” a “secretárias permanentes”, conforme a expressão de Munford, era
na pólis atributo da cidadania.
A atividade do cidadão, na Atenas democrática, abarcava “o serviço no conselho ou nos tribunais” mais a atividade comercial e a “participação nas artes”: todo ano algo por volta de dois mil atenienses devia atuar no coro teatral. Sem redução total de um a outro, havia um intercurso pleno entre o público e o privado, entre existência e cultura, de modo que “cada parte da cidade” vivia “na pessoa do cidadão”. O que Munford nomeia assim como componente essencial que define a pólis do século V é esse “praticamente desconhecido das culturas anteriores” – perigoso para qualquer sistema de autoridade baseada no arbítrio despótico – o “cidadão livre”.
Não se trata, portanto, apenas de emancipação econômica ou mesmo de um certo conceito de liberdade política. Trata-se de participação social necessária aos legisladores - lembrando que eram cargos temporários, e quanto à participação administrativa também temporária havia escolha dos aptor por sorteio - de modo que a formação desempenha agora um papel constitutivo. Estabelecendo o pensamento retórico no âmbito pragmático cujo alcance se estenderá ao próprio estabelecimento do que vem a se constituir como conhecimento ou validez, distanciado do vínculo semântico exclusivo como a “falácia abstrativa” conforme a expressão de Appel para designar a divisão teofrástica que reserva o saber ao verdadeiro ou falso do discurso “filosófico”, isto é, referencial, excluindo o propriamente retórico ou político. Aqueles conteúdos que visam apenas o interesse dos cidadãos, as decisões que valerão como leis em nível público.
Inversamente, a convergência do pensamento platônico, fortemente influenciado pela tendência oligárquica, com aquilo que nos pré-socráticos se estendia no sentido da “tradição” se torna assim bastante compreensível apesar da aparente dispersão de meios e de ambientação. Mesmo onde se trata de criar a retórica, como no pitagorismo, antes da sofística não se a considera senão como meio, os princípios cosmológicos e epistemológicos ignorando qualquer aporte constitutivo para se marcar como procura de instrumentos metódicos transparentes ou quase, no sentido de alcançar “a” verdade.
Na tarefa de caracterizar de modo algo panorâmico o século IV, podemos observar como Munford relaciona aqueles elementos de decadência da pólis, que já examinamos no contexto da expansão dos impérios vizinhos, com a transição do clima geral do século V a esse período. Ele destaca assim que o limite da cidade-estado clássica, a impossibilidade da expansão colonial ou da união política, teve como conseqüência a fuga para comunidades isoladas dentro da cidade, como a dos pitagóricos, e um novo gênero de literatura utópica, em alguns casos com tendências comunistas.
Essas tendências utópicas são reencontradas na obra de Platão, ainda que eivadas de valores antidemocráticos e fortemente oligárquicos, mas também se anunciam na iniciativa de Antístenes de construir um “ginásio de pobres”, o “cinosargo”, acenando aí para uma acentuação realmente socialista dos valores. Munford enfatiza que já a comédia de Aristófanes glosa os aportes comunizantes das “várias proposições socialistas” que se “achavam no ar”, por exemplo em “As Aves”. Sobretudo a “Ecclesiasuzae”, que põe em cena uma revolução de mulheres, assinala a transição ao teatro do quarto século. Agora não se utiliza a parábase nem a virulência costumeira contra os políticos, minimiza-se o mais possível a participação do coro e há um novo tipo “calmo e espirituoso” de conversação substituindo o ágon das disputas característico do período anterior.
O diálogo platônico que desloca os exercícios de intensa interação da sofística está assim na conformidade desse período em geral. Mas a obra de Platão surge para Lewis Munford como uma “regressão” em relação aos aspectos participativos da cidadania real do século V. Já sua “perversão” reside, para ele, no fato de que Platão denega aquilo mesmo que torna possível o seu exercício de pensamento, assim como o socrático, isto é, a Pólis democrática.
É interessante examinar essa asserção pois afirmei acima que o pensamento platônico, inversamente ao sofístico, independe de certo modo da pólis ateniense. Não há, porém real oposição aqui. Munford argumenta que Sócrates era um homem do povo com um ofício braçal e seu caminho intelectual teria sido impensável numa República como a platônica, onde as castas deviam ser inteiramente segregadas e aos trabalhadores interditava-se o cultivo do conhecimento como apanágio da classe dominante.
Nesse sentido pode-se assimilar esse aspecto que Munford ressalta em sua crítica a Platão ao cenário de transformação do pensamento mítico ao racional, isto é, à emancipação social em relação aos valores tradicionais da economia agrícola. Sócrates poderia ser pensável na Jônia? Talvez não, e a ironia aqui é que tanto menos se poderia acreditar, se seu exercício de pensamento for muito mais relacionado à sofística do que Platão teria se esforçado para fazer ver. A Jônia permitiu o cultivo livre do pensamento por qualquer pessoa interessada, já não restrito à oligarquia, porém ainda não tinha necessitado do instrumento da palavra daquele modo sistemático que ocorre em Atenas do século V. Mas o que é propriamente platônico parece se erguer em oposição direta a tudo que está na base do pensamento retórico, conforme já examinamos anteriormente.
Nesse sentido Jaeger informa que no interior das classes nobiliárquicas desde o início do século V as novas condições sociais impuseram séria reflexão sobre o que se devia fazer do antigo ideal da Aretê, agora encontrando obstáculos intransponíveis. A antiga Aretê (virtude) nobre eram pois atributos de excelência física ou intelectual exclusivas de linhagens ue se consideravam provir de deuses ou ser por eles legitimada em seu "cratos" (poder). Ao longo da consolidação dos tribunais racionais e da democracia, a Aretê se tornara critério de virtude socializada - a justiça do juízo em Hesíodo, a educação ministrada pelos professores de retórica que permitia entender os processos de insituição legal, na democracia e já desde Solon.
A atividade do cidadão, na Atenas democrática, abarcava “o serviço no conselho ou nos tribunais” mais a atividade comercial e a “participação nas artes”: todo ano algo por volta de dois mil atenienses devia atuar no coro teatral. Sem redução total de um a outro, havia um intercurso pleno entre o público e o privado, entre existência e cultura, de modo que “cada parte da cidade” vivia “na pessoa do cidadão”. O que Munford nomeia assim como componente essencial que define a pólis do século V é esse “praticamente desconhecido das culturas anteriores” – perigoso para qualquer sistema de autoridade baseada no arbítrio despótico – o “cidadão livre”.
Não se trata, portanto, apenas de emancipação econômica ou mesmo de um certo conceito de liberdade política. Trata-se de participação social necessária aos legisladores - lembrando que eram cargos temporários, e quanto à participação administrativa também temporária havia escolha dos aptor por sorteio - de modo que a formação desempenha agora um papel constitutivo. Estabelecendo o pensamento retórico no âmbito pragmático cujo alcance se estenderá ao próprio estabelecimento do que vem a se constituir como conhecimento ou validez, distanciado do vínculo semântico exclusivo como a “falácia abstrativa” conforme a expressão de Appel para designar a divisão teofrástica que reserva o saber ao verdadeiro ou falso do discurso “filosófico”, isto é, referencial, excluindo o propriamente retórico ou político. Aqueles conteúdos que visam apenas o interesse dos cidadãos, as decisões que valerão como leis em nível público.
Inversamente, a convergência do pensamento platônico, fortemente influenciado pela tendência oligárquica, com aquilo que nos pré-socráticos se estendia no sentido da “tradição” se torna assim bastante compreensível apesar da aparente dispersão de meios e de ambientação. Mesmo onde se trata de criar a retórica, como no pitagorismo, antes da sofística não se a considera senão como meio, os princípios cosmológicos e epistemológicos ignorando qualquer aporte constitutivo para se marcar como procura de instrumentos metódicos transparentes ou quase, no sentido de alcançar “a” verdade.
Na tarefa de caracterizar de modo algo panorâmico o século IV, podemos observar como Munford relaciona aqueles elementos de decadência da pólis, que já examinamos no contexto da expansão dos impérios vizinhos, com a transição do clima geral do século V a esse período. Ele destaca assim que o limite da cidade-estado clássica, a impossibilidade da expansão colonial ou da união política, teve como conseqüência a fuga para comunidades isoladas dentro da cidade, como a dos pitagóricos, e um novo gênero de literatura utópica, em alguns casos com tendências comunistas.
Essas tendências utópicas são reencontradas na obra de Platão, ainda que eivadas de valores antidemocráticos e fortemente oligárquicos, mas também se anunciam na iniciativa de Antístenes de construir um “ginásio de pobres”, o “cinosargo”, acenando aí para uma acentuação realmente socialista dos valores. Munford enfatiza que já a comédia de Aristófanes glosa os aportes comunizantes das “várias proposições socialistas” que se “achavam no ar”, por exemplo em “As Aves”. Sobretudo a “Ecclesiasuzae”, que põe em cena uma revolução de mulheres, assinala a transição ao teatro do quarto século. Agora não se utiliza a parábase nem a virulência costumeira contra os políticos, minimiza-se o mais possível a participação do coro e há um novo tipo “calmo e espirituoso” de conversação substituindo o ágon das disputas característico do período anterior.
O diálogo platônico que desloca os exercícios de intensa interação da sofística está assim na conformidade desse período em geral. Mas a obra de Platão surge para Lewis Munford como uma “regressão” em relação aos aspectos participativos da cidadania real do século V. Já sua “perversão” reside, para ele, no fato de que Platão denega aquilo mesmo que torna possível o seu exercício de pensamento, assim como o socrático, isto é, a Pólis democrática.
É interessante examinar essa asserção pois afirmei acima que o pensamento platônico, inversamente ao sofístico, independe de certo modo da pólis ateniense. Não há, porém real oposição aqui. Munford argumenta que Sócrates era um homem do povo com um ofício braçal e seu caminho intelectual teria sido impensável numa República como a platônica, onde as castas deviam ser inteiramente segregadas e aos trabalhadores interditava-se o cultivo do conhecimento como apanágio da classe dominante.
Nesse sentido pode-se assimilar esse aspecto que Munford ressalta em sua crítica a Platão ao cenário de transformação do pensamento mítico ao racional, isto é, à emancipação social em relação aos valores tradicionais da economia agrícola. Sócrates poderia ser pensável na Jônia? Talvez não, e a ironia aqui é que tanto menos se poderia acreditar, se seu exercício de pensamento for muito mais relacionado à sofística do que Platão teria se esforçado para fazer ver. A Jônia permitiu o cultivo livre do pensamento por qualquer pessoa interessada, já não restrito à oligarquia, porém ainda não tinha necessitado do instrumento da palavra daquele modo sistemático que ocorre em Atenas do século V. Mas o que é propriamente platônico parece se erguer em oposição direta a tudo que está na base do pensamento retórico, conforme já examinamos anteriormente.
Nesse sentido Jaeger informa que no interior das classes nobiliárquicas desde o início do século V as novas condições sociais impuseram séria reflexão sobre o que se devia fazer do antigo ideal da Aretê, agora encontrando obstáculos intransponíveis. A antiga Aretê (virtude) nobre eram pois atributos de excelência física ou intelectual exclusivas de linhagens ue se consideravam provir de deuses ou ser por eles legitimada em seu "cratos" (poder). Ao longo da consolidação dos tribunais racionais e da democracia, a Aretê se tornara critério de virtude socializada - a justiça do juízo em Hesíodo, a educação ministrada pelos professores de retórica que permitia entender os processos de insituição legal, na democracia e já desde Solon.
Na medida em que os desdobramentos da reflexão da nobreza ora na
oposição informaram de dentro o platonismo e de modo geral eclodiram, ou
encontraram seu escoadouro mais favorável, justamente no desdobramento do quarto
século, será algo de interesse observa-las mais detidamente.
W. Jaeger situa o desenvolvimento do pensamento oligárquico pós-homérico nas obras de Teógnis e Píndaro. Ambos poderiam se caracterizar como elementos de representação do mundo continental, dórico e agrícola, exaltando valores que se contrapõem simetricamente àqueles do mundo marítimo, jônico e comercial.
O livro de Teógnis pode assim ser analisado como contraponto aos Erga de Hesíodo pois pretende, muito inversamente a fundamentar qualquer ideal de igualdade entre os seres humanos, ensinar a formação dos nobres, “aqueles preceitos sagrados que até agora só oralmente foram transmitidos de geração em geração”, conforme Jaeger, que assinala a convergência do Eros, como fator de ligação pedagógica de mestre a pupilo, entre a poesia de Teógnis e o Banquete de Platão.
Efetivamente esse tipo de ligação erótica com os efebos era comum nos círculos da nobreza grega mais antiga, especialmente dórica, o que já não ocorria entre jônios e áticos. O Eros, em Píndaro e Platão, funciona como fator de associação por segregação do “resto”, ou seja, contra o sentimento do “comum”, instituindo-se como possibilidade de não se confundir com a massa.
A ênfase desse pensamento oligárquico se concentra na noção de “justa desigualdade”. A poesia de Teógnis se expressa contra o “demos”, isto é, o “povo”, creditando à luta de classes todo o problema social do tempo que ele pensa ser resolúvel apenas pela restauração do governo dos nobres pois sua ascendência deveria, por força da excelência dos antepassados, deuses ou heróis, garantir a superioridade de sua Aretê.
Mas o empobrecimento da nobreza de sangue era já algo notório e a concepção de Arete heróica mostrava-se incompatível com escassez de recursos uma vez que abarcava a magnificência e a magnanimidade. Assim para conservar a ética oligárquica Teógnis interioriza a antiga Aretê e equipara agora as noções de nobre e justo. Só o justo é nobre mas só o nobre saberia ser justo.
Sabia-se também que a nobreza havia se tornado minoria - na acepção não só do contingente regional das famílias mas da solidariedade dos servos. O objetivo de Teógnis seria evitar que ela se solvesse, por assim dizer, adotando os mesmos valores do "demos". A educação do que outrora havia sido a classe superior, torna-se então a única via singular do nobre. E se ele a pratica sem desvio torna-se chefe do “povo sem cabeça”, conforme a expressão do poeta.
Conforme afirma Jaeger, o ideal nobre “da conservação da raça foi principalmente cultivado por Sparta e pelos grandes educadores do Estado do século IV". Isso porque, como observou ele, o ideal da Aretê heróica assim modulado no sentido da nobreza confrontada pela luta de classes, torna-se uma fé na aristocracia em geral, seja por nascimento, seja por outro modo como a filiação a um credo, a uma filosofia ou a certos princípios de conduta.
Quanto a Píndaro, a vinculação da poesia à exaltação do vencedor olímpico
é correlato da glorificação da Aretê, a excelência sendo o dom daquele que
vence. O aristocrata se torna símbolo da extensão do significado da Aretê:
vencedor é igual a nobre e este é o que tem a virtude, como que por definição.
Certo canto de Píndaro expressa o seu desprezo pela noção de “aprender” a
virtude: “a glória só tem pleno valor quanto é inata”. Esta deve ser pensada,
como algo não adquirido pois “quem só tem o que aprendeu é um homem obscuro e
indeciso”. W. Jaeger situa o desenvolvimento do pensamento oligárquico pós-homérico nas obras de Teógnis e Píndaro. Ambos poderiam se caracterizar como elementos de representação do mundo continental, dórico e agrícola, exaltando valores que se contrapõem simetricamente àqueles do mundo marítimo, jônico e comercial.
O livro de Teógnis pode assim ser analisado como contraponto aos Erga de Hesíodo pois pretende, muito inversamente a fundamentar qualquer ideal de igualdade entre os seres humanos, ensinar a formação dos nobres, “aqueles preceitos sagrados que até agora só oralmente foram transmitidos de geração em geração”, conforme Jaeger, que assinala a convergência do Eros, como fator de ligação pedagógica de mestre a pupilo, entre a poesia de Teógnis e o Banquete de Platão.
Efetivamente esse tipo de ligação erótica com os efebos era comum nos círculos da nobreza grega mais antiga, especialmente dórica, o que já não ocorria entre jônios e áticos. O Eros, em Píndaro e Platão, funciona como fator de associação por segregação do “resto”, ou seja, contra o sentimento do “comum”, instituindo-se como possibilidade de não se confundir com a massa.
A ênfase desse pensamento oligárquico se concentra na noção de “justa desigualdade”. A poesia de Teógnis se expressa contra o “demos”, isto é, o “povo”, creditando à luta de classes todo o problema social do tempo que ele pensa ser resolúvel apenas pela restauração do governo dos nobres pois sua ascendência deveria, por força da excelência dos antepassados, deuses ou heróis, garantir a superioridade de sua Aretê.
Mas o empobrecimento da nobreza de sangue era já algo notório e a concepção de Arete heróica mostrava-se incompatível com escassez de recursos uma vez que abarcava a magnificência e a magnanimidade. Assim para conservar a ética oligárquica Teógnis interioriza a antiga Aretê e equipara agora as noções de nobre e justo. Só o justo é nobre mas só o nobre saberia ser justo.
Sabia-se também que a nobreza havia se tornado minoria - na acepção não só do contingente regional das famílias mas da solidariedade dos servos. O objetivo de Teógnis seria evitar que ela se solvesse, por assim dizer, adotando os mesmos valores do "demos". A educação do que outrora havia sido a classe superior, torna-se então a única via singular do nobre. E se ele a pratica sem desvio torna-se chefe do “povo sem cabeça”, conforme a expressão do poeta.
Conforme afirma Jaeger, o ideal nobre “da conservação da raça foi principalmente cultivado por Sparta e pelos grandes educadores do Estado do século IV". Isso porque, como observou ele, o ideal da Aretê heróica assim modulado no sentido da nobreza confrontada pela luta de classes, torna-se uma fé na aristocracia em geral, seja por nascimento, seja por outro modo como a filiação a um credo, a uma filosofia ou a certos princípios de conduta.
A aproximação com a questão socrático-platônico de invectiva à sofística é bastante evidenciada. Nessa concepção há um abismo entre a nobreza que é por nascimento, logo algo inato, a qualquer saber ou poder que se pode aprender, concepção que Píndaro considera fundamentads pela “verdade e razão” . Logo a extensão de nobre a vencedor abrangerá a própria noção do fazer artístico do poeta, concebido também como dom inato. O símbolo dessa “consciência artística” em Píndaro é a águia que ele opõe como imagem à massa simbolizada pelos corvos.
Baridon e Ellauri enfatizam o acirramento da luta de classes desde o final da Guerra do Peloponeso. Com efeito, durante a guerra há evidências no sentido de que os nobres atenienses se organizavam para apoiar Sparta contra o regime democrático de modo a partilhar a condução das coisas após o confronto. Se isso não chegou a se concretizar o limite da pólis grega tal como assinalado por Munford determinou uma transição de modo que a cidade se encaminhou para uma reforma de índole burocrática e estetizante que se consolidou plenamente no helenismo. Mesmo onde a democracia foi conservada houve em geral institucionalização das práticas de controle e funcionamento urbano. Assim a participação efetiva do cidadão numa cidade ainda “in progress”, com imperfeições, se tornou progressivamente sem sentido numa pólis muito mais organizada, limpa e racionalizada, mas patrocinada pelos impérios de que se tornou dependente.
A tendência oligárquica contava assim com possibilidades de expressão enquanto pensamento social, não tanto como possibilidade real de hegemonia política. Contudo, no século IV ainda havia espaço de confronto no interior da pólis, antes da conquista macedônica. Isso se reflete mais na obra de Platão, pois Aristóteles já se encontra no âmbito dessa consolidação do poder macedônico.
Baridon e Ellauri reportam o quadro social e político da Grécia do quarto século. Os grupos populares e nobiliárquicos se opunham de tal modo que a própria organização social se tornava menos importante do que a intolerância para com o antagonista. As lutas dentro das cidades se complementavam com as guerras entre elas, aumentando o número de desterritorializados políticos que se tornavam soldados pagos no interior de exércitos de que os cidadãos estabelecidos se recusavam a participar preferindo contribuir com o soldo desses “combatentes da fortuna”, os mercenários. A concentração da riqueza aumentou, porém, e com isso a escravidão se tornou cada vez mais utilizada. Na Atenas do século IV mais da metade da população era composta de escravos que ofereciam mão de obra com a qual os trabalhadores livres não podiam competir, tornando cada vez mais complexa a situação social e o abismo entre as classes.
Quanto ao exercício da sofística, observa-se o declínio, como se a filosofia se tornasse tanto mais consolidada quanto mais concentrava na retórica o seu contraponto. Mas ocorre algo intrigante se acompanharmos a descrição de Munford da vida do cidadão livre ateniense, estendendo-a como fator implícito de exercício da sofística, com a obra de Jean François Lyotard, “O Pós – Moderno”, em que se podem apontar vários elos entre os movimentos sofísticos e a descrição das condições epistemológicas da atualidade.
Pois o limite que Munford localiza para aquela cidade de cidadãos que é a Atenas do século V a. C. seria tanto a racionalidade estetizante das cidades imponentes características do helenismo quanto a burocratização institucionalizada das cidades dessa nossa contemporaneidade que ele considera “quase totalitária”. Assim, como é possível que aqui se tenha historialmente recuperado a possibilidade mesma do pensamento retórico sofístico?
Mas o desenvolvimento dessa questão depende de uma compreensão mais abrangente da realidade epistemológica da Grécia antiga. Pois o que está em jogo na obra de Lyotard é a complexidade daquilo que hoje se pode considerar sob a rubrica de “ciência” enquanto que na Hélade tratava-se de plasmar a definição do que se poderia considerar conhecimento válido, isto é, tratava-se de definir, de modo muito pioneiro, os critérios pelos quais se devia assegurar a noção mesma do que quer significar “validez”.
Nesse sentido creio que ocorre também o limite do modelo platônico dos três tipos clássicos como definidores do quadro epistêmico antigo, do mesmo modo que alguns outros pressupostos sobre a filosofia “pré-socrática”, incluindo a sofística. Assim depois desse panorama introdutório da transição ao helenismo devemos centrar o exame desse quadro, tentando construir uma visibilidade de conjunto sobre o desenvolvimento dos conceitos de conhecimento e filosofia desde os milesianos até Aristóteles. O que se viabiliza então é a compreensão, tanto do sentido dessa transição quanto daquilo em que ela afeta os processos mesmos descritos por Lyotard, isto é, a problemática do saber atual em que termos importantes oriundos desse contexto antigo novamente se propõem.
a) Transformação da epistemologia
O esquema mais trivial sobre as
origens, tal como amplamente praticado nos manuais de história da filosofia,
apresenta uma progressão guiada pelo interesse especulativo, isto é, algo
conforme o objeto. A física pré-socrática, a exigência do conceito e o problema
do conhecimento com Sócrates e Platão, a filosofia como sistema onto-logico em
Aristóteles. Nessa progressão a sofística é ignorada, censurada ou colocada como algo menor relativamente a emergência do socratismo
Esse modo de ver está correto ao menos
quanto à plenitude em Aristóteles. Mas o pensamento pré-socrático espera alguma
compreensão mais adequada quanto ao seu exercício. Tem sido mostrado que
Nietszche inaugurou e Heidegger desenvolveu, fundamentando a necessidade, a era
dessa nova compreensão. Contudo isso se fez mais como a fundamentação de uma
exigência do pensar, de uma tarefa que se impôs como necessária ao pensamento,
não de modo extrínsico, apenas acrescentado, e sim como o reconhecimento
daquilo que, devido aos caminhos que empreendeu e do modo como as coisas são,
lhe compete, se lhe tornou devido.
A observação não se endereça ao
modo de uma censura. Principalmente quanto a Heidegger, creio que sua
contribuição é inestimável na senda dessa exigência tanto quanto no lançar aí
de marcos doravante insubstituíveis. As observações de longo alcance de
Nietzsche não são menos importantes ainda que de outro modo. Nietzsche teria
contribuído assim menos pela minúcia ou exatidão dessa ou daquela afirmação do que
pela delimitação ampla de um novo rumo destinado ao olhar, quase se poderia
dizer que ele imprimiu vigorosamente os lineamentos de um novo método.
Agora as forças que compõem o
espírito grego recebem o olhar de sua genealogia, a “história da filosofia” convertendo-se,
enquanto objeto, de uma aquisição “universal” a uma criação bastante
localizada, incompreensível na exterioridade de suas marcas de historicidade
sendo a própria história algo outro do que a progressão canônica de fatos
determinados para deixar entrever o intempestivo do eterno presente do espírito
– mais aquilo que dele, para ser espírito, precisamente se furta, o Aion.
A observação se endereça como
constatação de que desde Nietzsche e Heidegger são os meios que mais se tornam
necessários aqui. Meios, no plural, significando um complexo de conceitos e
práticas que efetivamente são possíveis por e tornam possível um meio, no
singular. Podemos utilizar o termo “tempo” em relação a esse singular. Que
utilizaríamos para o plural? Os meios permanecem na inerência do tempo.
Como filósofos Nietzsche e
Heidegger criaram conceitos, inventaram meios, vias de acesso a esse novo
olhar. Mas esses caminhos, essas trilhas, só poderiam conduzir até uma
distância determinada a percorrer. Hoje a historicidade já avançou um pouco
mais, poder-se-ia afirmar de modo algo metafórico. O tempo presentificou novas
relações, as forças se transformaram devido a novos cenários de configuração. A
nossa tarefa abrange agora pavimentar para mais longe as vias de acesso, construir
meios novos para ver de modo ainda mais aproximado.
Entre essas novas relações a
preocupação com a ciência e o conhecimento desponta como uma das mais
favoráveia à consecução de meios no rumo da condução dessa tarefa. Mais
especialmente a preocupação que abrange não apenas o que se conquistou, o
conteúdo, nem só como se remodelaram os métodos, isto é, a forma. Trata-se do
pensamento que visa esses fatores nas suas relações de poder, que lenta e
pacientemente procura recuperar as forças que aí se expressam e atuam como
forças, logo, na abrangência do político e do social.
Nesse âmbito poderiam ser
lembrados os nomes de Foucault, Gadamer e Lyotard. A ênfase que orienta esses
trabalhos não poderia ser caracterizada como “epistemologia” se por esse rótulo
insistimos em reservar algo como o objeto intitulado o “problema do
conhecimento” ou a história dos dados adquiridos, ou mesmo os processos de
pensamento que se podem depreender estar envolvidos nas aquisições, isto é, um
amálgama de ambos, como se pode encontrar em Molles e Bachelard.
A ênfase, naqueles autores – que
não se hesitou em reunir mal ou bem sob a rotulação de pós-moderno – está nas relações de
poder que se estabelecem entre ciência e sociedade sendo que é só por um viés
já “epistemologicamente” orientado que esses dois termos puderam se tornar tão
bem separados como se a ciência não fosse já e desde sempre um envolvimento
social, algo que ocorre dentro, inseparável, da sociedade, isto é, não “como
água dentro de um copo” mas como composições de forças de um mesmo corpo.
Assim se poderia talvez com
propriedade falar de “transformação da epistemologia”. Se a linguagem é aqui,
também, constitutiva isto se relaciona com a orientação genealógica que é
originariamente Nietzsche – Heideggeriana de modo que não se torna demasiado
extravagante buscar nesse campo os meios novos desejados na condução de nossa
tarefa quanto ao pensamento grego.
O corte básico que Lyotard
("O pós-moderno") instituiu incide inicialmente entre os conceitos de ciência e saber. A ciência
é assim um subconjunto do conhecimento, este sendo “o conjunto dos enunciados
que denotam ou descrevem objetos”. Excluindo-se todos os outros enunciados,
aqueles que pertencem ao conhecimento são igualmente suscetíveis de ser
declarados falsos ou verdadeiros. Lyotard aponta como específicos do conceito
de ciência, na abrangência do conhecimento, o fato de seus objetos serem
acessíveis recursivamente, isto é, ao modo de observações explícitas, e seus
enunciados serem passíveis de decisão, quanto à pertinência, pelos especialistas
(experts).
O saber extrapola a denotação.
Abrange as performances do corpo (saber-fazer, saber-ouvir, saber-viver), a
experiência em geral da pessoa que não se reduz aos processos cognitivos, mas
também se relaciona com o gosto (saber avaliar) e com o costume.
A relação com o costume permite
estabelecer um paralelismo entre ciência e saber estabelecendo-se conforme o
critério da pertinência. A avaliação do que é ou não pertinente, no caso do
saber, é uma competência do interlocutor como sujeito de cultura enquanto que
no caso da ciência é o especialista, o expert, o cientista.
Esse corte básico se estende
assim na direção de dois horizontes pragmáticos. Mas ao invés de estabelecer de
saída uma oposição entre pensamento primitivo ou selvagem e civilizado ou
científico observa-se uma identidade formal e mesmo uma certa superioridade do
saber, relacionado aos costumes, sobre a “dispersão das competências” como
traço geral da atualidade. O que se estabelece, ao invés disso, é a observação
das pragmáticas do saber e da ciência.
A ciência evoluiu no âmbito das
pragmáticas de ensino e pesquisa. Quanto ao saber tradicional, nele ocorre a
preeminência da pragmática do relato, definindo-se como uma pragmática do saber
narrativo. Lyotard estende as descrições dessas duas vias, em que o traço
principal de oposição se relaciona aos processos de legitimação.
A forma narrativa é o que confere
legitimação ao saber, os mitos e relatos que se constituem como a cultura de um
povo. Mas o ensino e a pesquisa só podem legitimar a ciência através do
desempenho que se relacina com os processoa de argumentação e administração de
provas. A metalíngua que satisfaz a axiomática da linguagem científica foi
tradicionalmente identificada como lógica, mas hoje substituiu-se a lógica por
jogos de linguagem flexíveis que ampliam a ideia da razão de modo que o que era
paralogismo ou paradoxo na ciência clássico-moderna é agora algo que pode
encontrar em algum sistema formal e axiomático uma força de convicção obtendo
assentimento na comunidade de especialistas.
Lyotard mostra como a pragmática
do desempenho científico evoluiu de modo que na atualidade a administração da
prova sai da esfera da pura argumentação (saber a verdade) para entrar na
abrangência da competição nos meios de financiamento (aumentar o poder).
Mas o que intercepta o panorama
do pensamento antigo é a possível captação dessas aquisições conceituais na
compreensão do que realmente se desenvolveu na Grécia. Lyotard equaciona
explicitamente o conceito pré-socrático de “opinião” e o modo de legitimação
narrativo, não científico, dos enunciados. Nesse ponto ele faz referência ao
comentário de Jean Beaufret sobre o poema de Parmênides. Assim torna-se
oportuno introduzir a apreciação da questão pré-socrática a partir dessa
perspectiva.
b) A Espistemologia Não – Platônica
Para introduzir esses temas
político-epistemológicos já no interior do pensamento pré-socrático considero
oportuna a reunião de três testemunhos: o fragmento 34 de Xenófanes de Colofão;
vários fragmentos de Heráclito notadamente 2, 41, 46, 70, 72, 89, 108 e 112; e
quanto ao poema de Parmênides especialmente o fragmento 1, versos 33 e 32 e o
fragmento 8, versos 33 a 40.
O testemunho de Xenófanes é o
mais antigo. Ele assim se pronuncia:
“Ninguém jamais soube algo
claro, nem jamais o saberá
Do que eu digo, tanto dos deuses
como do universo,
Pois, mesmo que fosse bem
sucedido e dissesse o mais perfeito
Ele mesmo não saberia, contudo;
pois a tudo se cola a opinião.”
Hegel confronta duas possíveis
vias de interpretação do trecho citado. Sexto Empírico expressa uma delas de
modo que a ênfase se relaciona à construção “ a tudo” em que se cola a opinião.
Assim Xenófanes teria adotado a opinião como critério, não a certeza.
Já o próprio Hegel vê,
inversamente, que a ênfase deve ser relacionada a “mesmo que” e a “pois” sendo
que essa conjunção não consta em todas as traduções. A interpretação resultante
abarca portanto a explícita constatação, em Xenófanes, de uma oposição entre “episteme”,
conhecimento, e “doxa”, o “saber da opinião”, conforme a expressão de Hegel, o
critério pertencendo à episteme.
Concordo, quanto a isso, com
Hegel. Mas ele prossegue identificando a visão de Xenófanes dessa episteme como
algo capaz de suprassumir “tudo que é determinado”. A epistemê seria um conhecimento
teo-lógico, pois se relaciona assim, em Xenófanes, apenas “à consciência do
divino” enquanto “pura dialética”. Já isso me parece bastante duvidoso.
No entanto, no desenvolvimento
das considerações atinentes a esse problema do critério, torna-se oportuno
examinar agora o que ocorre em Heráclito e Parmênides. Utilizo como referência
de base o texto dos Pensadores, assim como a tradução do fragmento de
Xenófanes.
O fragmento 2 de Heráclito é
particularmente conveniente pois define expressamente o Logos:
“Por isso é preciso seguir
o-que-é-com, (isto é, o comum; pois o comum é –que-é-com). Mas, o logos sendo
o-que-é-com, vivem os homens como se tivessem uma inteligência particular”.
Também se traduz “comum” no
sentido de “imparcial”. A introdução do parágrafo pode ser lida “por isso é
preciso aderir ao que é comum. Pois o comum é imparcial”. O jogo de palavras de
Heráclito é exemplar pois tratando-se de uma definição do “Logos”, isto é,
tratando-se da questão da faculdade de conhecer, ele utiliza o termo xynós, que
se toma habitualmente como sinônimo de koinós (comum), derivando provavelmente
de xyn nói “o que compreende”.
O que compreende é tanto o que
abrange quanto o que é abrangido, na frase de Heráclito. Não só o Logos
compreende abrangendo nele o compreendido mas o Logos mesmo é a comunidade do
abrangico, aquilo mesmo que se compreendeu. O Logos é o que supera a oposição
ativo/passivo, sendo ele a própria abrangência.
Comum também é o que pertence a
todos. Os homens porém não se comportam como a sua inclusão no todo ou comum, enquanto
homens, deveria fazer supor. Quando o termo “os homens” surge na frase, com
ele surge também o “particular”. Mas a frase fica somente nisso e sua suspensão
parece introduzir um silêncio, fazer ver um vazio por onde perpassa a opinião
sem aderir propriamente a esse fundo tornado visível.
De onde vem que “os homens”, que
supõem-se em todo lugar como sujeitos do Logos, vivem agora como se tivessem
uma inteligência, um Logos particular? Como foi que o Logos se particularizou?
A cisão da essência parece assim
ter surgido na introdução, não na conclusão da filosofia, entre os gregos, se
Logos quer ter algo a ver com essência. Há cisão no logos. Ele que é o comum é
vivido como o particular. A cisão, o vazio, não se deixa superar de nenhum modo
no interior da sentença. Ela não deixa, porém, nada no exterior. O vazio é
mostrado pelo estar suspenso da sentença.
Assim somos impelidos a procurar
ainda, e algo incomodados por essa visão do vazio que atordoa, buscamos outras
sentenças, como se ansiando por algo mais dessas palavras enigmáticas,
obscuras. As palavras de Heráclito nos envolveram já, de todo.
Os fragmentos posteriores que
selecionei podem se reunir em dois sentidos. 41,46, 80 e 112 se relacionam ao
Logos; 70,71,72 e 89, com os homens. Convem iniciar a procura pelo fragmento
80, pois ele repete o termo xynón:
“É´ preciso saber que o
combate é o-que-é-com, e que justiça ( é ) discórdia e que todas (as coisas)
vem a ser segundo discórdia e necessidade”.
Somos assim agora melhor informados
sobre o Logos. O comum é o combate! Mas por que se surpreender ? Não sabemos
todos que Heráclito falava da tensão dos opostos, harmonia do arco e da lira,
de pólemos, o conflito, como o pai de todas as coisas (frg. 53)?
O que efetivamente surpreende é
que se o combate é a origem de tudo e o Logos é combate, então é o Logos a
origem de tudo. O “tudo” se insinua agora, porém, entre o homem e o Logos. Já o
fragmento 41 expressa: “pois uma só é a (coisa) sábia, possuir o
conhecimento que tudo dirige através de tudo”.
“Possuir o conhecimento” também
se traduz “conhecer o desígnio”. Mas assim do vazio à mais completa surpresa da
revelação viemos a nos encontrar em plena ambivalência. A frase se conserva na
referência a uma só coisa, essa que é sábia. Mas essa coisa se define: possuir
o conhecimento. Até aí tudo bastante simples, uma referência dotada da maior
clareza, pois pode ser declinada como um predicativo: a coisa sábia é possuir o
conhecimento. Tão manifesta é a atribuição que sua enunciação poderia ser
nomeada tautologia. No entanto o complemento muda, ele revira, propriamente,
essa conclusão. Pois o complemento se afirma do conhecimento. Mas como se
afirma?
Ele diz que o conhecimento que se
deve possuir é aquele, e só aquele, que a tudo conduz através de tudo? Ou ele
afirma que o conhecimento é aquilo mesmo que guia a tudo através de tudo – e
que esse é o verdadeiro conhecimento, ou seja, conhecer a natureza do
conhecimento?
A ambivalência não poderia se
expressar de modo mais conveniente, pois ela se endereça, por assim dizer, por
meio do termo mais indeterminado, o termo “tudo”. Mas aqui ela parece se
instalar de algum modo desafiando-se a si mesma, pois em todo caso resta algo a
afirmar, ou deduzir ou compreender; tudo possui um desígnio que o dirige. Não é
assim? Mas não seria uma ilusão?
Mais profundamente se poderia
pensar: não, ela não se instala aí, ela apenas se mascara por meio da
indeterminação. Ambivalência porém não se pode identificar como indeterminação.
Sobretudo, eis o que nos confidencia a frase.
Indeterminação é ainda algo como
o Logos: abrange todas as coisas. Mas de modo muito inverso ao Logos,
indeterminação não permite distinguir a cada uma. A abrangência do Logos,
lembramos, não se dá apenas como o abranger, o ativo, mas também como o
abrangido, o passivo. Sua neutralidade, sendo o que é comum entre um e outro,
permite recuperar o que cada um é, sendo “com”. O abranger do indeterminado é
só atividade, um eterno justapor, ou, conservando a expressão de Heidegger,
amontoar.
O sujeito da ambivalência não é o
tudo, é aquele que deve conhecer. O desígnio, o conhecimento, é o que conduz o
sábio em tudo através de tudo ou é o que o sábio deve conhecer como pertencendo
ao conhecimento enquanto este se exerce sobre tudo através de tudo. Mas há
movimento nesse verbo, dirigir, conduzir, o ser guiado do sábio é caminho pelo
meio das coisas, entre todas as coisas sendo apenas esse verbo a coisa que se
atribui ao sábio enquanto ele é sábio.
Entre todas as coisas amontoadas
o Logos pode estabelecer uma comunidade dotando a cada uma do seu ser o que é
com todas as outras. Igualdade e diferença se inter-relacionam na unidade do
Logos mas agora uma via se estendeu por sobre o abismo, de algum modo
endereçando e unindo o Logos ao homem como a efetividade de possuir, ou ser
guiado por, conhecimento.
A ambivalência está precisamente
nesse “entre” a passividade de se deixar conduzir e guiar e a atividade de
possuir. Mas se a via se estende sobre o abismo a ambivalência expressa na
frase não se retira pois se o Logos supera a seu modo a oposição do ativo e do
passivo na abrangência, o homem que o recebe continua na contingência do
possuir e do ser guiado através.
A ambivalência conserva o fato de
que nada nos foi esclarecido sobre a opinião, que o fragmento 70 define como “jogos
de crianças”. Pois se “é preciso lembrar-se também do que esquece por
onde passa o caminho”, conforme o fragmento seguinte (71), não seria o caso
daquele que se conservou na sua “inteligência particular”?
A seqüência inclui o fragmento
72:
“Do Logos com que mais
constantemente convivem, deste divergem; e (as coisas) que encontram cada dia,
estas lhes aparecem estranhas”.
Do vazio à revelação, desta à
ambivalência que se instala finalmente na atribuição do homem enquanto sábio,
nos confrontamos agora com o contraste entre o sábio que se deixa guiar
possuindo o Logos e aqueles que dele, do Logos, divergem.
Mas desse modo parece que fizemos
um círculo já que o contraste era aquilo mesmo que instaurava o vazio. Se o que
assim se instaurava se propunha entre o imparcial e a parcialidade isso só se
instituía como vazio entre o Logos comum e a inteligência particular, os homens
dessa inteligência apresentando-se como enigma, figura do hiato impresso na
compreensão da frase. Agora o contraste se inseriu de outro modo entre a coisa
única sábia e o tudo, isto é, todas as coisas que por ela se deixam conduzir
através de tudo, entre a episteme e a opinião, entre o sábio e o vulgar.
A unidade do que é sábio é
ressaltada no fragmento 108:
“De quantos ouvi dizer nenhum
chega a esse ponto de conhecer que a (coisa) sábia é separada de todas”.
Quanto ao que não é sábio, ora se
atribui à dispersão das coisas indeterminadas, ora à puerilidade, ora à
presunção identificada a uma epilepsia, ora, o que é recorrente entre os
fragmentos, à opinião no sentido da parcialidade.
O contraste parece se instituir
entre o estático, o que se detém, e o movimento o que se pode conduzir através.
Portanto entre o caminho e esquecimento dele, a parada. A culminância das figuras
do contraste se expressa no fragmento 89, entre os adormecidos e os despertos.
Enquanto que “para os despertos há um mundo comum, os que dormem se reviram
cada um sobre o seu mundo próprio”.
Há alguns pontos de convergência
entre esssa leitura de Heráclito e aquilo que encontramos em Parmênides.
O que se estende do vazio à
revelação, da ambivalência ao contraste, em Heráclito, é uma concepção de
conhecimento bastante conexa à noção axial do devir incessante. O fogo pelo
qual “se trocam todas (as coisas)” , assim como mercadorias por ouro e ouro por
mercadorias, sugere a imagem de um processo em constante atuação. O Logos é
combate, ser sábio é poder ser conduzido por um caminho, os que dormem ou
esquecem parecem não sair do lugar, mas essas metáforas parecem não se aplicar
no sentido de um efetivo andar e sim no sentido do desenvolvimento do conceito,
do caminho do pensamento. Em todo caso trata-se de um mundo comum, “o mesmo de
todos os seres” que “nenhum deus, nenhum homem” fez, mas que é e será “fogo
sempre vivo”.
O poema de Parmênides começa
efetivamente com o deixar-se guiar do sábio pelo caminho. Este conduz às
portas que a justiça abre. O caminho continua até o acolhimento, o encontro com
a deusa ou daímon. Mas então algo surpreendente ocorre. Tão surpreendente que
até hoje a controvérsia subsiste sobre o seu sentido.
Pois ao invés de descerrarem-se,
sem mais, as palavras da verdade, os versos 31 e 32 do fragmento 1 testemunham:
“No entanto também isto
aprenderás, como as aparências deviam validamente ser, tudo por tudo
atravessando”.
Vemos desse modo que assim como
em Heráclito, em Parmênides também há lugar para a caracterização da opinião.
Em Heráclito essa caracterização se encontra aqui e ali, já em Parmênides o
discurso sobre a opinião se anuncia como tal a partir do verso 50 do fragmento
8. Mas a questão é: porque se ocupar da opinião justamente aí onde se enuncia
estar no caminho mesmo da verdade?
A expressão de Parmênides "como
as aparências deviam validamente ser, tudo por tudo atravessando” parece uma
resposta a ressoar com as palavras de Xenófanes: “ pois a opinião em tudo se
cola”. Mas será que esses versos são mesmo para ser lidos assim? Não se poderia
ao invés, aproxima-los de Heráclito pelo uso do termo “tudo por tudo” de modo
que é a procura ou o conhecimento que deve conduzir a tudo através de tudo?
Jean Beaufret se estende
longamente sobre esse problema. Efetivamente assim traduziu do grego Diels,
enquanto Wilamowitz se inclinará por ver na multiplicidade da aparência “uma
presença que merece ser recebida” atravessando todas as coisas. Na consecução
de seu estudo Beaufret citará ainda Karl Reinhardt como tendo assimilado mais
corretamente o sentido dos versos de Parmênides, como afirmou também Heidegger.
Pois se para Diels a tradução
sugere que a opinião deve ser assim exposta para ser desacreditada por uma
pesquisa todo penetrante, isso ocorre porque a doxa pertence ao rival, logo
deve ser apontada, negada, superada. Já Wilamowitz pensa que a doxa merece ser
recebida a título de hipótese. Ela abarca tudo porque na qualidade de hipótese
é inteiramente verossímil. Verossímil, mas não verdadeiro. Reinhardt contudo
inclina-se por ver em Parmênides a necessidade de pensar a pressuposição
recíproca de doxa e episteme.
Ora essa pressuposição é aquilo
mesmo que Beaufret aceita como interior ao pensamento de Parmênides. Contudo a
conclusão de Reinhardt, a partir daí, se torna francamente oposta aos
propósitos de Beaufret.
Reinhardt sugere que a
necessidade de pensar a doxa é aquela de pensar a queda, uma espécie de “petição
de platonismo”, enquanto Beufret inicia sua reflexão pela contraposição entre a
pluralidade dos dokounta, as aparências, e a unidade do éon, o ser, mas de modo
que ambos os termos contrapostos se encontram no único e mesmo mundo dos
homens. É inevitável aqui lembrar Heráclito que fazia o mesmo percurso, como
vimos.
Há assim uma unidade do conhecer
e uma pluralidade de opiniões. Essa unidade Heráclito nomeia conhecimento ou
desígnio ( Logos ), Parmênides, Ser (Éon). Mas vimos que Logos, o-que-é-com, é
combate e origem de todas as coisas, do mesmo modo que em parmênides o ser “ente
a ente adere”.
Chega-se ao impasse que a estase
do poema enuncia. Pois a opinião deve de algum modo validamente ser, em
Parmênides, sendo ainda em Heráclito a estranheza das coisas que se encontra a
cada dia quando há divergência do Logos. Mas o ser adere ente a ente assim como
o desígnio que conduz tudo através de tudo, O que é então que faz a cisão do
Logos, a indeterminação da opinião? A questão se encaminha para o recolhimento.
As coisas tal como se manifestam não podem ser recolhidas pois seu modo de
manifestar, de aparecer, é o múltiplo, a multidão dos entes. Elas só podem ser
justapostas, “tudo” é um amontoado, não uma reunião. Mas se a questão inaugura
recolhimento é porque o Logos as reúne naquilo que elas são, o termo “todas”
agora unificando-as em seu ser.
O ser não nomeado em cada
nomeação do ente é a unidade ou via única que se estende, como assinalou
Beaufret, como lugar decisivo onde todo caminho se reparte em três, ser,
não-ser e aparência. Pois, que é comum a todos os entes senão que eles são,
conforme só pode apreende-lo o Logos? Assim o “fazer segundo a natureza” da
sabedoria, é: escutando, como afirma Heráclito (frg. 112). Escutando o Logos, o
pensar sensato, o dizer verídico. A oposição dos planos funciona, tanto
fragmentariamente em Heráclito quanto pela divisão das partes em Parmênides,
como uma transposição a um lugar “outro”, isto é, não meramente outro lugar,
mas a um plano de imanência onde há pensamento e pensar. Aqui o pensamento
encontra o impensável, mas também se reencontra.
O que é impensável? Considerando
o engano da visão, a epilepsia da presunção, que é essa presunção? A “doença
sagrada” como se sabe, faz saltar, tremer, revirar a vista. Ora, qual é a
pressuposição de toda opinião? É que ela é a própria coisa, como se saltasse
fora de si, como se pudesse ultrapassar a condição de ter olhos e de pensar.
Mas o conhecimento detecta que isso precisamente é a opinião. Crer nas coisas
como se particularmente se as vivenciasse nelas mesmas assim como
particularmente se as experimenta em nós. Essa entidade-em-si é porém
impensável. O ser-em-si, não. O ser é o mesmo que o pensar.
Assim o pensamento se reencontra
naquilo que ele pensa. O fragmento 3 do poema “pois o mesmo é pensar e ser” se
complementa com os versos 34 a 36 do fragmento 8:
“O mesmo é pensar e em vista
de que é pensamento. Pois não sem o que é, no qual é revelado em palavra,
acharás o pensar”.
Heidegger traduz: “o mesmo é a
percepção e aquilo em virtude do qual a percepção se dá”. Aquilo “em virtude do
qual” é o ser. Mas aquilo a que a percepção pertence é a physis, o vigor que
impera e que impera igualmente na percepção. As palavras de Heráclito ressoam
com as de Parmênides pois a Physis heraclítica se enunciou como o Hén (frg.
50), a unidade. Kant enunciou no sistema das categorias a fundamentação
originária da percepção na unidade. O que se funda assim como transcendental é
o que manifesta ou pode manifestar algo como Natureza.
Mas isso na medida em que a
categoria de unidade se funda abstratamente como “razão” ou “forma pura”. Já o
pensamento matinal dos gregos, em Heidegger, evolui no elemento do Logos que
não se define formalmente e sim existencialmente. A propósito dessa observação
podemos retomar o fragmento 108 de Heráclito conforme a leitura crítica de
Heidegger, Isto é, conforme a qual a tradução habitual “de todas as palavras que
ouvi, nenhuma chegou a reconhecer que o que é sábio é separado de todas as coisas”,
está errada.
Sobre as palavras sofón e
kekorisménon incide a crítica heideggeriada pois não se traduziria
respectivamente por “sábio” ou (a coisa) “sábia”, nem de “separado”, mas do
Logos como aquilo que é a saber e de khorizéin como derivação de he khóra – o
território, o espaço ou o país natal.
A assimilação do conceito de
espaço heideggeriano com o pensamento pré-socrático autêntico se encaminha no
sentido de desfazer o prejulgamento moderno, derivado do platonismo, pelo qual
o espaço se geometrizou como pura extensão. A Khora, na visão grega mais
originária, é o espaço que acolhe, que recolhe, espaço concreto e qualificado
ao invés da noção abstrata, físico-matemática. É o “lugar”, isto é, o aí do
ser, nunca indiferente ao que nele é. O Logos sendo o que recolhe na unidade
não se poderia assimilar a uma categoria abstrata ou simplesmente lógica e sim
como lugar do des-velamento onde há verdade ec-stática, isto é, que só se
clareia temporalizando-se.
Mas precisamente este vínculo do
ser com a verdade que se apreende como o resíduo da identidade do pensar ao ser
se desdobra, a meu ver, no pensamento pré-socrático, tanto no sentido do
fundamento, quanto no sentido de critério.
Quanto ao fundamento, termo aqui
apenas aproximado para uma noção de “como isso se dá”, as análises de Heidegger
são concludentes. É o Logos que reúne o espaço do ser pelo qual há fenômeno,
natureza, vir a ser dos entes como aquilo que eles são. Esse seria o
conhecimento fundamental, ontológico.
Mas quanto ao critério considero-o
não menos importante. Pois pode-se compreender os pré-socráticos como o
movimento que, de modo pioneiro, empreendeu a crítica da legitimação pelo
relato, que tornou expressa a necessidade de uma nova legitimação pavimentando
a via do conhecimento científico.
Não se deve minimizar o aspecto
de crítica à tradição de adesão ao discurso do mito, que se encontra nos
fragmentos de Xenófanes e Heráclito, por exemplo. Mas não se pode antecipar
assim que isso, para eles, significava “ciência” tal como se tornou viável a
partir da instituição da metafísica ocidental. Nesse início há apenas o projeto
de um conhecimento separado do saber do mito, da opinião.
À falta de um método
sistematizado, ele mesmo já desenvolvendo-se no âmbito da metafísica
instituída, não se pode contudo ignorar o papel da experiência nesse processo
pioneiro de ruptura com o saber. O quadro epistêmico desde a transição do
arcaico , na Grécia, até o apogeu clássico, isto é, abrangendo pré-socráticos e
sofistas, parece não deixar dúvidas quanto a isso que Sagan ressaltou em sua
análise das origens da ciência. As teorias cosmológicas não esgotam de modo
algum a produção de conhecimentos que abrangem astronomia, matemática,
geografia, física, medicina. A expressão de Xenófanes parece-me particularmente
destinada a registrar a mudança no regime do enunciado.
O saber narrativo tradicional,
consensual, legitimado pelos costumes, não se põe em questão, isto é, não há aí
lugar para o problema da validade. Uma vez que se configurou sob a forma do
relato, obtendo o consendo da veiculação, da repetição através dos processos
tradicionais de divulgação como mito ou história sancionada como tal, ele se
institui como verdade, isto é, como objeto do saber, objeto no sentido de
aquisição de uma peça numa coleção de peças reunidas pelo mesmo princípio.
Ainda que fosse verdadeiro o conteúdo, no sentido de que se pudesse comprovar,
não haveria como estabelecer essa sua verdade pois o requisito da coleção é ser
um objeto contado, um relato transmitido e aceito pelos ouvintes, não ser algo
que se tenha que demonstrar fora desse domínio ritual.
A opinião é uma crença que se
quer manter como crença, excluindo a prova. É verdade porque está escrito ou
registrado na memória coletiva, não o inverso. Mas em todos aquelas esferas de
conhecimento especializado resulta uma exigência de outro nível. Assim os dois
domínios, que Lyotard apontou como pertencendo à pragmática do conhecimento
enquanto ciência, já se podem encontrar entre os pré-socráticos de algum modo:
desenvolvimento da argumentação, o ágon, e a administração da prova, como a
confirmação de previsões na observação astronômica, a eficiência de
instrumentos cuja invenção depende da aplicação de princípios ou o
reconhecimento de sintomas e eventualmente a cura no âmbito terapêutico.
O Logos é combate, o ágon pertence como lugar ao Logos. Se a sofística depende da Atenas democrática e esta não se desenvolve do mesmo modo que a pequena pólis que já havia adotado o mesmo regime é porque somente aí a democracia se incorporou como ideal do mundo inteiro, isto é, pan-helênico. A questão política torna o ágon central pois o consenso não se estabelece entre iguais sem que essa igualdade seja a reunião do singular. Na pequena cidade democrática a cidadania é um fenômeno local, ela não exclui o elemento apátrida de dentro, o escravo, o estrangeiro, mas do exterior, do outro "demos".
Em Atenas a comunidade de
cidadãos se estende como o mundo político, isto é, originado pelo Logos,
fundado pelo direito, não pelo acesso narrativo de um mesmo princípio mítico
tradicional. A tensão entre lei e costume, fundamentação jurídica e
fundamentação mítica ressoa exemplarmente na “Antígona” e sua exigência de
cumprimento da regra do costume que esbarra na instituição legal do Estado.
Entre os pré-socráticos o
critério e sua exigência já haviam lançado a ruptura com o saber narrativo. Na
sofística essa ruptura se estatui, isto é, se torna princípio ético do Estado
democrático ateniense. Contudo esse conhecimento resultante não se parece com
isso que denominamos ciência. Heidegger desenvolveu longamente as bases do
desacorda de visões, a metafísica e a originária. À ideia contrapõe-se a
physis, à Khora platônica análoga à extensão cartesiana opõe-se o lugar
qualificado da existência. De modo geral se pode constatar que a operação
metafísico-platônica é a separação do elemento racional, do Logos, como
incompatível com o aí do Ser.
Através dessa separação fundamental a verdade se apresenta como relação extrínsica de adequação entre as palavreas e os estados de coisas. Mas se o antagonismo de Platão se endereça aos sofistas de modo tão profundo que a maior parte de sua obra os constitui como interlocutores polêmicos indispensáveis, seria oportuno rever agora as relações entre sofistas e filósofos pré-socráticos. Que imagem desse conhecimento novo, que não se quer mais confundir com o saber, transita entre um e outro desses movimentos?
Através dessa separação fundamental a verdade se apresenta como relação extrínsica de adequação entre as palavreas e os estados de coisas. Mas se o antagonismo de Platão se endereça aos sofistas de modo tão profundo que a maior parte de sua obra os constitui como interlocutores polêmicos indispensáveis, seria oportuno rever agora as relações entre sofistas e filósofos pré-socráticos. Que imagem desse conhecimento novo, que não se quer mais confundir com o saber, transita entre um e outro desses movimentos?
Anteriormente observei uma certa
continuidade de ambientação entre o século VI pré-socrático e o século IV
platônico. Essa convergência já se recupera, por exemplo, na descrição de
Jaeger, através da retomada da ofensiva oligárquica. Isso é compreensível pois
lá tratava-se de tentar impedir que a democracia se estabelecesse e depois
tratava-se de tentar recuperar o espaço ambivalente de sua crise. Em meio a
esses dois momentos o século V assemelha-se a um “plateau”, uma realidade
singular que constituiu uma possibilidade completamente sem paralelo na
história antiga. Mas agora trata-se de penetrar nesse espaço livre do plateau,
observando o relevo e os processos reconstituíveis de suas estratificações,
compor suas linhas, detectar as descontinuidades, fugas e rupturas.
Nesse sentido algo proveitoso
seria ler os fragmentos sofísticos à luz dos fragmentos pré-socráticos como um
grande corpo de escritos não – platônico. A recusa do termo pré-platônico
relaciona-se ao fato de que esse corpo incluiria muito de pós-platonismo, como
a segunda sofística, por exemplo. Mas a análise seria muito extensa. Aqui
observarei a convergência de três textos. A frase “subjetivo-relativista” de
Protágoras sobre o homem-metron, o tratado do não-ser de Górgias e a teoria dos
nomes de Crátilo.
Seria bastante óbvio opor a formulação protagórica pela qual aquilo que é para cada um é assim como é para ele, com os fragmentos de Heráclito que criticam os dormentes que se inclinam cada um para o seu mundo particular. Não obstante a facilidade dessa solução, penso que há aí a mesma visão do Logos. Trata-se em Protágoras não de estatuir quanto ao fundamento ou mesmo quanto ao critério mas quanto ao que do fundamento se desdobra enquanto realidade perceptiva.
Seria bastante óbvio opor a formulação protagórica pela qual aquilo que é para cada um é assim como é para ele, com os fragmentos de Heráclito que criticam os dormentes que se inclinam cada um para o seu mundo particular. Não obstante a facilidade dessa solução, penso que há aí a mesma visão do Logos. Trata-se em Protágoras não de estatuir quanto ao fundamento ou mesmo quanto ao critério mas quanto ao que do fundamento se desdobra enquanto realidade perceptiva.
Assim essas formulações de
Heráclito permitem compreender a physis na unidade do Logos, isto é, a natureza
na abrangência do ser. Mas a partir daí a formulação de Parmênides, que vimos
não ser oposta à de Heráclito, incide: “o mesmo é pensar e em vista de que é
pensamento”. Jean Beaufret assinalou o sentido da questão que a frase enuncia.
A relação de abertura até o objeto que se instaura na pré-compreensão que é a
reunião do Ser pelo Logos. Intencionalidade, poder-se-ia utilizar o termo, ou o
Bezienhung auf kantiano. Em todo caso trata-se daquilo que é para – aquilo que
não se pode de cada um refutar ou demonstrar que seja de qualquer outro modo.
Conserva-se o pensamento, em Protágoras como em Parmênides, no âmbito do
desvelamento.
Mas conserva-se também o pensamento no mesmo âmbito em Górgias. Quanto a isso parece-me o mais oportuno o exame da “ Tese de Kant Sobre o Ser”, de Heidegger. No domínio do pensamento kantiano já está em pleno apogeu a metafísica. A análise de Heidegger mostra que os usos do ser já se desdobraram: há o lógico, pelo qual o ser se reduziu à cópula, a posição de sujeito e predicado, sua ligação. Há o existencial, que se pode apreender no sentido da “essência unificante-desvelante” do Logos, e há o transcendental que em Kant se designa como puras formas vazias, de tempo e espaço, e de que derivam ontologicamente as modalidades de ser-possível, ser-atual, ser-necessário.
A nota introdutória de E. Stein
nos Pensadores já comenta que na análise dos três sentidos do ser a que o texto
heideggeriano procede reside uma intenção de mostrar a impossibilidade da
ontologia pois “não se dispõe de um conceito universal de ser”. Esses três
sentidos, Stein rotula como existência, ser da predicação e ser da identidade.
O que Heidegger enuncia é que a
reflexão, que elucida o caráter de ser posto do objeto (posição), e a reflexão
da reflexão que se dirige ao próprio modo de pôr do pensamento, se designam
respectivamente como horizonte e organon da interpretação do ser dos entes. A
ambiguidade permanece entre ser e pensar. Mas se a esse caráter da
objetividade corresponde o horizonte do entendimento pode-se propor o ser em
outro sentido, isto é, precisamente naquele que pertence ao pensamento
originário dos gregos.
Agora propõem-se o Ser como a “presença que se ilumina e demora” daquilo que é sempre como é mas não desde o início como o que tem “caráter de ser-posto na posição pelo entendimento”. Heidegger utiliza então a expressão: “Ser não pode ser. Se fosse (ser) não mais permaneceria ser, mas seria um ente”. Nada poderia ser mais evocativo do tratado de Górgias.
Agora propõem-se o Ser como a “presença que se ilumina e demora” daquilo que é sempre como é mas não desde o início como o que tem “caráter de ser-posto na posição pelo entendimento”. Heidegger utiliza então a expressão: “Ser não pode ser. Se fosse (ser) não mais permaneceria ser, mas seria um ente”. Nada poderia ser mais evocativo do tratado de Górgias.
Pode-se notar que a expressão
joga com os múltiplos sentidos, já observados, da palavra ser. Pelo trecho em
que consta pode-se deduzir que o que afirma é que o ser enquanto existência não
pode ser o ser predicativo, isto é, não pode ser dado como constatação qualquer
de um ente. Esse é o alcance da cisão operada pela progressão das negações de
Górgias. Se algo fose não poderia ser pensado e se pudesse ser pensado não
poderia ser dito, portanto nada se poderia afirmar como sendo o Ser. O que é
pensado e dito não é o Ser e este se tornou correlato ao Nada. Mas o Nada se
tornou assim, pela expressão do tratado, o que se ofereceu ao pensar – para lá
do pensamento daquilo que se pode convenientemente dizer.
Contudo Parmênides também se
pronuncia sobre a relação de pensamento e linguagem. As três vias propostas, do
não-ser, do ser e da aparência apresentam-se também como possibilidades de
linguagem. A do não-ser a interdita. A do ser e a da aparência a compreendem,
mas não do mesmo modo.
A partir do verso 50 do fragmento
8, quanto se introduz o discurso sobre a opinião, este é anunciado como sendo
uma lição a respeito da opinião. Deve ser recebida ouvindo-se “a ordem
enganadora” das palavras que a revelam. O que se segue assemelha-se à paródia
do discurso mítico tradicional. Assim a linguagem conserva a sua duplicidade,
sua aliança ao mesmo tempo com Aletheia ou o verdadeiro e Ápate ou a ilusão.
É interessante notar que o poema
não se traduziu “a ordem falsa”, pseudés. Pois não se trata, como já observamos
anteriormente, no domínio da narrativa mítica, de uma oposição da verdade ao
falso mas ao esquecimento ou ao engano. O esquecimento é ausência do discurso,
sua impossibilidade de ser dito, mas o engano pode ser uma estratégia,
funcionando de algum modo no âmbito da persuasão.
Assim o poema de Parmênides situa de modo cortante a ruptura com a pragmática narrativa ao mesmo tempo em que desmascara o seu mecanismo. Mas os versos 34 a 36 não são menos enigmáticos, o que se mostra na seqüência, abrangendo o que vem após até o ponto em que começa a lição sobre a opinião. Pois o que se segue à enunciação do mesmo que une o pensar e aquilo de que é pensamento é a linguagem “pois não sem o que é, no qual é revelado em palavra, acharás o pensar”.
É no que é que o pensar se revela em palavra. Assim a palavra não revela o ser mas no ser ela revela o que é o pensar. Encontramos o pensar com-o-que-é. No que é, o pensar se revela em palavra.
Assim o poema de Parmênides situa de modo cortante a ruptura com a pragmática narrativa ao mesmo tempo em que desmascara o seu mecanismo. Mas os versos 34 a 36 não são menos enigmáticos, o que se mostra na seqüência, abrangendo o que vem após até o ponto em que começa a lição sobre a opinião. Pois o que se segue à enunciação do mesmo que une o pensar e aquilo de que é pensamento é a linguagem “pois não sem o que é, no qual é revelado em palavra, acharás o pensar”.
É no que é que o pensar se revela em palavra. Assim a palavra não revela o ser mas no ser ela revela o que é o pensar. Encontramos o pensar com-o-que-é. No que é, o pensar se revela em palavra.
Ocorre a entrada no regime da
enunciação que se faz na via que é a do Ser. Mas então “tudo será nome” e entre
os pares de opostos que se nomeiam está “ser e também não”. Como é que o
não-ser se tornou nomeável se o não-ser se definiu como incognoscível e
inacessível ao dizer?
Poderíamos resolver a questão
pelo traçado entre o não-ser absoluto, o que não existe, o Nada, e o não-ser
relativo, o ato de negar que algo determinado seja. Nesse caso o tudo que se
estatui na conviccção de ser verdade será nome. A indeterminação do “tudo” se
tornou a pluralidade dos entes que se nomeiam na clareza da linguagem
verdadeira. Mas poderia se tratar de uma ilusão essa “convicção” já que ela
pertence aos “mortais”.
Com efeito, o que os nomes
nomeiam são processos de alternância entre pares de opostos, isto é, o que os
nomes fazem é fixar momentos de uma mutação contínua. Mas o ser “nem era ou é
ou será outro fora do que é”, sendo inteiro e imóvel. Nos versos 46 e 47 ainda
se especifica: pois nem não ente é, que o impeça de chegar a ser igual, nem
ente é que fosse a partir do ente aqui mais e ali menos, pois é todo inviolado”.
Interpretando desse modo
Nietzsche caracterizou a ruptura de Parmênides com a opinião no sentido da
reserva a apenas uma asserção como propriedade distintiva do conhecimento real,
isto é, que o ser é, com seu correlato, o não-ser não é. No entanto creio que a
“convicção” ainda que relacionada aos “entes” e partilhada por “mortais” não se
estabelece no âmbito daquilo que vem após como lugar do enganoso.
Inversamente, o que ocorre é uma
delimitação entre o Ser e os Entes. O que só se pode afirmar do ser é que ele
é, mas sendo, e não se confundindo com os entes, é nele que os entes
são. Assim pode haver “revelação”, logo pode haver discurso verdadeiro dos
entes, isto é, conhecimento que não se confunde com o discurso enganoso da
opinião.
O revelar do poema salta como a
eclosão do desvelamento do que vigora na Physis, no vigorar. A pre-sença nesse
pré-existir que só se endereça como tal ao ser humano, que existe no Logos. A
tese do Crátilo se enuncia então: tudo será nome, nome é e será tudo aquilo que
ele nomeia, não podendo deixar de ser, isto é, não podendo o ente deixar de se
revelar, em palavra, no ser.
O pensamento retórico guarda o
liame com a ontologia fundamental dos pré-socráticos e a prática dos sofistas
dá continuidade, em certo sentido, à proliferação das pragmáticas do
conhecimento pois se abandona as hipóteses cosmológicas, registra o interesse e
o exercício em astronomia, medicina, matemática e outros campos de investigação
especializados.
No entanto a relação de crítica e
ruptura com a pragmática narrativa se faz de um modo que considero não de todo
metafísico.
c) Transições epistemológicas –
da fundação do platonismo à nova imagem do pensamento
Seria, com efeito, fácil propor que o retrocesso platônico abrange a legitimação pelo relato – mito da caverna, etc. No entanto o que ocorre no pensamento retórico e contra o que Platão se predispõe é não o abandono mas uma utilização do relato dentro da compreensão autêntica do Logos em seu estatuto poiético, ou seja, como destinação do Ser. Já a utilização platônica do relato se movimenta no sentido de desconsiderar o caráter de combate – fundamentalmente abertura, liberdade, se do Logos - para determina-lo como verdade logicamente predicável sempre dada de uma vez por todas com seu pressuposto de moral correlato.
O que há de metafísico é que a
mesma atitude de que há verdade sempre dada, resultante da audição do mito, se
propõe como imagem do pensamento a ser adotada como ciência ou conhecimento –
episteme por oposição à doxa, no platonismo.
Os meios mudam, da dialética ao
método experimental, mas a atitude fundada como imagem de pensamento permaneceu
a mesma. Assim o desenvolvimento da metafísica, desde o platonismo, redundou
nessa oposição básica, apontada por Lyotard, entre as duas legitimações, pela
narrativa ou pelo desempenho. Mas ambos se reúnem na história da metafísica
ocidental por compartilharem a mesma expectativa de certeza ainda que não se
contentando do mesmo modo com seus resultados já que uma precisa apenas do
consenso da cultura e outra requer a demonstração no desdobramento dos
processos de argumentação e prova.
Além disso, entre o que é comum heraclíteo ou protagórico além da ilusão e a episteme de Platão não há convergência necessária, se aquele é entre os homens, mas este é puramente ideal, ultra-mundano e divino, não humano. Entre Heráclito e Protágoras tendo havido alguma mudança na consideração da doxa, mas não radical - se ela pode ter vindo a ser apenas afirmação do particular, é ainda afirmação entre todos os homens, restando ambíguo se o "metrom" é o indivíduo ou a espécie. E tendo permanecido a cisão fundamental do afirmável e do fantasioso.
Além disso, entre o que é comum heraclíteo ou protagórico além da ilusão e a episteme de Platão não há convergência necessária, se aquele é entre os homens, mas este é puramente ideal, ultra-mundano e divino, não humano. Entre Heráclito e Protágoras tendo havido alguma mudança na consideração da doxa, mas não radical - se ela pode ter vindo a ser apenas afirmação do particular, é ainda afirmação entre todos os homens, restando ambíguo se o "metrom" é o indivíduo ou a espécie. E tendo permanecido a cisão fundamental do afirmável e do fantasioso.
Contudo Lyotard não se limita à
descrição desses dois estatutos pragmáticos definidos só a partir de Platão, o epistêmico e o opinativo. Ele detecta, com efeito, na
ruptura de Wittgenstein com o Círculo de Viena, ou ao menos em seu não
comprometimento, “a perspectiva de um outro tipo de legitimação que não fosse o
desempenho” relacionando-se ao mundo pós-moderno.
A novidade é que de modo algum se
poderia contrapor o esgotamento das possibilidades de legitimação a partir das
pragmáticas descritas, isto é, supor que daí resulta apenas a selvageria. E
aqui Lyotard converge com Appel ao ancorar esse outro tipo de legitimação na
prática de linguagem e na interação comunicacional.
A observação de Wittgenstein como o marco dessa realidade pós-moderna também é comum entre ambos. Mas enquanto Appel estabelece a rede de relações que desde a reação ao positivismo funda a tradição da hermenêutica contemporânea enraizada no desenvolvimento das ciências humanas, Lyotard descreve o abandono do paradigma da função derivada, logo da previsibilidade , do determinismo, a partir de trabalhos científicos que podem também ser apreciados em Gleick, algo que se pode portanto geralmente agrupar como as Ciências do Caos.
O interessante aqui é que se existe um claro situamento nas áreas de física e matemática as pesquisas evoluem num âmbito de complexidade “entre” os limites disciplinares anteriormente estabelecidos. Assim Lyotard aproxima explicitamente René Thom e Heráclito na redução do processo causativo ao conflito de modo que “o antagonismo catastrófico é a regra”, as séries em jogo regulando-se pela “agonística geral”. A paradoxologia será aplicada no estudo da esquizofrenia. O indeterminismo, a instabilidade, são a constante: a legitimação é pela paralogia, o que abrange os sistemas abertos, a localidade, o antimétodo.
A observação de Wittgenstein como o marco dessa realidade pós-moderna também é comum entre ambos. Mas enquanto Appel estabelece a rede de relações que desde a reação ao positivismo funda a tradição da hermenêutica contemporânea enraizada no desenvolvimento das ciências humanas, Lyotard descreve o abandono do paradigma da função derivada, logo da previsibilidade , do determinismo, a partir de trabalhos científicos que podem também ser apreciados em Gleick, algo que se pode portanto geralmente agrupar como as Ciências do Caos.
O interessante aqui é que se existe um claro situamento nas áreas de física e matemática as pesquisas evoluem num âmbito de complexidade “entre” os limites disciplinares anteriormente estabelecidos. Assim Lyotard aproxima explicitamente René Thom e Heráclito na redução do processo causativo ao conflito de modo que “o antagonismo catastrófico é a regra”, as séries em jogo regulando-se pela “agonística geral”. A paradoxologia será aplicada no estudo da esquizofrenia. O indeterminismo, a instabilidade, são a constante: a legitimação é pela paralogia, o que abrange os sistemas abertos, a localidade, o antimétodo.
[Lyotard contrasta nisso com a interpretação platônica do Caos, que Gleick afirmou em consonância com alguns cientistas dessa área - porque os fenômenos aleatórios tornaram-se matematizáveis. Também com a observação de David Ruelle a propósito da oposição exemplar entre o determinismo de Thom e o indeterminismo de Prigogine]. O desacordo para Lyotard tornou-se mais
fundamental, o consenso resultando na provisoriedade, como “ilhas de
determinismo” . O que se torna muito proveitoso para os nossos propósitos é o
estatuto do relato, a relação com o saber narrativo que se estabelece em cada
caso.
A questão abrange o fato de que
até aqui as legitimações do saber e da ciência foram resgatadas apenas para si
mas não para o outro. Assim quando o conhecimento racional surge com o início
da filosofia ele devém da descoberta do limite do saber narrativo uma vez que
se coloquem circunstâncias não estipuladas pelas regras de seu exercício, como
por exemplo a pergunta sobre o fundamento não mais relacionada ao sujeito que
cauciona o dicurso - ou é autoridade ou não pode legitimar-se - e sim ao objeto em sua demonstrabilidade mesma. Pode-se
então estabelecer esse processo de ruptura na significação da palavra “filosofia”.
d) Sofística e filosofia
Aristóteles afirmou
que a sofística “parece sabedoria mas não é”. Seu uso de termos é magistral já
que a intenção crítica manifesta recobre a ambiguidade instalada no interior do
próprio termo “sofística”.
Sophós, de que a palavra deriva,
significa sábio mas, conforme uma expressão de Grynpas , “toda sabedoria é
inicialmente de essência religiosa”. Na verdade a ambiguidade tampouco deixava
de ser modulada intencionalmente desde o início pelos próprios sofistas, pois
esse sentido de sophós que designa a excelência do mestre retor já se pronuncia
mais na proximidade de uma confluência entre os atributos de esperteza e
sagacidade e a realização de uma competência epistêmica especializada.
O termo já não denota aquele
sentido de autoridade sagrada do período mágico-religioso. No entanto ele
conserva a extensão do maravilhoso por que ao vulgo o desempenho do sofista
continua sendo algo espetacular. O que não ocorre de algum modo como
contingente mas deriva de uma exploração consciente da aplicação do termo. Os
sofistas não deixavam, como ainda os pré-socráticos, a ambiguidade do termo
alcançar a própria imagem do exercício. Ao invés de taumaturgos seu espetáculo
de brilhantismo devia ser de ordem puramente intelectual cuja grande ancoragem
será o Logos, o poder da linguagem.
Platão pode surgir como o marco de uma exigência, não como a fundação mesma do que ela exige. Trata-se de opor já nesse começo àquilo que hoje se atinge seja pela tradição do humanismo seja pela via das Ciências da Complexidade, um ideal de desempenho modelado pela determinação, pela identidade como algo mais fundamental, anterior ao ágon. Deriva daí a modulação platônica da dialética. Ao invés de um instrumento erístico ela se põe a serviço da contemplação daquilo que sendo eternamente o mesmo permanece supostamente como critério do verdadeiro.
O que está “entre” os sofistas e Platão é porém a relação com o outro. “Filosofia”, amor à sabedoria, tampouco poderia ser a sabedoria mesma, aquele fundo de saber mítico que a partir do projeto de conhecimento racional havia sido abandonado já com os pré-socráticos. Os conhecimentos especializados são praticados por todos, pré-socráticos, sofistas, platônicos: matemática, astronomia, fisiologia... O tratamento pelo Logos dos conflitos ou dúvidas da alma também é comum à retórica e ao diálogo socrático. Mas o que a sofística deixa ao outro, isto é, que imagem ela deixa ser veiculada como conhecimento no meio mais amplo da cultura?
A questão envolve legitimação mas não no sentido de que critérios ela utiliza na avaliação do enunciado e sim como ela se prescreve culturalmente enquanto conhecimento. Poder-se-ia supor que ela institui uma quase-legitimação ao fazer circular a pedagogia como metaconhecimento. Mas a Paideia (educação), pelas próprias condições peculiares à pólis ateniense, é mais do que uma habilitação técnica somada a uma ilustração humanista. Ela é constituição de cidadania plena. Assim é a sofística, não Platão, quem efetiva desde o início o conhecimento – de fundo indeterminista, conflituoso, catastrófico, paradoxal – no âmbito político da negociação com o outro. O professor ou mestre retor cobra lições num meio de circulação comercial. O Logos pode ser ensinado como ciência ou conhecimento especializado, o ensino e o sabem não dependem de uma vinculação pela origem, mas da observação e sistematização do vínculo social.
Mas se o Logos é esse fundamento, e se o situamento cultural do conhecimento se processa como fenômeno político por excelência, a legitimação se faz nos dois sentidos, tanto pelo ensino da cidadania como pela compreensão dos relatos como processos constitutivos do conhecimento enquanto indissociáveis da linguagem como seu próprio meio. No entanto o estatuto do relato não se abrange como o grande relato fundador da verdade básica mas se produzem os pequenos relatos, as sagas que moram na origem dos termos, as histórias de conceitos, sempre localizadas na indefinição das margens.
Platão pode surgir como o marco de uma exigência, não como a fundação mesma do que ela exige. Trata-se de opor já nesse começo àquilo que hoje se atinge seja pela tradição do humanismo seja pela via das Ciências da Complexidade, um ideal de desempenho modelado pela determinação, pela identidade como algo mais fundamental, anterior ao ágon. Deriva daí a modulação platônica da dialética. Ao invés de um instrumento erístico ela se põe a serviço da contemplação daquilo que sendo eternamente o mesmo permanece supostamente como critério do verdadeiro.
O que está “entre” os sofistas e Platão é porém a relação com o outro. “Filosofia”, amor à sabedoria, tampouco poderia ser a sabedoria mesma, aquele fundo de saber mítico que a partir do projeto de conhecimento racional havia sido abandonado já com os pré-socráticos. Os conhecimentos especializados são praticados por todos, pré-socráticos, sofistas, platônicos: matemática, astronomia, fisiologia... O tratamento pelo Logos dos conflitos ou dúvidas da alma também é comum à retórica e ao diálogo socrático. Mas o que a sofística deixa ao outro, isto é, que imagem ela deixa ser veiculada como conhecimento no meio mais amplo da cultura?
A questão envolve legitimação mas não no sentido de que critérios ela utiliza na avaliação do enunciado e sim como ela se prescreve culturalmente enquanto conhecimento. Poder-se-ia supor que ela institui uma quase-legitimação ao fazer circular a pedagogia como metaconhecimento. Mas a Paideia (educação), pelas próprias condições peculiares à pólis ateniense, é mais do que uma habilitação técnica somada a uma ilustração humanista. Ela é constituição de cidadania plena. Assim é a sofística, não Platão, quem efetiva desde o início o conhecimento – de fundo indeterminista, conflituoso, catastrófico, paradoxal – no âmbito político da negociação com o outro. O professor ou mestre retor cobra lições num meio de circulação comercial. O Logos pode ser ensinado como ciência ou conhecimento especializado, o ensino e o sabem não dependem de uma vinculação pela origem, mas da observação e sistematização do vínculo social.
Mas se o Logos é esse fundamento, e se o situamento cultural do conhecimento se processa como fenômeno político por excelência, a legitimação se faz nos dois sentidos, tanto pelo ensino da cidadania como pela compreensão dos relatos como processos constitutivos do conhecimento enquanto indissociáveis da linguagem como seu próprio meio. No entanto o estatuto do relato não se abrange como o grande relato fundador da verdade básica mas se produzem os pequenos relatos, as sagas que moram na origem dos termos, as histórias de conceitos, sempre localizadas na indefinição das margens.
A clássica ideia de que Sócrates
teria fundado a exigência ética, portanto introduzido a questão social,
torna-se um contrasenso. Na verdade o que o Platão socrático pretende é
constituir uma pretensão de verdade independente de qualquer vínculo social, ou
seja, de heterogeneidade, se possível tornando a fundar a própria sociedade numa
base unilateral de domínio. Para isso melhor seria uma dialética contemplativa
como pura ascese – do elemento retórico – para o acesso direto àquilo que se
pensava como já desde sempre dado. Mas Platão não dispõe do instrumento por
excelência. Sua ascese permanece na região impura da materialidade, do corpo.
Aquilo que ele observa, porém, o
que Sócrates realmente exige, se relaciona com o fato de que uma vez que se
tenha aceito a existência desse objeto puro a contemplar como o sempre lá da
verdade então o hiato entre essa realidade inefável e o discurso reduplica
aquele entre ideia e materialidade mas também se institui na cisão entre o ser
e o dever, entre o conhecer da ciência e o prescrever da ética.
Se o objeto de conhecimento está
apartado da matéria, o domínio da ciência não se pode legitimar culturalmente de
modo intrínseco. Compreende-se assim que a necessidade que Sócrates objeta à
sofística já estava suprida por esta no interior de uma imagem de pensamente
para a qual o vínculo social é constitutivo. Mas do vínculo social o que é
constitutivo é a heterogeneidade, a diferença, a negociação, a impermanência, a
complexidade – tudo o que Sócrates pretendia banir de sua ciência como de sua
República ou mais precisamente, seu Reino.
Platão reintroduz também o relato
– o mito retorna aí com uma aplicação hierática ao contrário da interpretação culturalista dele que já havia sido a de Protágoras. Para legitimar a ciência
purgada de seu vínculo material-social conforme o platonismo seria preciso erigir uma imagem de
pensamento dogmática, através de um novo tipo de narrativa, capaz de assegurar
culturalmente uma sociedade na qual o conhecimento se incorpora no sistema
geral das crenças desde sempre asseguradas. O antigo mito está ressignificado em verdade eterna. Lyotard mostra como esse problema
ressurgiu no iluminismo engendrando os grandes relatos de legitimação do
próprio conhecimento científico de modo a cobrir o hiato entre o jogo de linguagem
expositivo-denotativo da ciência e os enunciados prescritivos que afinal é o
que se exige da cultura, agora na acepção restrita de todo do saber.
A ciência só pode assegurar o verdadeiro. Enquanto conhecimento, porém, ela só pode se legitimar culturalmente se puder também prescrever o justo. Mas vimos como essa exigência se derivou de uma imagem do pensamento dogmática, que se instituiu finalmente no âmbito de uma dupla ruptura. Primeiro com a “sabedoria” mágico-religiosa, depois com o que se apresentava como o efetivo reverso dessa mentalidade arcaica, isto é, a imagem de pensamento que começou a se erguer no pensamento pré-socrático e sofístico, a ontologia fundamental enquanto postulação do objeto desenvolvendo-se apenas como pensamento retórico de que o vínculo social é constitutivo.
Já na Antiguidade se instalou a contraposição entre os projetos de legitimação pelo desempenho e pela paralogia, no interior da episteme. Ocorre então a sistematização desse estado de coisas ambíguo em Aristóteles.
A ciência só pode assegurar o verdadeiro. Enquanto conhecimento, porém, ela só pode se legitimar culturalmente se puder também prescrever o justo. Mas vimos como essa exigência se derivou de uma imagem do pensamento dogmática, que se instituiu finalmente no âmbito de uma dupla ruptura. Primeiro com a “sabedoria” mágico-religiosa, depois com o que se apresentava como o efetivo reverso dessa mentalidade arcaica, isto é, a imagem de pensamento que começou a se erguer no pensamento pré-socrático e sofístico, a ontologia fundamental enquanto postulação do objeto desenvolvendo-se apenas como pensamento retórico de que o vínculo social é constitutivo.
Já na Antiguidade se instalou a contraposição entre os projetos de legitimação pelo desempenho e pela paralogia, no interior da episteme. Ocorre então a sistematização desse estado de coisas ambíguo em Aristóteles.
e) O projeto epistemológico
aristotélico
Na obra de Aristóteles ocorre a
fundamentação da imagem de pensamento que em Platão se propôs apenas como
exigência. Mas a complexidade dos estudos em Aristóteles, sua própria intenção
de abranger toda a instituição de conhecimento da época, torna sua teoria muito
abrangente de modo que aquilo que ela possibilitou com relação à imagem de
pensamento dogmática é inseparável dos desdobramentos históricos que conduziram
à aplicação escolástica e mesmo moderna da teoria.
Aristóteles, a meu ver, instituiu de modo pioneiro a delimitação entre ciências da natureza e do espírito, entre exigências de explicação e compreensão , mesmo sem ter utilizado estes termos. Assim se ele instituiu a exigência do enunciado apofântico, suscetível de verdade ou falsidade, no sentido do conhecimento enquanto racionalidade, não deixa de instituir a retórica como presença do mundo na práxis.
Aristóteles, a meu ver, instituiu de modo pioneiro a delimitação entre ciências da natureza e do espírito, entre exigências de explicação e compreensão , mesmo sem ter utilizado estes termos. Assim se ele instituiu a exigência do enunciado apofântico, suscetível de verdade ou falsidade, no sentido do conhecimento enquanto racionalidade, não deixa de instituir a retórica como presença do mundo na práxis.
Heidegger observou o enraizamento
ontológico aristotélico na base da biologia – "investigação do ente que vive e
de Biós, isto é, Dasein” – . Já a retórico seria “a hermenêutica do próprio Dasein”.
Mas as relações de retórica e conhecimento verdadeiro em Aristóteles teriam
permanecido na abrangência ontológica de uma compreensão do ser limitada à
sentença teórica. Por esse motivo Heidegger se mantem ambivalente mostrando que
na obra de Aristóteles há uma relação fundadora com a metafísica mas ao mesmo
tempo nela o sentido originário do Ser é preservado, de algum modo, mantendo-se
em continuidade com a ontologia dos pré-socráticos.
Essa ambivalência pode ser visada no âmbito maior da observação que Heidegger empreende de modo geral sobre os gregos, a partir da premissa de sua copertinência originária com o sentido existencial de A-letheia.
Assim há valorização da escolha aristotélica da vida e do alcance do seu pensamento que abrange tanto os processos formais do raciocínio silogístico quanto conserva a preocupação com o papel da eloqüência no universo cultural e político da cidade – Estado, o que se pode deduzir de seus estudos em Retórica. O estudo da eloqüência nesse caso, é conexa à valorização da prática.
Como ocorre também de modo geral no desenvolvimento da observação de Heidegger sobre os gregos, o que se mantém de originário está, porém, na abrangência de um processo histórico de natureza metafísica. Assim gradativamente, desde uma influência decisiva que determinou o próprio projeto ontológico heideggeriano pelo estudo dos significados do Ser em Aristóteles, ocorre a depuração das linhas de orientação de modo que a natureza apofântica de que se depreende os significados do Ser é aquilo em que se pode localizar o viés metafísico que se reencontra, conforme Heidegger , em Husserl e nos neokantianos.
É interessante observar o quanto essa relação de influência de Aristóteles sobre Heidegger, tal como descrita na obra de Martin Kuch, ocorre de modo totalmente inverso daquele sugerido por Cassin. Aí tratava-se de localizar o De Interpretatione como carta fenomenológica a partir da leitura do capítulo sete de Sein und Zeit, e desse modo, assimilar a Als Struktur (estrutura "como") de Heidegger à atribuição predicativa das categorias.
Ocorre que, como vemos em Kuch, inicialmente, a influência dos estudos aristotélicos em Heidegger favoreceu a sua própria aproximação com Husserl. Heidegger viu na intuição categorial de Husserl justamente o tipo de objeção que ele fazia à localização do Ser no juízo. Assim se mostra porém, como fica explícito pelos fatos subsequentes da sua carreira, que Heidegger não atribuía de modo algum a Aristóteles uma compreensão do ser implícita nas relações intensionais a objetos do mundo, ou seja, ele não considerava fenomenologicamente o texto do De Interpretatione, mas conforme o seu procedimento habitual procurava na utilização grega das palavras o seu sentido mais originário, e assim com o termo “fenômeno” em sua relação com o desvelamento sempre somente situado.
Essa ambivalência pode ser visada no âmbito maior da observação que Heidegger empreende de modo geral sobre os gregos, a partir da premissa de sua copertinência originária com o sentido existencial de A-letheia.
Assim há valorização da escolha aristotélica da vida e do alcance do seu pensamento que abrange tanto os processos formais do raciocínio silogístico quanto conserva a preocupação com o papel da eloqüência no universo cultural e político da cidade – Estado, o que se pode deduzir de seus estudos em Retórica. O estudo da eloqüência nesse caso, é conexa à valorização da prática.
Como ocorre também de modo geral no desenvolvimento da observação de Heidegger sobre os gregos, o que se mantém de originário está, porém, na abrangência de um processo histórico de natureza metafísica. Assim gradativamente, desde uma influência decisiva que determinou o próprio projeto ontológico heideggeriano pelo estudo dos significados do Ser em Aristóteles, ocorre a depuração das linhas de orientação de modo que a natureza apofântica de que se depreende os significados do Ser é aquilo em que se pode localizar o viés metafísico que se reencontra, conforme Heidegger , em Husserl e nos neokantianos.
É interessante observar o quanto essa relação de influência de Aristóteles sobre Heidegger, tal como descrita na obra de Martin Kuch, ocorre de modo totalmente inverso daquele sugerido por Cassin. Aí tratava-se de localizar o De Interpretatione como carta fenomenológica a partir da leitura do capítulo sete de Sein und Zeit, e desse modo, assimilar a Als Struktur (estrutura "como") de Heidegger à atribuição predicativa das categorias.
Ocorre que, como vemos em Kuch, inicialmente, a influência dos estudos aristotélicos em Heidegger favoreceu a sua própria aproximação com Husserl. Heidegger viu na intuição categorial de Husserl justamente o tipo de objeção que ele fazia à localização do Ser no juízo. Assim se mostra porém, como fica explícito pelos fatos subsequentes da sua carreira, que Heidegger não atribuía de modo algum a Aristóteles uma compreensão do ser implícita nas relações intensionais a objetos do mundo, ou seja, ele não considerava fenomenologicamente o texto do De Interpretatione, mas conforme o seu procedimento habitual procurava na utilização grega das palavras o seu sentido mais originário, e assim com o termo “fenômeno” em sua relação com o desvelamento sempre somente situado.
Isso pode ser observado pelo fato
de que muito inversamente a qualquer possibilidade de assimilação da Als
Struktur ao De Interpretatione, Heidegger pensa que a conceituação aristotélica
de ato e potência pode ser estabelecida no sentido da presença constante
e que na teoria do juízo o que se torna explícito é unicamente a atribuição predicativa,
isto é, derivada, pelo que algo está na perceptibilidade do estar-à-mão como
tal na forma do discurso categorial.
Heidegger descreve assim duas
estruturas-como. A aristotélica, como-apofântica, e a sua própria,
como-hermenêutica. Nesse âmbito hermenêutico a interpretação não se faz no
domínio da predicação mas anteriormente a qualquer atribuição discursiva
possível, isto é, na intencionalidade apenas como na interpretação, já implícita em todo
fazer e ver.
O que, em seguida, vai portanto determinar
a separação de Heidegger com relação a Husserl é o fato de que na descrição do
intencional Husserl permanece na pressuposição de uma oposição básica de
sujeito e objeto, o que o mantém na tradição metafísica que compreende o Ser
como cópula, no esquema atributivo de objeto a sujeito. A linguagem assim
tornada modelo não permite uma real transformação, como a que propôs Appel. Ela
se mostra modelo atributivo e intensional mas derivada de processos que
fundamentalmente são da consciência frente ao, separada do, mundo de objetos.
A observação de formas de linguagem que não se deixam analisar pela estrutura sujeito-predicado, como a poesia, e de que o ser da linguagem não pode ser assimilado ao ser de um objeto no mundo, é aquilo que conduz Heidegger no desenvolvimento do pensamento hermenêutico, da linguagem como meio em que sempre se já está, o que o faz singularizar-se em relação a Husserl como à toda tradição metafísica.
Assim, como vimos, o De Interpretatione continua isento de uma leitura fenomenológica no sentido da intencionalidade. Aristóteles pensa, efetivamente, a atribuição como aplicação racional da linguagem a uma realidade que é independente do homem, recuperável pelos sentidos e pelos processos racionais de abstração.
Quanto a Husserl, se localiza a intencionalidade previamente a essa aplicação, contudo o ser “de” algo, da consciência, permanece na pressuposição de uma cisão fundamental consciência-objeto.
Em geral o alcance da iniciativa aristotélica parece-me não se limitar por si ao projeto dogmático platônico. É interessante observar que certas constatações de Aristóteles em biologia como por exemplo sobre a hectocotilização, tiveram que esperar até o século XIX para ser confirmadas. Em filosofia há uma intensa produção relacionada aos estudos aristotélicos, mas devido às predisposições de cada época não se pode só por isso afirmar que determinadas conclusões sejam indubitáveis. Assim se a lógica contribuiu para a caracterização dogmática de sua epistemologia os trabalhos mais recentes de Perelman relacionaram argumentação retórica e aristotelismo de uma nova maneira acentuando aspectos até então negligenciados da teoria.
Quanto a isso é interessante obervar que a influência de Aristóteles na atualidade se exerce precisamente na via inversa da imagem tradicional que privilegiava o seu investimento, no domínio da linguagem e da prova, unicamente no sentido da lógica formal.
O universo de Aristóteles é bem mais amplo, contudo, o que se pode observar pelo fato de que ele estabelece uma corrente que investiga a comprovação racional de tipo argumentativo ou persuasivo. A Retórica aristotélica pode assim ser visada no desenvolvimento da sofística uma vez tendo se transformado as circunstâncias históricas que haviam permitido a esta conduzir a aplicação da antiga retórica, forense ou mística, no âmbito prático da democracia ateniense.
Os trabalhos de Perelman constituíram a assim designada “Nova Retórica”. Como mostra Umberto Eco, os discursos apodíticos agora se limitam apenas aos sistemas axiomatizados. Assim o filosófico, como o político, e mais geralmente “todos os raciocínios humanos a respeito de fatos, decisões, crenças, opiniões e valores” se constituem na abrangência da retórica. Essa corrente, iniciada por Aristóteles, volta-se para a linguagem informal, de uso comum, observando os requisitos da persuasão.
Os processos argumentativos são visados no seu comprometimento com “elementos afetivos, avaliações históricas e motivações práticas”. É interessante observar que não no De Interpretatione, mas sim no âmbito da Retórica, Aristóteles se aproxima de uma concepção hermenêutica de linguagem. Mas conforme o que se pôde depurar até aqui, parece que no âmbito geral da teoria aristotélica, a retórica permaneceu como algo aplicável a um domínio específico, não como a essência do processo racional de que se pode, por exemplo, depreender uma conexão com a epistemologia. Continua porém sendo uma questão a considerar se realmente se pode deduzir assim.
Aubenque, por exemplo, inclinou-se por ver na aristotélica fragmentação da ontologia – a declinação do ser em vários sentidos– uma real impossibilidade do projeto ontológico em favor de uma antropologia geral, isto é, no mundo sublunar aristotélico apenas a argumentação retórica se torna efetiva ao invés de um discurso único sobre o Ser. Heidegger oferecia a mesma decução de impossibilidade quanto ao projeto ontológico de Kant uma vez que se havia estabelecido na cisão do existencial, do predicativo e do transcendental. Abstenho-me aqui de opinar sobre essas conclusões no domínio da ontologia, pois penso que seria necessário um estudo muito mais amplo para desenvolver essa questão.
Mas quanto à possibillidade da inserção de uma compreensão mais abrangente sobre o papel da Retórica, já presente na teoria aristotélica mesma, isso me parece bem plausível, o que pode aproximar significativamente sua teoria com a sofística na visão de conjunto da atualidade, o que implica porém, a questão da crítica aristotélica aos sofistas.
Essa questão me parece poder se estabelecer no âmbito do projeto epistemológico aristotélico. A crítica da sofística se tornava consequente pelo fato de que as condições haviam mudado no Estado ateniense, de modo que um exercício de tipo puramente sofístico se tornava problemático. Mas Aristóteles não considerava a fragmentação da ontologia como obstáculo ou impossibilidade em sim na positividade de sua constituição mesma. É assim que ele a afirmou como refutação, que considerava definitiva, do argumento megárico quanto à impossibilidade de atribuição.
Aristóteles se propõe então um projeto epistemológico mais vasto, integrando o que se poderia utilizar da sofística no âmbito de uma repartição de saberes ontologicamente, mas também praticamente, orientado.
Em todo caso sabemos que o influxo da sociedade feudal utilizou o que pôde da antiguidade conforme seus propósitos. Contudo as possibilidades de leitura da teoria aristotélica se renovam na atualidade de modo que, se certas conclusões se tornam impraticáveis, há margem para aplicação em muitos domínios e de modo geral uma gama de questões que permanecem na contingência de ser mais amplamente desenvolvidas.
Que o projeto epistemológico aristotélico é irredutível ao do platonismo me parece bastante claro, sobretudo pela importância, que já se pode atualmente apreciar, do âmbito prático em sua teoria. Mas precisar o sentido exato dessa importância, de modo a especificar se a teoria aristotélica autêntica se inclina mais no sentido do desempenho ou da paralogia, ou se pode ser adequadamente visada nessa oposição, isso me parece depender de uma consideração bem mais ampla, envolvendo a ontologia, pois se a repartição teofrástica estabeleceu a aplicação dos domínios, permanece a questão de como se os avalia no âmbito da efetividade, ou principalmente como essa aplicação se encontra estabelecida no pensamento de Aristóteles. Em todo caso na consideração dessa questão o papel da Retórica, como já assinalei, me parece preponderante.
Heidegger não errou, portanto, ao relacionar o platonismo com a aurora iluminista da técnica contra todas as aparências de ruptura de empirismo e racionalismo, materialismo e idealismo. A imagem de pensamento dogmática , que se legitimizou para si como desempenho, se legitimou culturalmente, isto é, para o outro, desde a grande época da universidade na Europa, de Humboldt a Hegel, na tradição dos grandes relatos da Vida e do Espírito, conforme Lyotard. Isso nos faz recolocar a questão de nossa proximidade com os sofistas.
Pois na atualidade os registros mais antagônicos detectam esse novo aporte que Lyotard designou como legitimação por paralogia. O fenômeno da sociedade ocidental ter se tornado democrática, apesar de todas as limitações do quase-totalitarismo da era da técnica, mais a complexidade interna ao desenvolvimento científico e cultural são fatores que confluem na resposta. Mas a localização do compreender, no âmbito da hermenêutica, fornece uma contribuição precisa ao situar no âmbito da linguagem, já ontologicamente visada por Heidegger, algo de fundamental a esse processo.
A crítica se desenvolveu ora acentuando a dependência da legitimação cultural da ciência pelos grandes relatos de fundação, ora no sentido de uma transformação da filosofia trazendo o âmbito da epistemologia tradicional para o campo da linguagem inseparável das problemáticas ligadas à vinculação social, ao mundo – e uma vez que isso se processou, como crítica, sobre a crítica de estilo kantiano, moldada na consciência, eu a designei metacrítica.
A observação de formas de linguagem que não se deixam analisar pela estrutura sujeito-predicado, como a poesia, e de que o ser da linguagem não pode ser assimilado ao ser de um objeto no mundo, é aquilo que conduz Heidegger no desenvolvimento do pensamento hermenêutico, da linguagem como meio em que sempre se já está, o que o faz singularizar-se em relação a Husserl como à toda tradição metafísica.
Assim, como vimos, o De Interpretatione continua isento de uma leitura fenomenológica no sentido da intencionalidade. Aristóteles pensa, efetivamente, a atribuição como aplicação racional da linguagem a uma realidade que é independente do homem, recuperável pelos sentidos e pelos processos racionais de abstração.
Quanto a Husserl, se localiza a intencionalidade previamente a essa aplicação, contudo o ser “de” algo, da consciência, permanece na pressuposição de uma cisão fundamental consciência-objeto.
Em geral o alcance da iniciativa aristotélica parece-me não se limitar por si ao projeto dogmático platônico. É interessante observar que certas constatações de Aristóteles em biologia como por exemplo sobre a hectocotilização, tiveram que esperar até o século XIX para ser confirmadas. Em filosofia há uma intensa produção relacionada aos estudos aristotélicos, mas devido às predisposições de cada época não se pode só por isso afirmar que determinadas conclusões sejam indubitáveis. Assim se a lógica contribuiu para a caracterização dogmática de sua epistemologia os trabalhos mais recentes de Perelman relacionaram argumentação retórica e aristotelismo de uma nova maneira acentuando aspectos até então negligenciados da teoria.
Quanto a isso é interessante obervar que a influência de Aristóteles na atualidade se exerce precisamente na via inversa da imagem tradicional que privilegiava o seu investimento, no domínio da linguagem e da prova, unicamente no sentido da lógica formal.
O universo de Aristóteles é bem mais amplo, contudo, o que se pode observar pelo fato de que ele estabelece uma corrente que investiga a comprovação racional de tipo argumentativo ou persuasivo. A Retórica aristotélica pode assim ser visada no desenvolvimento da sofística uma vez tendo se transformado as circunstâncias históricas que haviam permitido a esta conduzir a aplicação da antiga retórica, forense ou mística, no âmbito prático da democracia ateniense.
Os trabalhos de Perelman constituíram a assim designada “Nova Retórica”. Como mostra Umberto Eco, os discursos apodíticos agora se limitam apenas aos sistemas axiomatizados. Assim o filosófico, como o político, e mais geralmente “todos os raciocínios humanos a respeito de fatos, decisões, crenças, opiniões e valores” se constituem na abrangência da retórica. Essa corrente, iniciada por Aristóteles, volta-se para a linguagem informal, de uso comum, observando os requisitos da persuasão.
Os processos argumentativos são visados no seu comprometimento com “elementos afetivos, avaliações históricas e motivações práticas”. É interessante observar que não no De Interpretatione, mas sim no âmbito da Retórica, Aristóteles se aproxima de uma concepção hermenêutica de linguagem. Mas conforme o que se pôde depurar até aqui, parece que no âmbito geral da teoria aristotélica, a retórica permaneceu como algo aplicável a um domínio específico, não como a essência do processo racional de que se pode, por exemplo, depreender uma conexão com a epistemologia. Continua porém sendo uma questão a considerar se realmente se pode deduzir assim.
Aubenque, por exemplo, inclinou-se por ver na aristotélica fragmentação da ontologia – a declinação do ser em vários sentidos– uma real impossibilidade do projeto ontológico em favor de uma antropologia geral, isto é, no mundo sublunar aristotélico apenas a argumentação retórica se torna efetiva ao invés de um discurso único sobre o Ser. Heidegger oferecia a mesma decução de impossibilidade quanto ao projeto ontológico de Kant uma vez que se havia estabelecido na cisão do existencial, do predicativo e do transcendental. Abstenho-me aqui de opinar sobre essas conclusões no domínio da ontologia, pois penso que seria necessário um estudo muito mais amplo para desenvolver essa questão.
Mas quanto à possibillidade da inserção de uma compreensão mais abrangente sobre o papel da Retórica, já presente na teoria aristotélica mesma, isso me parece bem plausível, o que pode aproximar significativamente sua teoria com a sofística na visão de conjunto da atualidade, o que implica porém, a questão da crítica aristotélica aos sofistas.
Essa questão me parece poder se estabelecer no âmbito do projeto epistemológico aristotélico. A crítica da sofística se tornava consequente pelo fato de que as condições haviam mudado no Estado ateniense, de modo que um exercício de tipo puramente sofístico se tornava problemático. Mas Aristóteles não considerava a fragmentação da ontologia como obstáculo ou impossibilidade em sim na positividade de sua constituição mesma. É assim que ele a afirmou como refutação, que considerava definitiva, do argumento megárico quanto à impossibilidade de atribuição.
Aristóteles se propõe então um projeto epistemológico mais vasto, integrando o que se poderia utilizar da sofística no âmbito de uma repartição de saberes ontologicamente, mas também praticamente, orientado.
Em todo caso sabemos que o influxo da sociedade feudal utilizou o que pôde da antiguidade conforme seus propósitos. Contudo as possibilidades de leitura da teoria aristotélica se renovam na atualidade de modo que, se certas conclusões se tornam impraticáveis, há margem para aplicação em muitos domínios e de modo geral uma gama de questões que permanecem na contingência de ser mais amplamente desenvolvidas.
Que o projeto epistemológico aristotélico é irredutível ao do platonismo me parece bastante claro, sobretudo pela importância, que já se pode atualmente apreciar, do âmbito prático em sua teoria. Mas precisar o sentido exato dessa importância, de modo a especificar se a teoria aristotélica autêntica se inclina mais no sentido do desempenho ou da paralogia, ou se pode ser adequadamente visada nessa oposição, isso me parece depender de uma consideração bem mais ampla, envolvendo a ontologia, pois se a repartição teofrástica estabeleceu a aplicação dos domínios, permanece a questão de como se os avalia no âmbito da efetividade, ou principalmente como essa aplicação se encontra estabelecida no pensamento de Aristóteles. Em todo caso na consideração dessa questão o papel da Retórica, como já assinalei, me parece preponderante.
Heidegger não errou, portanto, ao relacionar o platonismo com a aurora iluminista da técnica contra todas as aparências de ruptura de empirismo e racionalismo, materialismo e idealismo. A imagem de pensamento dogmática , que se legitimizou para si como desempenho, se legitimou culturalmente, isto é, para o outro, desde a grande época da universidade na Europa, de Humboldt a Hegel, na tradição dos grandes relatos da Vida e do Espírito, conforme Lyotard. Isso nos faz recolocar a questão de nossa proximidade com os sofistas.
Pois na atualidade os registros mais antagônicos detectam esse novo aporte que Lyotard designou como legitimação por paralogia. O fenômeno da sociedade ocidental ter se tornado democrática, apesar de todas as limitações do quase-totalitarismo da era da técnica, mais a complexidade interna ao desenvolvimento científico e cultural são fatores que confluem na resposta. Mas a localização do compreender, no âmbito da hermenêutica, fornece uma contribuição precisa ao situar no âmbito da linguagem, já ontologicamente visada por Heidegger, algo de fundamental a esse processo.
A crítica se desenvolveu ora acentuando a dependência da legitimação cultural da ciência pelos grandes relatos de fundação, ora no sentido de uma transformação da filosofia trazendo o âmbito da epistemologia tradicional para o campo da linguagem inseparável das problemáticas ligadas à vinculação social, ao mundo – e uma vez que isso se processou, como crítica, sobre a crítica de estilo kantiano, moldada na consciência, eu a designei metacrítica.
Considero assim que o domínio do
Logos na Antiguidade se encontra aproximadamente descrito. Vimos como a
geofilosofia grega ambientou a ontologia fundamental intimamente relacionada ao
desenvolvimento do pensamento retórico, erigindo algo como uma imagem de
pensamento “sem imagem”, isto é, sem as ilusões de fundação e representação mas
sempre constituindo-se na imanência social mais heterogênea. Vimos também como
essa mesma geofilosofia possuía elementos culturais bastante amadurecidos de
modo a tornar-se aptos a constituir uma imagem de pensamento inteiramente
fundada na recognição, que designei dogmática. Agora devemos observar a marcha
desse outro processo, aquele pelo qual numa aparente mas ilusória continuidade
essas imagens de pensamento tornaram a se enfrentar, agora no cenário
instituído de nossa contemporaneidade.
Livro 2
Introdução
I)
A consistência geofilosófica do
conceito de Logos nos permitiu distinguir, nas origens da filosofia,
destacamentos múltiplos daquilo que em geral se rotula sob a rubrica única de
pensamento racional.
Se a constituição das ciências
desde a modernidade se impôs como forma de vida na sociedade ocidental, isto se
relaciona estreitamente com o fato de que o que foi assim imposto abarcou os
encargos dessa rubrica como o ponto de vista geral, comum e aceito, o que
envolve noções axiais de “pensamento”, “razão”, “ser humano” , de modo tal que
seus pressupostos tiveram que se manter imperscrutáveis.
O ser se ocultou, poderíamos
reafirmar, simplesmente. Mas a complexidade subjacente a essa reafirmação repõe
as perplexidades que operam nas imbricações de ciência, filosofia, pensamento
das humanidades, as quais não são estranhas ou sem relação com aquelas que
assombram os leitores de jornais. A exploração do homem pelo homem aparece sem
disfarce na conexão com uma generalização do que é o homem pela qual cada um,
se examinar-se mesmo sem demora, não se reconhece.
Naquilo que precedeu vimos que
equalizar, sem mais, origem da filosofia com origem do pensamento racional pode
ser útil sob certo ponto de vista. Com efeito, não é completamente sem sentido,
uma vez que na origem estava o Logos. Entretanto os caminhos do Logos não
pareceram unívocos desde que se tornou visível a relação existencial pela qual
ele se constituiu desse ou daquele modo, conforme a ontologia fundamental, o
pensamento retórico, e a ontologia tradicional do platonismo e aristotelismo. E a ciência ocidental,
poderíamos ou deveríamos acrescentar, desde que se trata agora para nós de ver
em que se pode afinal falar de ciência no sentido atual do termo, especialmente
em ciências humanas.
Entre ontologia fundamental e
pensamento retórico estabelecemos um liame possibilitado pela Pólis ateniense
do século V. Aproximamos esse caminho do Logos de uma efetividade epistêmica
bastante contemporânea conceituada por Lyotard como a legitimação pela
paralogia – especialmente bem focalizada a partir dos movimentos sofísticos.
Esse caminho se fez lá e aqui, na
Antiguidade e na atualidade, bem marcadamente na ruptura com o saber ou opinião
enquanto formas de legitimação narrativas – os grandes relatos. Mas não do
mesmo modo, não contra o mesmo fundo.
Na Antiguidade os primeiros
pensadores eram críticos da opinião e/ou da ilusão, devendo fornecer tanto uma forma quanto
uma imagem legitimadora do conhecimento e ainda uma conceituação da opinião com
seus limites devidamente estabelecidos. Agora trata-se de denunciar, de dentro,
uma certa legitimação “clássica” de ciência, a do desempenho, mostrando em que
seu desvio da opinião está ele mesmo limitado pela decalagem existente entre
sua pretensão de atemporalidade e universalidade e sua dependência de relatos
eles mesmos não verificáveis nem falseáveis, no processo de sua validação para
o outro.
Assim o platonismo surgiu como um
estatuto ambíguo que, no entanto, soube balizar o caminho do desempenho ao
manipular a narrativa mítica com vistas ao embasamento de um novo tipo de
certeza que deveria caracterizar a nova legitimação a ser consolidada no
alvorecer da modernidade – o caminho da demonstração e da prova. Ambíguo porque
sua manipulação, ainda que convergindo na exigência desse novo tipo de certeza,
não chegou a estabelecer seu critério enquanto tal.
A ênfase aqui deve ser colocada
sobre o novo envolvido na certeza. Pois que o endereçamento crítico do
platonismo voltado à sofística só pode ser bem avaliado se observarmos a
mutação, como tantas vezes ressaltada por Heidegger, anteposta no caminho do
Logos, envolvendo a noção de verdade. Se o platonismo não se confunde com o
simples retorno do recalcado – o mito no século V “iluminista” – é porque há
nele uma crítica bastante abrangente da doxa, a ponto de por isso ser tido por Châtelet
como o verdadeiro marco de origem da razão.
Mas pode-se pensar que o
platonismo se deixou localizar naquilo mesmo que manipulava para superar, pois
não havia nele instrumentos conceituais efetivos que pudessem possibilitar a
transposição a outro plano. Esses instrumentos conceituais se encontram na
teoria aristotélica. Mas se na análise anterior pudemos sinalizar esse fato sem
proceder a maiores explanações agora isso se torna necessário, pois poder-se-ia
indagar: qual é então o fundamento geofilosófico daquela conceituação do Logos,
se apenas podemos afirmar que a nova forma de legitimação destacada da
ontologia fundamental se estabeleceu através desse destacar-se?
Pois o que se ousou afirmar é que
ao invés de uma progressão da opinião (saber) ao conhecimento científico
(pragmática do desempenho), e deste a uma nova imagem do pensamento e da
ciência (legitimação por paralogia), o que se tem é uma só possibilidade de
confronto da opinião que se choca desde o início com uma imagem de pensamento,
de conhecimento e ciência, que está dada numa relação ambígua com a opinião: ao
mesmo tempo ela se erige como o um do conhecimento certo sobre o múltiplo das
doxai prováveis, mas mantém em comum com estas aquilo que o saber do relato
pretende ser sem poder, contudo, caucionar enquanto pretensão: a imagem
dogmática, a certeza, a forma universal do juízo.
O termo “em comum” supõe o
prolongamento. O saber narrativo sabe que sabe – o que ouviu dizer – Sócrates
sabe que não sabe – o que não se provou ou demonstrou. Mas em se podendo
demonstrar, saberemos e saberemos que sabemos. É isso que é novo no tipo de
certeza com a qual opera as exigências do platonismo. Como tantas vezes já se
explicitou, a filosofia assim empreendida é um negócio de servir o senso comum
mais honesto, fornecer-lhe a instrumentação de que ele carece para se
transformar em conhecimento certo sem nenhuma verdadeira ruptura de natureza
entre estes domínios de partida e de chegada.
É isso também que funda toda
legitimação pelo desempenho como pragmática do conhecimento científico. Mas a
dialética não suportou o ônus da prova. A exigência só poderia contar com os
critérios formais da linguagem sem contudo haver aquilo que permite recolocar
toda a questão numa base independente das idiossincrasias daquele que conduz a
inquirição dialética. Assim costuma-se enunciar a superioridade do
aristotelismo naquilo que se refere à fundamentação do pensamento racional,
sempre associado ao desempenho. Nesse aporte, a lógica fornece aquilo que a
dialética do platonismo não conseguia suprir.
É possível que pela evitação
anterior em estender a questão, esse aporte pudesse parecer endossado no que
precedeu até aqui. Mas se bem que não seja totalmente inconsistente essa
apresentação dos fatos, não me parece de modo algum residir nesse enfoque o
principal quanto a isso. Sobretudo se pode ver as conseqüências a que se pode
ser conduzido por essa visão das coisas através do exame daquilo que se
convencionou designar de “aspecto psicológico da criação científica” – em uma
obra como a de Molles que se situa justamente num ponto de dobramento em
relação a concepções mais fortemente estabilizadas no horizonte moderno do
desempenho.
Molles pretende destituir a
pretensão de universal a priori da lógica tradicional e por esse meio constituir
uma nova imagem do trabalho da ciência. Essa imagem se opõe assim àquela mais
comum, bastante afastada, conforme ele, do que seria o real da invenção por se
manter no artificialismo da suposição de que o cientista opera unicamente com
base em critérios lógico-formais.
A evidenciação da adaptação das
infralógicas à pesquisa criativa porém, parte do pressuposto de que há uma
mesma origem psicológica do “mecanismo do espírito” que garante sua identidade,
sua unidade, independente do domínio de sua aplicação. Molles exemplifica isso
com duas explicações “causais”, uma teológica e outra científica, de um mesmo
fenômeno natural: o raio é explicado como punição sobrenatural ou como máximo
de potencial favorecido pela conformação física do terreno. Mas ambas seriam “estritamente
comparáveis”. As lógicas formais são casos de mero aperfeiçoamento das
infralógicas, como se a ciência emergisse tão somente de uma sistematização do
órganon, mas por aí se pudesse justamente criticar a pretensão desse início de
ser exaustivo ou normativo uma vez que a complexidade permite agora estabelecer
domínios de ação não previstos por aquela sistematização.
O pré-científico difere do
científico por ser emocionalmente orientado enquanto que este se formaliza
conforme uma atitude puramente intelectual. Mas essencialmente Logos é o mesmo,
isto é, desenvolve-se sempre conforme processos intrinsecamente classificáveis
e uniformemente descritíveis.
A abordagem psicológica de
Molles, no âmago de sua crítica às pretensões da lógica, permanece contudo, a
meu ver, estritamente aristotélica. Favorece inclusive, exemplarmente, a
compreensão daquilo que é preciso observar no tratamento da questão do
fundamento antigo ao caminho do desempenho.
Pois a contribuição decisiva de
Aristóteles está em que, como observou Heidegger, ele desloca a questão da “arké”
para o âmbito da “aítia” – a “origem” se relaciona agora com a “causa”.
A inserção do racional no domínio
da causalidade parece-me a fundação estrita da ciência, destacada tanto do
saber quanto do conhecimento como campo mais geral em que a ciência se
inscreve. Uma explicação teológica parece causal mas na realidade não é
científica pois não se apercebe da conexão pela qual a relação causal se
estabelece. Assim como, na metafísica, Aristóteles descreve a diferença entre o
homem prático e o teórico. O prático sabe que é assim mas não sabe o porquê. A
lógica fornece uma instrumentação mas é a causalidade que funciona como
critério na medida em que é a partir dessa base que qualquer explicitação sobre
o ente pode vir a ser mais do que uma simples duplicação daquilo que a
experiência ou o relato vem a atestar. A explicação pela vontade do deus deixa
intocada a questão de porque o deus “quer” assim – e isso é o que, ritualmente,
não se deve perguntar.
Mas a ênfase muda assim
completamente em relação ao que se vinha desenrolando até aí no horizonte do
pensamento grego, pois não está agora em questão o que o ser é ou como ele vem
a ser e sim como os entes se comportam numa rede de relações supostas como já
desde sempre objetivamente detectáveis.
As causas são enumeradas: a
essência, a matéria, a origem da mudança, a finalidade ou bem. A essência,
enumerada como uma causa, permite reduzir em um sentido preciso o “porquê” à
definição – mas também o problema da definição a uma determinação causal dada
numa situação dada. Considero de suma importância que assim se inaugure a
metafísica. Pois o intuito aristotélico logra a pretensão de totalizar o campo
epistêmico antigo ao formalizar o logos no elemento da causalidade. Mas por
esse meio a questão ontológica se transforma também, desdobrando-se no sentido
de uma aceitação do ente na imanência de sua essencialização.
Não me parece portanto, de todo
estabelecido o comprometimento da teologia astral no sentido da transcendência,
conforme afirmado por Aubenque. E aqui reside a complexidade do aristotelismo,
a possibilidade do seu enraizamento escolástico, sua vigorosa atualidade. Pois
me parecem ter se desdobrado duas séries aristotelicamente motivadas, uma que formaliza
o caminho do desempenho através do critério de causalidade e outra que
configurou ontologicamente a singularidade ao aceitar uma inteligibilidade
imanente ao devir na visão da unidade existencial irredutível da união
substancial de forma e matéria.
Focalizando nesse momento apenas
o uso do critério de causalidade no balizamento de uma definição da ciência
pode-se afirmar que se estabeleceu na conformação de uma série de fatores
histórico-epistemológicos de modo a convergir naquilo que Heidegger diagnosticou
como essencialmente metafísico. Esses fatores determinaram o desconhecimento
deliberado do segundo termo dessas séries.
Aquilo que Averróes pôde
participar de mais interior ao pensamento aristotélico, sua compreensão
existencial do devir, não influiu na formação de um conceito de ciência quando
se tratou de desenvolve-lo no âmbito de um mundo cristianizado prestes a se
industrializar, carente sobretudo de uma medida comum de nivelamento dos entes
no processo ideológico da universalização da mercadoria.
A compreensão desse
desconhecimento pode ser recuperada em Leibniz. Surpreendentemente, porque a
monadologia poderia parecer o mais aproximado a uma visão existencial singular
do devir, isto é, à unidade existencial irredutível formal-material de cada
ente, sendo cada mônada uma “unidade de força” que reflete o mundo. Mas essa
unidade não tem sua explicação em si mesma. A mônada é uma fonte de ação mas o
que se exprime em seu ato é sua própria essência – o que é escolhido por Deus,
que se utiliza do princípio do melhor para trazer as coisas à existência. Deus
escolheu Adão pecador, ainda que Adão não-pecador fosse possível, porque na
economia do mundo melhor Adão tinha que pecar.
Como já se observou, Leibniz não
é spinozista. A possibilidade não é já efetividade mas dependência de
critérios, não só de lógica mas também de moral, para vir a ser atualidade.
Esses critérios só são calculáveis por Deus que deles faz uso não por arbítrio,
é certo, mas com vistas ao pré-estabelecimento harmônico do melhor dos mundos.
A análise de Heidegger em “Sobre
a Essência do Fundamento” mostra como, em Leibniz, a questão da causalidade se
relaciona com o princípio da razão suficiente. Assim como a causalidade em
Aristóteles, a questão do princípio de razão em Leibniz – tudo o que existe tem
uma razão pela qual existe – se desenvolve no contexto da determinação das “primeiras
verdades” . Em Aristóteles, da pesquisa dos “primeiros princípios”. Leibniz,
como observa Heidegger, aceita a concepção aristotélica da verdade como “verdade
da enunciação” , isto é, da proposição. Assim ocorre em Leibniz a sobreposição
dos termos nucleares: verdade, inerência do predicado no sujeito, identidade ou
acordo, princípio de razão. Todo ente tem uma razão de ser, isso redunda em que
se pode, do acordo entre sujeito e predicado, ter a verdade enquanto há razão
pela qual pode haver acordo.
Mas a localização da verdade
proposicional em Aristóteles, dentro do âmbito maior de sua teoria, pressupõe
aquela concepção ontológica do devir, aquele outro termo das duas séries, que
permanece na esfera bem grega de pensamento. Assim, que a ciência pressupõe o
conhecimento por causas, ainda não implica que o ente singular possa ser
reduzido à generalidade em sua efetividade – assim como o exemplo aristotélico
do médico que cura o singular real, não o universal.
Mas essa efetividade, Leibniz a
concebe já pressuposta como essência produzida por criação de Deus, isto é,
existe desde o princípio um fator de homogeneidade lógico-ética, a mente de
Deus, bastante característico da ambientação cartesiana, que subsume por
inteiro o devir. A inteligibilidade se dirige a esse fator, à compreensão de
seu modo de operar, não à observação meticulosa dos seres em seu inexplicável
ser assim. Com efeito, se a essência em Aristóteles pode ser causa, ela se
aplica como causa apenas na compreensão do fenômeno determinado a partir do
conhecimento da definição mas não se exige – considera-se isso impossível – uma
explicação da essência em seu ser, o porquê da essência existir. Libera-se o
jogo da observação, das inferências, de modo a estabelecer conexões causais
observáveis entre os fenômenos. Mas a originariedade dos entes continua na
imanência da Physis.
No momento em que a filosofia se
torna escolástica, porém, só se retém da teoria aristotélica o aspecto
proposicional da verdade, ainda que na ambientação da filosofia medieval seu
pensamento tenha encontrado ressonâncias muito mais amplas. A causalidade se
torna, no interior da escolástica e progressivamente à medida que a modernidade
avança, critério de uma ciência que se desvencilhou da originareidade dos entes
em seu caráter não-predicativo. Eles são criaturas, isto é, desde já
apreensíveis unicamente no seu aspecto formal-essencial. Mas o “unicamente” não
se assume como caráter epistêmico restritivo dado aquele fator homogeneizante
do devir em geral.
E de modo análogo, Molles já
dispõe de um modelo de funcionamento do espírito – as próprias lógicas formais
– pelo qual tudo que não se confunde com ele só pode ser propedêutica,
predisposição, co-extensão a ele. É conforme esse modelo que aquilo com que o
espírito lida é sempre o objeto: seja o céu, o deus ou a conexão dos elétrons.
Sendo sempre do mesmo modo objetos eles entram como variáveis de conexões
formalizáveis. Mas há a questão que jamais foi posta nesse contexto: como é que
o espírito se constituiu o deus na mesma forma relacional que o elétron? A
emotividade se apresenta em certo caso, não no outro, eis tudo.
Mas como é que o objeto porta
emotividade? Se o espírito parece já lidar com ele “dessa forma”, para faze-lo
conectar infra ou logicamente, que é que constitui a decisão do espírito?
Molles poderia talvez responder que essa é uma outra questão – sociologicamente
ou mesmo antropologicamente informada, não importa, mas que se observa poder
ser sempre formalizável esse comportamento. No entanto a questão real concerne
aquilo que se pressupõe como uma só relação do espírito com os entes – sempre
objetos que se podem conectar formalmente em relações descritíveis. É isso que
deve ser posto em questão e que é pressuposto na afirmação de que a explicação
mito-poética é tanto uma explicação – e fundamentalmente da mesma natureza –
quanto a física atômica.
O âmbito em que se pode
desenvolver essa questão é aquele da verdade ôntica, tal como se pode visar com
base na leitura de “Sobre a Essência do Fundamento” de Heidegger. Esse
desenvolvimento deverá permitir uma compreensão do que ocorre enquanto fenômeno
do alvorecer da modernidade.
II)
É verdade que a descrição das
infralógicas é formalmente aplicável. Não se põem dúvidas quanto a isso. A
questão, como penso ter sido circunscrita, reside em que a ação real do
espírito, envolvida no âmbito do mito por exemplo, não pode ser compreendida
através dessa descrição formal que apenas recolhe algo como o seu duplo erigido
num outro registro. Esse registro outro não é só do formalismo lógico sem ser
também aquele pelo qual se tem uma preconcepção do Logos.
Vimos, porém, como a aderência do
Logos na região de legitimação do conhecimento principia, com os
Pré-Socráticos, em conexão expressa com a crítica do saber ou opinião, já desde
aí percebido na sua vinculação com uma pragmática do relato. Lá onde aparece
Logos, tem-se necessariamente exigência de legitimação não meramente narrativa.
Assim torna-se problemática a
asserção pela qual o Logos, como razão a-histórica, é o mesmo, seja revelado na
forma incipiente do mito, seja na forma completa da lógica. Creio que essa
concepção poderia se aproximar da filosofia do juízo, assim como desenvolvida
por Brunschivicg, que define a razão como uma “atividade incansável de ligação”,
na expressão de que Vergez e Huisman se utilizam para caracteriza-la.
A obra sem fim do espírito
consistiria na unificação da multiplicidade fenomênica, isto é, na racionalização
da experiência pela ordenação formal dos dados empíricos. Parece-me que isso
pode desempenhar o papel de premissa na compreensão da ação espiritual como
efetivável a partir da descrição das formas de unificação possíveis, dos modos
pelos quais se verificam os processos de racionalização que se expressam
através de juízos formulados, como em Molles.
O que se descreve é a
intelibilidade operante, subjacente a todo produto do espírito. A
inteligibilidade, que é o agente, é infinita, não se confunde com seus produtos
finitos. Assim não importa tanto se o domínio considerado satisfaz o requisito
da racionalidade no sentido conhecido das ciências, isto é, as infralógicas não
deixam de apresentar inteligibilidade, pois: a) o mito é produto do espírito; e
b) o mito se encadeia a partir de proposições que expressam juízos sobre a
realidade.
Afirmei que essas descrições são
formalmente aplicáveis e isso me parece bastante incontestável. Mas quanto à
compreensão da ação real do espírito não se poderia pensar que dá-se o caso
pelo qual as infralógicas são, enquanto disposições, conexas a processos e
modos de pensamento cotidianos no interior do mundo da técnica? A razão
científica é o modelo subjacente que impera. O senso comum na sociedade
tecnológica é “infracientificamente” orientado, procura-se fornecer explicações
conforme a explicação científica ainda que sem aplicação metódica ou práticas
de controle. A sociedade ténica é também uma sociedade do relato mas o modelo
narrativo parece regrado pela forma de inteligibilidade da ciência que fornece
uma amplitude dos jogos de linguagem que aí funcionam.
Nesse sentido seria possível que
as infralógicas não fossem apenas meras descrições factuais extrínsecas à
compreensão do fenômeno observado. Mas não ocorre o mesmo no âmbito das
sociedades tradicionais, isto é, sociedades em que não ocorreu a emergência do
contexto crítico no sentido da exigência de uma nova legitimação.
Afirmei também que o
desenvolvimento do conceito heideggeriano de verdade ôntica pode fornecer o
aporte mais conveniente de acesso ao que me parece tão problemático nesse tipo
de filosofia. Isso pode ser constatado pelo fato de que Heidegger localiza
aquilo que esse conceito envolve – a revelação ôntica, isto é, aquilo que pode
ser designado como ação real do espírito – precisamente no âmbito das questões
do fundamento que se caracterizam por delimitarem a essência da verdade.
O papel de Leibniz é fundamental
por ter introduzido a natureza da verdade, pelo princípio de razão, como nexus,
conexão de identidade ou inesse do predicado no sujeito – na medida que,
conforme Heidegger, “inesse” aqui se designa como “idem esse”. Assim a natureza
da verdade em Leibniz é aristotelicamente embasada, pois se desenvolve
unicamente no interior da proposição enquanto esta não se limita a um mero
prazer de falar mas se reveste da função autêntica do juízo. O princípio é de
razão enquanto que a razão permanece o princípio – a inteligibilidade
que se realiza, mas não se aprisiona, em juízos.
Contudo em Heidegger a
delimitação da essência da verdade por meio do princípio de razão, sempre
proposicionalmente realizada, a que se poderia bem designar razão de juízo,
permanece derivada. Ao princípio se antepõe, paradoxalmente, algo mais
originário. Isso porque a conexão de inesse não torna como tal acessível o ente
que deve, como possível objeto da predicação, estar manifesto antes da
predicação.
A revelação, que é
não-predicativa, é o que se pode chamar verdade ôntica e supõe assim a ação
real do espírito que não se deixou captar naquele tipo de descrição de Molles,
como tampouco na atividade de juízo de Brunschivicg.
A revelação não-predicativa e
anterior a toda predicação não se dá como simples captação mecânica e
indiferente de dados que se impõem já como tais para nós. Isto é, em termos
heideggerianos, o “âmbito revelador” nunca possui, primariamente, o caráter de
pura representação como intuição – Heidegger sublinha que nem mesmo na
contemplação estética.
A importância dessa observação é
enorme porque o inverso do que prescreve é o que está na base da noção de
verdade proposicional como essencial: o que o juízo liga são puras intuições,
representações livres que já se relacionam a objetos do mundo como tais. Mas o
que Heidegger antepõe é que o que há aí não são objetos preexistentes que são
passivamente captados por uma intuição pura e sim um processo de objetivação do
ente, isto é, um resultado ao fim de um, entre outros, específico processo de
revelação ôntica.
A revelação mesma é o sentir do
comportamento situado em meio ao ente possibilitado pela – por uma –
compreensão do ser dos entes. Evidentemente, por exemplo, o mundo arcaico não
disponibiliza uma compreensão da verdade como a que se tornou aquela mais
corrente das sociedades técnicas.
Mas isso no sentido de que nele a
revelação ôntica não se fazia no sentido da objetivação-para-o-juízo,
desenvolvendo-se mais como produção de verdade no sentido ritual em que a
posição de quem enuncia, a manipulação do meio, a relação instituída entre os
participantes, funciona como fatores na concreção do que virá a ser enunciável
como o ente ao invés de este ser considerado como objeto neutro ou prévio a
estes fatores rituais.
O desvelamento, isto é, a
compreensão do ser no sentido de sua constituição em como-ser e que-ser, ilumina
e conduz os comportamentos em face do ente que, assim como a disposição e a
impulsividade, gera a ocorrência (acontecimento) da revelação ôntica. O
desvelamento possibilita a revelação, permitindo também asceder do ôntico ao
ontológico.
Aqui se procede a uma escanção do
conceito de Logos de modo que se pode conservar a impressão pela qual ele é o
que há de mais essencial ao ser humano. Logos, no sentido amplo, é a
compreensão do ser, mas essa compreensão, como se pode depreender do exposto,
não equivale nem à captação do ser como tal nem à redução do assim captado ao
conceito.
Esse sentido amplo do Logos se
opõe assim a essa equivalência designada como seu sentido estrito ou
ontológico. O intervalo entre compreensão pré-ontológica e conceituação expressa
do ser abrange muitos graus. Um desses graus, por exemplo, se determina pela
delimitação de um campo de objetivação através do conhecimento científico, seja
de natureza ou história. Mas o conteúdo fático das ciências – o “fato” que
nelas se explicita – não é a instância fundadora. Apenas aponta para a “originária
constituição ontológica”, isto é, para aquela equivalência que por sua vez
pressupõe uma compreensão mais ampla. Seria preciso acrescentar que a
originareidade dessa constituição não deixa de abranger a historicidade?
Nesse ponto ocorre uma curiosa
bifurcação no projeto que se desenvolve como iluminação da constituição das
ciências humanas. Pois o que se mostra como prosseguimento natural do que vem
sendo exposto seria agora a colocação da problemática da transcendência até a
conclusão do “Sobre a Essência do Fundamento” com a tríplice posição do fundar.
E isso seria tanto mais
necessário à medida que vem se desenvolvendo uma ambiguidade – que tende a
crescer com o uso não esclarecido dos termos – em torno do pólo conceitual
imanência-transcendência, assim como uso, por exemplo, o termo imanência na
caracterização da filosofia aristotélica.
E tanto mais vantajoso prosseguir
assim, uma vez que pretendo observar nesse mesmo texto de Heidegger uma importante
conexão do pensamento heideggeriano com a filosofia de Gilles Deleuze. Conexão
que permitiria compreender também a posição apenas aparente do “paradoxo”, pelo
qual historiadores de filosofia como Vergez e Huisman escrevem sobre Heidegger
que verdade para ele é justamente o inverso de “uma construção transcendental”,
enquanto que se pode ler em “Sobre a Essência do Fundamento” que “mundo
constitui a estrutura unitária da transcendência; enquanto dela faz parte, o
conceito de mundo é um conceito transcendental”, o que faz de toda “clarificação
e interpretação da transcendência” poder ser chamada “exposição transcendental”.
Tendo em vista a centralidade do
conceito de imanência em Deleuze, tudo isso poderia ficar algo menos misterioso
se a conclusão se pudesse oferecer já. Ocorre que provavelmente a
compreensibilidade do que há de falso no caráter paradoxal dessas citações
estaria apenas nomeada pela conexão evidenciada. Pois – e assim se enuncia o
outro caminho proposto – somente através da lenta e paciente reconstrução da
trajetória do pensamento ocidental seria possível apreender o salto pelo qual é
agora o mundo que vem a se conceituar transcendentalmente, e com isso também as
ambiguidades que cercam aquele pólo conceitual.
Creio que esse modo oferece maior
margem para o desenvolvimento do projeto, pois pode ser operacionalizado
concomitantemente à própria evolução dos temas que informam a constituição das
ciências humana. Escolhido assim o caminho cumpre inicia-lo com uma panorâmica
sobre a transição feudal de maneira a compreender – sempre no sentido do devir
das “humanidades” – as mudanças ocorridas na aurora da modernidade.
I – Causalidade
e Temporalidade
A origem quase casual do termo “metafísica”
– meta ta fusica – narrada por Estrabon e Plutarco, apresenta
traços singularmente romanescos.
Os escritos aristotélicos “esotéricos”
teriam sido legados por Teofrasto a Neleu, no século III a. C. Os que deste
receberam o legado eram pesoas incultas, incapazes de apreciar o valor dos
manuscritos que depositaram em uma caverna, na qual permaneceram até serem redescobertos, já no século I a. C.. Foram então transcritos pelo peripatético
Apelicon de Rodes. Novas peripécias ocorrem até que Andronico de Rodes,
escolarca do Liceu, adquire as cópias que permitem a publicação,
aproximadamente em 50 a. C. desses escritos de Aristóteles e Teofrasto.
Sem nos deter nas
inverossimilhanças desse relato romanesco, longamente tratadas por Aubenque,
vemos que o ar de acaso que envolve a descoberta de textos por tanto tempo
ocultos se estende à designação do conjunto de tratados que hoje se agrupam sob
o título geral de Metafísica.
Aubenque informa que esses
tratados também sofreram um interregno próprio de ocultação, desde Teofrasto
até o século I de nossa era, portanto um século após a publicação de Andronico,
quando Nicolau de Damas assim os intitulou devido à ordem que ocupavam naquela
edição onde figuravam após os livros da Física. Pois se de outros temas
constantes dos manuscritos há sinais de que eram conhecidos pelos autores desde
a época de sua composição, sobre os tratados metafísicos parece haver completo
silêncio de modo que só se torna registrada a história de sua recepção a partir
da intitulação implementada por Nicolau de Damas.
Assim, contornando os aspectos
romanescos da lenda, Aubenque observa que esse “oubli” da “ciência do ser
enquanto ser” perdurou no meio antigo enquanto a divisão do conhecimento se
conservou na tripartição, parece que de origem platônica, de lógica, física e
moral (ou ética). Se Aristóteles mesmo não aplicou um termo para designar a
expressão por ele utilizada de “ciência do ser enquanto ser”, essa ciência
constituía na verdade algo novo, que Aubenque não hesita em considerar menos no
sentido de uma ciência do que de um projeto.
Mas não se pode deixar de
perceber a conveniência fortuita do termo que após Nicolau de Damas já se
encontra nos catálogos de Anônimo e de Ptolomeu. O termo “metafísica” é assim a
princípio puramente extrínseco, aplicando-se pelos editores nos catálogos,
porém, justamente ao conjunto que versa sobre aquilo que não se restringe à
física. Aquilo que na materialidade do texto está “após” (metá) a física também
assim se situa quanto ao próprio conteúdo que trata do “ser enquanto ser”.
Quanto ao objeto, portanto, a
metafísica encontra-se após a física, ao menos na ordem do conhecimento.
A física estuda a natureza, é ciência do movimento, ou como afirmou Kant,
ciência de que só se pode chegar aos conceitos por meio da experiência. Mas o
que se encontra “metá” para nós é o conhecimento daquilo que não se encontra na
experiência, pertencendo unicamente à especulação intelectual. Para nós,
unicamente, isto é, na ordem do conhecimento, pois em si mesma a realidade que
se constitui conceitualmente como objeto da metafísica é anterior à
física, no sentido de ser mais fundamental do que aquilo que existe
materialmente.
Essa anterioridade foi
platonicamente interpretada como eminência, e mais correntemente, como reporta
Aubenque, apenas no sentido de fundamento. Mas em ambos os casos houve uma
identificação com o que nos escritos aristotélicos se designa “ciência primeira”,
a que porta sobre o gênero mais eminente, isto é, cujo objeto compreende algo “eterno,
imóvel e separado”, à parte de todas as coisas sensíveis e que Aristóteles
designa Teologia.
“Ciência do ser enquanto ser”,
filosofia primeira ou teologia – termos que agora remetem à questão: são mesmo
sinônimos? Equivalem realmente, na imanência do vocabulário do autor, à
designação pela qual foram posteriormente enfeixadas? Se não todas, qual ou
quais dentre elas podem sustentar a equivalência desde que a aplicação do termo
metafísica deixou de ser puramente de utilidade para se tornar pelo uso o lugar
de desenvolvimento de um específico projeto?
Aubenque se aplica então a
desfazer as preconcepções arraigadas que estabelecem os termos como sinônimos.
Conforme sua interpretação somente se equivalem os significados de filosofia
primeira e teologia no interior da teoria aristotélica, sendo a física a
filosofia segunda. Quanto à assim designada metafísica, se sua circunscrição de
ser nada mais que a “ciência do ser enquanto ser” permaneceu sem um termo
específico definido nos escritos aristotélicos, a expressão mesma veio a se
estender no sentido de ontologia, a ciência do on (on) ,
declinando-se por oposição às ciências particulares.
Na episteme aristotélica há assim
uma ciência dos fundamentos que estabelece os princípios comuns a todas as
ciências, ciência do ser enquanto ser, ontologia ou metafísica. Mais especificamente
essa ciência se designa como a filosofia em geral a que se agrega outras partes
que se particularizam conforme o gênero de seres sobre que portam
constituindo-se como seus objetos.
A teologia porta sobre seres
separados e imóveis que compreendem o motor dos céus, Deus, mas também os
motores das esferas celestes, sendo assim mais geralmente uma teologia astral.
A física, ciência segunda, porta sobre seres separados, mas móveis. “Separação”
não se afirma no mesmo sentido, em ambos os casos. Os seres separados da
teologia o são por não apresentarem matéria. Já os seres separados da física o
são por subsistirem por si mesmos, sem necessidade de algo mais para que
existam. A matemática ocupa um lugar entre a filosofia primeira e a filosofia
segunda, portando sobre seres não separados e imóveis. Seguem-se as outras
ciências como astronomia, zoologia etc. A ordenação do conhecimento é feita
entre as ciências classificadas como Teoréticas ( a Física, a Matemática, a
Metafisica e a Teologia), Práticas ( a Ética e a Política) e Poéticas.
O que se apresenta como
metafísica nasce, conforme Aubenque, como projeto a partir da necessidade de
precisar as relações de linguagem, pensamento e ser, pois na refutação dos
paradoxos sofísticos, Aristóteles estabeleceu a condição de possibilidade do
pensamento e linguagem, respectivamente discurso interior e proferido, no fato
de que as palavras têm um sentido uma vez que as coisas têm uma essência.
Contudo, como observa Aubenque,
trata-se aí de uma experiência de distância, pois a linguagem torna-se agora
instrumento da intenção. Ao invés de ser, como o Logos da ontologia
fundamental para Heidegger, a abrangência que estende unificando, o Logos aristotélico se
mostra ao ver de Aubenque como meio de uma unidade mais fundamental que é a do ser assim como visado
na intenção de significar. Há distância entre a palavra, a intenção e o ser.
A linguagem é ontológica, pois
nela o que se expressa a cada vez é a unidade de cada intenção humana,
tornando-se a própria ontologia, enquanto discurso total sobre o ser, a “tarefa
infinita” do discurso em geral de “examinar todas as razões que tornam as
refutações aparentes a qualquer pessoa” (não apenas ao competente no assunto),
conforme a expressão de Aristóteles nas Refutações Sofísticas, citada por
Aubenque.
Se o projeto ontológico
aristotélico nasce na análise da linguagem a ontologia é sistema ou axiomática
da comunicação. Mas se a análise assim se interioriza – atingindo o plano das
intenções que a sofística devia ignorar para lidar com a materialidade do
discurso – o que Aubenque ressalta é que o que se reencontra é uma nova
objetividade, a do ser, pressupondo que o plano das palavras na sofística
permanecia meramente objetivo, isto é, não-subjetivo no sentido da intenção.
Não utilizo o termo materialidade
no sentido de objetividade. Parece-me que objetividade nasce no projeto
aristotélico assim descrito. A materialidade não se opõe tanto à subjetividade.
Mas o que é propriamente aquele que utiliza a linguagem se não se propôs de
antemão a cisão de sujeito e objeto? Assim compreender por esse meio a questão
sofística deve comprometer o que nela era a motivação real que de modo algum se
efetuava no exterior de uma visão pragmática da linguagem.
Quanto à objetividade “nova” do
ser, a expressão de Aubenque no que se relaciona a Aristóteles é a mais
adequada porque é também aqui, nesse plano das intenções, que o discurso se
torna uma contração de sujeito e predicado, S e P, ao mesmo tempo em que se
torna uma enunciação – de/para. Mas esse de/para-um-sujeito não está programado
no sentido transitivo do diálogo sem também se estabelecer contra todo
dialogismo efetivo na axiomática do enunciado, sob a forma do juízo, isto é,
estritamente semântico-proposicional.
O que o diálogo põe em marcha
nesse aporte é a trama pontual das significações como unidades essenciais que
dizem a cada vez o ser na possibilidade categorial de suas relações. O Logos
não é o unificante, ele é agora, ou se tornou, o significante. Assim todo
elemento pragmático-retórico precisa ser expurgado da lógica.
Contudo parece-me algo redutor
situar o nascimento do projeto ontológico aristotélico apenas no encaminhamento
da questão da linguagem. O começo da Metafísica com a exposição da doutrina das
causas, que consta também no texto da Física, revela que há conexão da
exposição causal com a ontologia, logo, deste com o estabelecimento de uma
fundamentação do conhecimento racional. Mas o tratamento da questão da
linguagem é o lugar adequado para o desenvolvimento do projeto, o lugar por
excelência deste, a partir do momento em que ele se efetiva como projeto de
fundação – não mais como nos pré-socráticos ou sofistas, apenas uma crítica do
saber do relato e uma revelação dos poderes do Logos, mas sim, e de modo
pioneiro, uma autêntica fundamentação epistêmica.
Isso porque a linguagem
ontologicamente analisada é o instrumento a serviço desse conhecimento por
causas. O que a fundação ontológica libera, como penso, é o campo objetivo das
ciências particulares. Assim, ao invés do desenvolvimento de uma
impossibilidade como trajetória do projeto ontológico, conforme a proposição de
Aubenque, penso que o que Aristóteles efetivamente pretendeu realizar responde
ao modo de um campo epistêmico organizado e fundamentado em uma perspectiva de
estabilidade e ordenação do devir garantida pela “ciência do ser enquanto ser”.
Algo que apoia essa asserção é o
desenvolvimento do aristotelismo que se efetivou progressivamente no sentido da
pesquisa de ciências naturais como física, zoologia e botânica. Ao invés de
realidades contrapostas, conforme o que a perfeição da transcendência viria
deslocar a pretensão de uma ontologia no mundo sublunar, creio que a inspiração
mais interior ao aristotelismo tem a ver com uma continuidade de organização
que se estende progressivamente sendo o critério de perfeição a proximidade do
ato, que se manifesta como forma. Deus é ato puro, mas como observa Bréhier, a
teologia aristotélica é mais uma cosmologia do que uma afirmação da
intransponibilidade da transcendência.
O motor imóvel que é Deus é
também a finalidade para o que tudo vem a ele tender. Mas permanece como princípio
que atualmente se poderia considerar físico, já que não mantemos a divisão por
gêneros, ou antes não consideramos o objeto da teologia como científico.
O que desejo enfatizar pode ser
observado justamente com base nessa analogia, isto é, nessa possibilidade de
transposição ou aproximação do que as “disciplinas” tratam, guardando-se as
especificidades da Antiguidade e da atualidade. Tanto quanto a teologia
aristotélica, o mundo dos seres separados da matéria, platônico, exibe uma
descrição cosmológica. Mas se o espírito do platonismo inclinaria
teologicamente esse conteúdo, no sentido que teologia tem para nós na
atualidade, a inspiração do aristotelismo o inclinaria mais no sentido da física
como explicação do universo. Vemos que aqui não se derivam as implicações
éticas que a ideia do bem ou a noção de alma do mundo acarretam no interior
mesmo do campo do conhecimento.
O que ocorre é que se estabelece
no aristotelismo uma continuidade entre os mundos na concepção do cosmos como
natureza hierarquicamente superordenada conforme graus de perfeição. À natureza
material do mundo sublunar e material não pertence, é certo, o mesmo movimento
circular dos céus. Mas sabe-se que quanto mais desenvolve sua doutrina mais
Aristóteles percebe que o estudo da natureza material, deste mundo, revela uma
organização ou perfeição intrínseca, particularmente visível na região da
biologia. Encontra-se assim já na Antiguidade uma epistemê sistematicamente
consagrada abrangendo experiência e observação, mas compreendendo também a
especificidade do humano.
No entanto, se essa
especificidade não destoa de forma absoluta do plano de conjunto do universo –
sempre transição do indeterminado ao determinado, de modo que Bréhier tenha
concebido no aristotelismo algo como um verdadeiro “método da substância”– se
as atividades humanas são de forma que se as pode pensar ao modo de materiais
que se combinam para formar a cidade, resta que nesse âmbito se reinsere a
pragmática retórica, os estudos de ética e política, de modo que, à semelhança
do que ocorre na atualidade, confere-se autonomia a cada uma dessas
disciplinas.
Pode-se propor que a meneira pela
qual essa autonomia se confere não sustenta o paralelo já que na atualidade
prescinde-se de uma base de fundamentação filosófica ao exercício independente
das ciências. Mas talvez esse mesmo princípio, ainda que não completamente
delimitado no sentido antigo da ontologia da substância, venha já atuando como
fundamentação a partir de uma série de pressupostos – primado da experiência,
legitimidade dos processos de quantificação, por exemplo – que vêm se
consolidando desde a modernidade e que se consubstanciam numa doutrina como
positivismo lógico ou filosofia analítica.
Se assim for o pensamento
hermenêutico contemporâneo pareceria ter muito a fazer para não ser
simplesmente o reincidir idealista. Mas a situação da contemporaneidade, se
pôde suportar alguma analogia com a Antiguidade, é tal que esse procedimento só
pôde se implementar graças à peculiaridade do aristotelismo. Principalmente o
que impede que o paralelo se estenda é o destino da dialética – lá, na Antiguidade,
algo imanente a uma prática do discurso. Aqui, desde a modernidade, uma
concepção de natureza que findou por reverter a condição de possibilidade
ideológica das ciências humanas através da dialética marxista.
Mas retornando à consideração da
episteme antiga, uma vez que ainda teremos oportunidade para desenvolver com
mais base essa questão contemporânea, o que se encaminha agora é que na
transição do helenismo ao feudalismo é comum apontar-se um certo afastamente
desse ideal “clássico” de episteme – “clássico” já que com todos os percalços
do século IV, e mesmo mantendo-se que o apogeu do período encontra-se no século
V, não se poderia propor Aristóteles ou Platão como fenômenos de epigonismo.
Em todo caso é bastante
consensual a apreciação pela qual o helenismo buscou mais a sabedoria do que a
ciência, mais os parâmetros do bem viver do que o conhecimento exato sobre os
entes. Contudo, naquilo em que platonismo e aristotelismo desenvolveram
projetos paralelos de fundamentação de uma nova legitimação, é interessante
verificar como o neoplatonismo inseriu a sua própria versão de acesso à
realidade inteligível.
Pois o que se tem a partir do
helenismo é o movimento geral pelo qual o conhecimento intelectual interessa
menos pela ciência do que pelo espírito, ou como afirma Bréhier, mais conduz à
teologia do que à realidade sensível por si mesma. Mas dentro desse movimento o
neoplatonismo supera sua própria limitação platônico-teológica ao investir o
pensamento humano – doravante assim designarei a orientação geral dos saberes do homem que virão a ser as ciências humanas – com o que talvez venha a se constituir como o seu mais autêntico
impulso.
O encontro de Grécia e Oriente
favorecido pelas conquistas da Macedônia e mais tarde pela expansão de Roma,
localiza o neoplatonismo como o movimento intelectual mais importante desde o
aristotelismo – na perspectiva historial que preserva o que vem a ser em termos
de constituição epistêmico-existencial. Provavelmente isto se conserva bastante
redutor pois como se poderia minimizar a importância do estoicismo e do
epicurismo, e tantos aportes imprescindíveis à compreensão não só do período
mas de toda a filosofia?
Minha afirmação se restringe,
contudo, no sentido do exame da formação das ciências e quanto a isso vemos que
há uma relação de ontologia fundamental, pensamento retórico e pensamento
humano, havendo também uma relação de ontologia metafísica e “ciência” no
sentido de que esse termo se revestiu desde a sua modelagem pela física, na
modernidade.
Importa ver em que o
neoplatonismo demonstra a guinada, que se preservou no cristianismo nascente,
relativamente àquele estado de coisas pelo qual se havia logrado os fundamentos
de uma “tradição do humanismo ocidental”, conforme a expressão de Apel.
Assim se localizamos no
aristotelismo o ápice da epistemê antiga no que se relaciona com o quadro de
instituição das ciências tal como historicamente se desenvolveram, isso se deve
a que nele institui-se a fundamentação da racionalidade que se recupera no
sentido moderno do termo, isto é, a fundamentação pela causalidade. Quanto ao
neoplatonismo o que nele se opera é não tanto a fundamentação mas a inspiração
essencial pela qual o pensamento humano se desenvolveu no deslocamento
ontológico da causalidade pela temporalidade e com isso, da objetividade do ser
para a constiutividade ou existencialidade da alma.
Deslocamento problemático. Pois
vimos como em Aristóteles a própria objetividade do ser possuía o seu lugar de
desenvolvimento, enquanto questão, no terreno da linguagem na medida em que
esta fazia derivar sua autonomia de algo mais fundamental, a intenção da alma.
No entanto, vimos também que essa intenção permanecia coextensiva à essencialização objetiva do ser. Mesmo assim, tem-se aqui uma demonstração
daquilo que já afirmei sobre a complexidade dos estudos aristotélicos, e mesmo
o espaço de reserva em que se institui a decalagem entre Aristóteles e
aristotelismo. O que se torna mais enfatizado pelo próprio fato de que , como
afirma Bréhier, “é frequentemente a leitura de um comentário de Aristóteles que
apoia o início dos tratados de Plotino”.
Mas deslocamento nesse sentido
pelo que se pode atribuir ao aristotelismo a origem da fundamentação causal e
mesmo aos escritos aristotélicos a intenção pioneira quanto a isso, sem
comprometer-se assim o conjunto da teoria ainda suscetível de análises
ulteriores, isto é, sem restringi-la à concepção estreita de ciência, verificável
por exemplo numa doutrina de índole neoepositivista que destitui de
significação tudo que não é passível de experiência.
Assim se o tempo é tratado como
tópico da física aristotélica, e até o neplatonismo permanece uma constante a inserção do
tempo nas explicações “científicas” da natureza, já com Plotino ocorre a
pioneira inserção do tempo como realidade da alma, inaugurando uma via de
reflexão que se reconhece, por exemplo, na atualidade, em Heidegger. A
temporalidade estabelece essa via como vertente mesma do pensamento humano e
examinar as conseqüências da exposição de Plotino garantirá o acesso a
importantes desdobramentos que se efetivam no mundo feudal.
II – Temporalidade e
Temporalização
O que se tornou evidenciado na
consideração em torno da origem do termo metafísica foi o plano de fundo do
platonismo. Até aqui não se pode afirmar que tenha sido uma preocupação real
delimita-lo. No entanto ressalta naquela consideração, como que
tangencialmente, o papel desempenhado pelo platonismo na recepção dos tratados
de ontologia. O efeito dese desempenho se tornará mais enfatizado quando se
tratar de avaliar as implicações atinentes às relações de neoplatonismo e
cristianismo nascente.
Efeito do platonismo, certamente,
mas então efeito de um outro efeito já que, como observou Derrida, o próprio
platonismo não pode ser mais que “um dos efeitos do texto assinado por Platão”
– e contra o texto, acrescenta ele, pois nenhum texto se limita cotextualmente
e a trama histórico-filosófica do intertexto solapa a unidade da intenção, a
lógica do autoral.
Assim quanto à recepção dos
tratados aristotélicos observa-se algo bastante curiso. A designação – meta ta pusika - reservada
ao conjunto dos escritos surge unicamente em função do projeto ontológico de
Aristóteles. No entanto o que esse conceito logrou significar determinou-se
pelo que se constituiu no interior da escola platônica.
Heidegger já estabeleceu a origem
da metafísica como destinação niilista – em sentido nietzscheano – do
pensamento ocidental nas decisões operadas pelo platonismo. Desse modo tem-se a
retrogradação do termo metafísica na aplicação à filosofia platônica. Mas que
significa agora metafísica?
Vimos como na imanência da teoria
aristotélica a “ciência do ser enquanto ser” não portava sobre um atributo de
preminência quanto ao objeto. A substância poderia mesmo desempenhar o papel de
método, conservando-se no elemento da neutralidade, na economia de uma
fundamentação causal do conhecimento. Mas no platonismo o fundamento não se
erige do interior daquilo que ele funda. O corte propriamente metafísico – em
sentido heideggeriano – opera entre sensível e inteligível de modo que a
completude da Physis garantida pelo Hen (unidade do logos) fundamental se tornou precisamente o
conteúdo esquecido da ontologia metafísica.
Nesse locus platônico a recepção
de uma ontologia da substância convinha como teologia. Pois não há dúvida de
que se Aristóteles realiza a unidade material-formal, a pertença – ao menos
possivelmente afirmada – do inteligível reservando-se ao elemento formal permitia
uma leitura platonizante favorecida pelo fato de que há verdadeiramente
desenvolvimento na trajetória intelectual do Estagirista de modo que pode-se
afirmar que só progressivamente seu pensamento conquistou independência real
relativamente à influência de Platão.
Assim vemos que a retrogradação
do termo só se tornou possível porque aquilo que ele designava originalmente
teve seu sentido, ao menos quanto à recepção, prévia e estrinsecamente
estabelecido por aquilo mesmo sobre que a retrogradação veio a incidir. A
autenticidade ou independência do sentido aristotélico só pôde se estabelecer
lá onde, esparsamente através da história e mais consensualmente na atualidade,
o que antecedeu, isto é, o platonismo, não condicionou o que veio a se
estabelecer como ontologia dos tratados da ciência do ser enquanto ser, devido
às peculiaridades dessas instâncias recepcionais que não analisaremos de todo
por agora.
Cabe então assinalar a questão do
platonismo que se torna porém plenamente enunciável apenas a partir do momento
em que se impõe o pensamento cristão nascente, quando o cristianismo se torna
capaz de produzir algo como pensamento, não determinando-se apenas como uma
repetição de relatos ou cristalização de dogmas, isto é, com Santo Agostinho.
Pois o que se impõe como questão
é estabelecer até que ponto se pode afirmar que só o cristianismo introduz
descontinuidade efetiva entre os mundos, tendo a physis de qualquer modo
assegurado sua unidade até, inclusive, o neoplatonismo que a garantia pelo fio
de continuidade inquebrantável, presentificado como luz, entre todos os planos
do real. Não se poderia, ao invés, postular a metafísica platônica enquanto
pioneira quanto a isso? Em outros termos, poder-se-ia indagar: como nasceu a
matéria, a noção de uma realidade puramente material que induz a pensar algo
não por si informado mas carente de forma, o impensável sem-conceito?
O impensável não é novo.
Deparamos com a necessidade de postula-lo ao examinar o paradoxo de Górgias.
Nesse contexto o impensável é o real, o ser para o qual o pensamento tende como
limite na concepção grega ontológica fundamental. Mas pensamento, enquanto
Logos, só lida com a materialidade de sua unificação relacionante, isto é, com
o processo sempre local, toda uma tópica, de abrangência.
A opinião visa a coisa como se
ela fosse o real mas o conhecimento compreende o limite e é dócil à
complexidade existencial pela qual o caos se ordena guardando-se assim, na
Physis, o inomeável do ocultamento. Mas não se postulou do Caos nada mais do
que o Nada.
Platão no entanto deslocou o
limite ontológico, a noção mesma de limite aí jogada. O platonismo postulou o
Korismós, a separação, intransponibilidade radical de matéria e essência de
modo que, como Heidegger mostrou, o que antes apenas se revelava desvelando-se
se torna agora a presença constante da identidade a si da essência. O
impensável sofístico é o que não pode aparecer, o platônico é a realidade mesma
da aparência.
O limite assume no platonismo
precisamente o papel principal na combinação dos dois elementos, material e
ilimitado, formal e limite. O ilimitado oscila sempre entre pólos
contrastantes: grande e pequeno, agudo e grave, quente e frio, de modo que cada
componente do par tende para o mais exatamente inverso do outro (o maior e o menor,
etc.). A relatividade e perpetuidade da oscilação encontra seu termo pelo
limite, sendo esse elemento limitante uma relação numérica fixa, como o dobro
ou o triplo. O misto, como ensina Bréhier, resulta “da introdução de uma
relação fixa em um par de opostos”.
Mas penso que o problema persiste
no seguinte. Temos com clareza três termos quando só são textualmente
enunciados dois. Pois limite e limitante não são o mesmo. A relação numérica
limita mas o limite enquanto tal não precisa ser dessa espécie. Assim o limite
é a ação, o limitante é aquilo que a exerce. Que a limitação seja numérica, que
toda a questão se defina como matemática, isto se tornou o que restou por
compreender.
Podemos ver como Aristóteles já
conta com uma noção bem estabelecida de matéria. A definição do termo está em
conexão com a teoria causal, como aquilo de que a coisa vem a ser e na qual se
mantém. O livro delta (4, 25 e ss.) da Metafísica reúne seis aplicações da
palavra natureza, dentre as quais se englobam as duas já utilizadas na Física
II e se esclarece o uso que se encontra no início do livro A da Metafísica.
Com o “y “ longo, Physis,
natureza, lembra o brotar heideggeriano sendo “gênese das coisas que crescem”.
Mas também é a parte imanente da coisa, da qual provém o seu crescimento.
Seguem-se as outras definições: origem do movimento, o material de que são
feitos os objetos naturais, a essência desses objetos e a esência em
geral.
A matéria corresponde portanto ao
elemento – componente primário que inerentemente constitui algo – de que as
coisas são feitas. Nesse sentido pode-se afirmar também: o bronze é a natureza
da estátua. O termo para matéria, utilizado por Aristóteles, é sempre ule – Hylé.
Não ocorre, apesar do escândalo
da terminologia medieval, matéria sem forma postulada pela teoria, uma vez que
conforme a expresão de Bréhier, a existência só pode ser afirmada sob a forma
de substâncias atuais. A indeterminação ou a matéria que pode existir no mundo “não
se postula como uma indeterminação absoluta e em si, mas somente relativa a
formas mais completas”.
Ao registrar assim os usos dos
termos – natureza, matéria, elemento – Aristóteles mantém uma relação
constitutiva do pensar com o que circunda , isto é, com o uso registrado dos
termos, e com o que precede, inaugurando a história da filosofia. Mas nesse
sentido, ele ao mesmo tempo mantém a originalidade do que recolhe e instala a
reflexão no domínio de síntese que é o do seu próprio pensamento. Ocorre assim
uma progressão, como se o que é anterior informasse de dentro o processo pelo
qual, consequentemente, as questões se perfilam e recebem seu influxo em
esferas de complexidade crescente.
Pode-se objetar que de modo algum
a “originalidade” do que precede se mantém, pois o que entra como componente
adquirido na reflexão não conserva o sentido precisamente original de sua
constituição – os “fisiólogos” não eram, provavelmente, “materialistas”. Mas no
interior desse pensamento novo, isto é, desse agora “presentual” da história o
papel que desempenham como o que se adquire não deixa de ser originalmente
exercido. De modo algo paradoxal não se pode tampouco falar nesse caso de
distorção.
Mas quando se propõe a
interrogação sobre o korismós, e sobre o estatuto da matéria na filosofia
platônica, essa familiaridade expressa dos termos, (re)constituída no interior
do aristotelismo, não surge, ao invés ocorrendo a surpreendente emersão do
paradoxo do lugar que envolve a proposição de matéria separada. Assim para nos
aproximar da questão proposta – como nasce a noção de uma realidade sensível
separada do inteligível – o platonismo exige que se a recoloque em outros
termos: como se pode propor a existência e a separação das ideias?
Bréhier aponta como método
autenticamente platônico o da análise – que remonta do condicionado à condição
através de hipóteses. Assim Sócrates, no Fédon (97 e ss.) testemunha que a
hipótese das ideias surge quando ele abandona o tipo de explicação da física,
como a de Anaxágoras, que intervém relacionando realidades já dadas, acessíveis
ao modo de fenômenos.
Relacionando-os causal e
extrinsecamente, a física explica um fenômeno por outro, jamais procedendo na
exterioridade do observável ou intuível. O método platônico é oriundo, ao invés
da física, da matemática, enquanto hipotético – tal como procede o geômetra do
Menon (87 a). Sócrates resolve, após notar que Anaxágoras permanece incapaz de
explicar a liberdade de sua própria decisão ética, abandonar inteiramente as
explicações físicas e lançar a hipótese das ideias – aquilo que é em si e do
qual tudo o mais participa sem, contudo, confundir-se de todo com ele.
Mas de onde surge esta – não
qualquer outra – hipótese? A influência pitagórica, se até aqui não
negligenciada, preserva-se. Pois a origem do conhecimento – ciência real ou
filosofia – já se instalou no que transcende os sentidos, portanto também a
necessidade material ou natureza como ordem fenomênica, através de um remontar
ao mito que introduz a preexistência da alma.
A autonomia do espírito que
formula suas hipóteses e as aplica especulativamente ao que percebe a fim de
testar sua sustentabilidade veio a se impor pelo modelo da matemática. Mas o
que o geômetra utiliza na formulação de suas hipóteses são relações já dadas na
axiomática de sua aplicabilidade, o que define a aceitabilidade. Analogamente,
quanto à filosofia, o que a alma encontra na liberdade do espírito que propõe é
tão somente aquilo que ela já possui. Conhecer é lembrar o que a alma viu no
mundo de que precede, o das ideias separadas da matéria. Mas como se pode
postular a ciência pelo enraizamento do mito?
Esse problema se enuncia
exemplarmente na análise de Derrida sobre a Khôra platônica. Conhece-se a
problemática do Timeu (48 e ss.). Khôra é o lugar ou receptáculo do vir a ser,
isto é, de toda coisa material. Mas Khôra não é hylé. Hylé é o material mesmo,
a matéria – prima, madeira ou bronze, aquilo que em Aristóteles se afirma como
de que algo é feito. Khôra não é uma coisa, é um não-conceito na verdade, um
paradoxo nem sensível nem inteligível. Sendo este o elemento formal e aquele o
elemento já informado, a Khôra é o que recebe a informação permanecendo porém
sem identificação possível com ela.
Receptáculo (dekhomenon), mãe,
ama, conforme as imagens propostas pelo Timeu para designar essa noção
aproximada como lugar, território, local, o problema é que entre o vir a ser e
o ser deve haver esse fator a possibilitar a natureza enquanto sobredeterminada
pelos dois planos separados. Mas como conceituar o inconceituável?
Se o timeu mantém esse terceiro
gênero, o lugar, que não se confunde com o da forma imutável nem com a
realidade em movimento, na economia do diálogo ele se reserva à linguagem de um
raciocínio ilegítimo, um Logos que não é o do conceito e que Derrida se
pergunta a princípio se não pertenceria antes ao mito, de algum modo repondo a
questão que examinamos anteriormente, com Molles, da mito – logia.
O que Derrida observa é que o
Timeu se constrói como uma série de regressões – ao diálogo de ontem de que o
Timeu de hoje se encarrega de narrar, mas também ao povo mais antigo, os
egípcios, que recolhem a memória dos gregos , às sucessivas gerações de Crítias
e ao legómenon do mito, a palavra sem origem, sem a identidade do conceito, que
no entanto se exerce para que este último se viabilize.
Conforme Derrida a Khôra seria o
mise en abyme desse recuo das origens, funcionando, penso, metalinguisticamente
como o espelho dentro do quadro que se espelha assim ao infinito. Pois Khôra é
uma noção que a linguagem conceitual não pode designar, obrigando o discurso a
recuar no sentido mítico mas aí tampouco se deter pois o sem objeto da
proposição não mantém a progressão e assim “nós o percebemos como um sonho”,
como afirma Platão, a linguagem desdefinindo-se em proveito de algo que
finalmente se vê a funcionar como horizonte de sentido.
Esse horizonte reencontra o lugar
da possibilidade da hipótese – é o da reminiscência de que se encontra a noção
no mito da preexistência da alma. Pode-se então pensar que o próprio Timeu se
exerce no sentido de mise en abyme com relação à obra de Platão que se instala
inteiramente na procura do relato perdido do período arcaico. O gesto platônico
por excelência é de evasão do século IV, de recuo ao momento em que ainda se
poderia pensar Sólon poeta prevalecendo sobre Sólon político.
Ato filosoficamente paradoxal,
pois lançando o korismós entre ser e aparência, Platão inaugura a metafísica já
que ao que pertence puramente à física não se atribui a função de explicar o
real tendo, isso sim, que ser explicado. Mas nesse passo atrás, do fenômeno ao ser,
não se atinge algo como imediatamente o conceito – este tomado na sua simples
determinação lógica – assim como se o logra atingir numa enunciação
fenomênico-constatativa.
Recuando indefinidamente, do
presente do fenômeno chega-se ao eterno da ideia. Ora, a hipótese também se
encontra lá, no mito da preexistência da alma, agora transposto na doutrina da
reminiscência. A alma viu, a alma possui o que ela viu. Como observa Alain
Boutot “é precisamente essa presença antecedente da ideia que torna possíveis o
desvelamento e o encontro das realidades que dela participam como tais”.
A regressão é então o movimento
próprio do platonismo, do presente ao eterno, transcendendo o espírito à
causalidade fenomênica. Mas o que é propriamente metafísico é que esse horizonte
de transcendentalidade que são as ideias não abre a possibilidade existencial
como compreensão do ser mas antes já hierarquiza o devir a partir da presença
constante que é identidade a si na ideia – inclusive na ideia pensada ela mesma
ao modo do número.
O pensar do ser como precedendo e
condicionando o ente pode então designar-se metafísico pois Ser “enquanto
Physis”, não – platônico, conforme Heidegger em Nietzsche II, “não tem
necessidade de nenhuma ordem a partir da qual e na qual se decide de sua
anterioridade ou de sua posterioridade, de seu antes ou depois; pois ele é o
produzir-se (das her-vor-gehen) de sua própria clareação”.
Mas também ato que inaugura de
certo modo a própria filosofia, e daí o seu caráter paradoxal. Pois conforme
Heidegger em “Que é Metafísica” expõe, a nossa própria pertença metafísica
consiste nisso pelo que enquanto se é humano ocorre filosofar, mas a filosofia
sempre já se está exercendo a partir do “peculiar salto da própria existência
nas possibilidades fundamentais do ser-aí em sua totalidade”. O reverter do
pensamento não-metafísico guarda relação com o fim da filosofia mas conserva-se
ainda como tarefa, pois não se trata, como em “Tempo e Ser” , ainda aqui,
apenas de “proposições enunciativas”?
O movimento regressivo do
platonismo parece o do próprio conceito – mas não se deveria estar no caminho
de algo mais que o conceito, visado como ideia, sobretudo em um tempo de
paralogia ou paradoxo como legitimação? Como precisar agora esse outro peculiar
salto sem se restringir à coisificação da linguagem e do mundo propostos pela
técnica?
O movimento platônico instala,
pode-se propor – o exercício independente do espírito vindo assim ao encontro
do pensamento humano. Mas o que assim se instalou – a alma – só o pôde fazer instaurando
uma relação de duplicação, não tanto agora, talvez, de regressão, no tempo.
Tornou-se pensável o tempo anímico da reminiscência mas apenas como não-tempo.
O tempo conceitualmente
tematizado na filosofia platônica se compreende ele mesmo dominado pelo modo do
presente. O tempo tematizado nasce com o céu enquanto o discurso sobre a Khôra
se apresenta como sendo relativo à exposição sobre o que estaria “antes do céu”
– isto é, apresenta-se como explicação sobre a origem dos elementos.
Mas se o atemporal do pensamento
é algo da ordem da reminiscência exige então o salto que se dirige no sentido
da ex-temporaneidade, nessa “temporalidade” do conceito enunciada por
Bachelard, ou o “tempo lógico” de Goldsmidth, esse último sintomaticamente
apresentado na abrangência de um estudo sobre a “Religião de Platão” como
inerente aos sistemas filosóficos, logo, proposto como método de sua
compreensão.
Ora, é provável que esse seja o
traço mais marcante da metafísica precisamente inaugurada por Platão, a saber, a
impressão de que pensar é subtrair-se ao tempo histórico, equivalendo
espiritualmente ao ato pelo qual se escande uma refração na continuidade
existencial, a Khôra sendo mesmo o conceito desse rasgo ou escanção que Derrida
apresenta como abismo abrindo-se no interior do discurso do Timeu e que ele
identifica como movimento de recuo em relação ao discurso filosófico, a meu ver
também de ascese em relação à efetividade histórica, na direção dessa linguagem
outra que é a do mito.
Mas porque utilizar aqui precisamente
o termo movimento? Tudo transcorre como se a operação do platonismo consistisse
em uma série de movimentos regressivos, como observa acertadamente Derrida
quanto ao texto do Timeu. Mas essas voltas determinam finalmente um corte na
continuidade do devir assim problematizada ou evidenciada por demais,
exagerada.
Fazer sempre possível o
deslizamento temporal no sentido do passado, deslizamento por sua vez tampouco
linear mas recortado a cada vez da efetividade da enunciação no tempo do
diálogo, efetividade que deveria ser sempre promessa de novidade conforme a lei
da informatividade, isto equivale a diferenciar a continuidade do devir como
que sobre si mesma.
Ao lançar a hipótese, ao atingir
o limiar do discurso filosófico-racional-conceitual, o que se operou foi um
outro agir, dessa vez já possibilitado por essa sobredeterminação do devir na
série de regressões. Esse agir agora é a escanção pela qual suspende-se o tempo
do devir, duplica-se o real, ascedendo assim ao atemporal da reminiscência,
a-temporalidade do conceito. Corte e duplicação mas logo verticalidade de modo
que o duplo do real fenomênico se pretende mais real do que esse, logo o único
real. É então muito importante que sua pretensão seja a de ser único.
O tempo das origens do mito
arcaico, isto é, o tempo da regressão indefinida conforme a proposição da Khôra
em Derrida, é agora com Platão o lugar da fenda pela qual se escande o tempo do
conceito, a-temporal da reminiscência, ascese dialética.
Mas na realidade não se opera conceitualmente
sem que a operação – seja lá qual for contanto que exista – seja uma ação
na historicidade do conceito. Assim a preparação da ascese não torna ascessível
o a-temporal da ideia sem que a série de regressões deixe de atuar como
propedêutica também de ascese a uma nova história da filosofia purgada do
século V. O “novo começo” de que o discurso da Khôra se faz introdutório no
Timeu seria o da própria filosofia (re)nascendo no platonismo que sonha apagar
o que sucedeu historicamente o arcaico como ontologia fundamental e sofística.
Que se possa ter designado esse
a-temporal do pensamento, como Bachelard, “temporalidade”, é bastante proveitoso
para mostrar que essa temporalidade, sendo como ele mesmo acentuou o “não-tempo”,
opõe-se à temporalidade da Physis pré-socrática que prefiro designar como
temporalização.
A physis mesma é temporalização
naquilo em que o Hén é unificação relacionante. Logo não se pode pensar
unificação no sentido absoluto de unidade mas como a reunião da irredutível
multliplicidade. O Logos da ontologia fundamental temporaliza compreendendo,
ele estende o que na Physis já está se relacionando de modo a mostrar-se no como
do desvelamento, na clareira do sentido. Creio que a frase de Anaximandro
permite essa interpretação ao preservar o elemento do tempo como aquilo em que
as coisas se relacionam.
O Logos sendo caminho, como
abundantemente se afirma em Heráclito, é movimento, traçado do Plano de (ou “na”)
imanência, imagem de pensamento e meio de conexão das variáveis que povoam o
conceito não de todo identificado com a ideia platônica.
Assim na será legítimo designar
como movimento o voltar de Platão e o corte de transcedência que esse voltar
pretende viabilizar. Como Deleuze estabeleceu trata-se de transcendência
precisamente onde há parada, “interrupção de movimento”. O conceito como ideia,
que Heidegger aponta como inaugural da metafísica, Deleuze define como
interrupção de movimento, e a pretensão do duplo do real de ser o único real
corresponde à natureza da ideia, “sempre unidade” que “opera no meio de uma
dimensão vazia suplementar àquela do sistema considerado” conforme a citação de
Mille Plateaux.
E é exatamente essa dimensão
vazia que resulta da ascese platônica, é a ela que a duplicação faz asceder
pela parada que se escande após a série de regressões, ascese calcada na
modelagem do pensar pela matemática. Como tal pode-se, sim, falar de uma
religião de Platão pois conforme Deleuze pode-se afirmar que “há religião cada
vez que há transcendência”.
À regressão indefinida das
origens como tempo próprio do mito arcaico – que o pitagorismo havia modulado
como eternidade enquanto elemento das vicissitudes da alma – se transpõe a
temporalização como nascimento do pensamento, na crítica do saber, já se
instalando como ontologia fundamental e pensamento retórico na ambiência do
humano. A temporalidade platônica se estabelece na dimensão vazia do pensar da
identidade “pura”, interrupção do movimento, redução do múltiplo ao uno como
presença constante da ideia. A causalidade aristotélica mantém uma relação
complexa com esses predecessores.
O agir do aristelismo não produz
a duplicação como operação de transcendência, não se processa como ascese a
essa temporalidade vazia de tempo (a-temporalidade). A pesquisa aristotélica
envolve sempre observação do real fenomênico, é operação de imanência. No
entanto o corte teofrástico precisa ser considerado no sentido histórico de uma
possível e vindoura modelagem do pensar pela física.
Possível – pois não pretendo já
estabelecer como dada a vinculação do pensamento aristotélico com essa
modelagem pela física mesmo afirmando que é o que me parece o mais plausível.
Vindoura – pois sabe-se que será o que efetivamente ocorre na modernidade.
No entanto o que a
a-temporalidade platônica efetivou, com sua modelagem do pensar pela
matemática, foi a sobredeterminação do termo “metafísica” oriundo como vimos
dos escritos aristotélicos. Esses escritos relativos à ciência do ser enquanto
ser não devem ter estado conexos aos tratados de Física apenas casualmente.
Como método da substância e fundamentação causal garantem, em Aristóteles, a
estabilização da teoria provendo a observação do real fenomênico com o status
de uma prática científica.
E logo o fator Platão se conecta
com a índole helenística e cristã de modo que se tem nesse período de
transição, cujo momento culminante é Santo Agostinho, a questão enunciada: os
processos cosmogônicos do mito grego implicam sempre geração, desenvolvimento,
enquanto que a mentalidade judeu-cristã lida com a noção de criação abrupta
ex-nihilo. Assim esse tipo de descontinuidade, que determina também a
duplicação de planos no seio do real, não pode ser imputada às correntes
anteriores ao pensamento cristão na transição do helenismo ao feudalismo. Mas
será o bastante para se pensar uma Physis una mesmo na contingência do
platonismo?
Penso que a fratura do real
consubstanciada como corte metafísico propriamente platônico relaciona-se a uma
exacerbação do arcaísmo pelo que se buscava a todo custo restaurar o fundo de
descontinuidade política oligárquica, o que pode ser observado plenamente no
pensamento ético-político de Platão.
Se, como observa amiúde Jaeger, a
Paideia autêntica dos nobres nos tempos recuados da Arete heróica e da economia
agrícola pressupunha uma continuidade social bem grega, isso se devia ao elo
intrínseco que ligava os ideais aristocráticos à cultura popular pois a
descontinuidade, como desigualdade fundamental de classe, subsistia sob a
salvaguarda do mito. Mas o evolver da história atuou no sentido de convergir
cada vez mais as desigualdades de classe e cultural, favorecendo uma
movimentação popular tendendo à igualdade política – continuidade isonômica e
democrática – favorecida pela revolução econômica no limiar da emergência da Pólis.
Contudo quando se pretendeu
remontar a corrente o que resultou foram sínteses forçadas como as políticas
culturais dos tiranos – impondo a exibição da cultura a um povo indiferente e
despreparado para ela – ou a figuração de uma realidade puramente formal e
modelar contraposta àquela a que só se devia imputar o dever de imitar.
Ainda assim penso que o
criacionismo atua como elemento decisivo, pois o Korismós platônico não deixa
de se exercer como explicação sem funcionar também como método de análise
efetiva – sempre mistos de que se deve considerar precisamente a composição. No
cristianismo, porém, trata-se de estabelecer o corte no sentido de realidades
corporais e anímicas, havendo também a instauração de planos de realidade
extremamente opostos, o de Deus e o dos homens, paradoxalmente relacionados
pela existência do Deus-homem Jesus.
A realidade corpórea se torna
assim conceituada de modo inteiramente novo pois o corpo, sede da alma, mantém
com esta relações não de todo harmoniosamente pré-estabelecidas. No intervalo
conflituoso instala-se a novidade da consciência que é afinal o que decide ou
responde pela alma perante Deus no juízo.
Quanto à irredutibilidade dos
planos, o de Deus e o dos homens, e sua paradoxal inter-ligação, as
conseqüências deverão se tornar bastante visíveis no campo do pensamento humano
pois surgirá daí algo como uma filosofia da história, com Santo Agostinho. Mas
para delinear-se bem como se estabelece essa realidade histórica, doravante
filosófico-metafisicamente fundamentada, é preciso compreender como a história se
desenvolve no seu elemento mais próprio – o tempo – e através dessa análise se
poderá precisar em que se pode efetivamente consignar ao cristianismo o
pioneirismo daquela separação – ou “superação” – da Physis.
III – Paganismo, Filosofia e
Cristianismo
O período que devemos examinar
sob a designação geral de helenismo abrange, desde o século I de nossa era, até
a consolidação do estado de coisas feudal, de que poderia ser um marco o
fechamento das escolas filosóficas de Atenas por Justiniano (529). Ele se
caracteriza pela tensão entre três tendências, a místico-pagã, a especulação
filosófica e a religiosidade cristã.
Para viabilizar uma linha de
continuidade desde a época clássica que viemos estudando, pode-se mapear o
helenismo, utilizando as resenhas sinóticas de Sciacca, conforme os subperíodos
moral e religioso. O período moral abrange epicurismo, estoicismo, ceticismo e
ecletismo, vindo desde o final do século IV até o início de nossa era. O
religioso, a partir dessa época, compreende a filosofia judeu-alexandrina de
Fílon, neopitagorismo, neoplatonismo e as escolas siríaca e ateniense.
Como já acentuei essa aproximação
à transição do helenismo ao feudalismo é muito panorâmica pois minha intenção é
delinear o curso de evolução das linhas de prolongamento, localizando se
possível o ponto preciso de sua refração. Por esse motivo não me deterei no
período moral e estou examinando apenas o religioso.
Naturalmente se poderia objetar
que com isso a importante conexão de cristianismo e estoicismo permanece não
tematizada. Ocorre que a evolução que pretendo focalizar tem a ver com temas
que surgem especialmente no confronto do pensamento cristão com o
neoplatonismo.
Eternidade do mundo, divindade
dos astros, crença na magia e na metempsicose são universais no período
religioso, a ponto de se poder falar dessa “fé” como configuradora do
helenismo, designado agora como tendência espiritual oposta ao cristianismo que
nega cada uma dessas proposições.
A tendência marcante é o
sincretismo, especialmente a mescla de religiões orientais com as gregas e
latinas: adoração ao sol, à Mitra, cultos sírios, mistérios egípcios, não raro
aceitando elementos provenientes uns dos outros nas cerimônias oficiais. Ao
lado dessas religiões organizadas o paganismo se vê povoado por uma
multiplicidade de seitas e doutrinas místicas como a alquimia – o tratado de
Hermes Trismegistos é localizado por Sciacca no século I e por Bréhier no
século IV – que este último reúne sob a rubrica da teurgia: conhecimento de
práticas para fazer intervir o sobrenatural conforme a inclinação da vontade do
praticante.
Essa espiritualidade não encontra
resistências de tipo racionalista. A atitude puramente intelectual , como por
exemplo a antidogmática cética ou a crítica epicurista contra toda superstição
, se tornam bastante raras, praticamente não ocorrendo qualquer pretensão de
explicação física ou mecânica dos processos da natureza. Tudo é visto como uma
rede de relações mágicas, influxos misteriosos que propiciam os acontecimentos.
A cor, sendo qualidade, por exemplo, é utilizada como prova de que o
racionalismo jamais poderia explicar todos os fenômenos. Os Oráculos Caldeus e
o Timeu de Platão são considerados os textos fundamentais na época em que
predomina esse tipo de inclinação espiritual.
Os que se devotam agora à
especulação filosófica de modo algum se isentam dessas crenças. Mas esses
filósofos se encarregam de algo outro em relação aos teurgos que eles não
deixam de respeitar e que não se interessam por tais tarefas. Trata-se de especular
sobre a realidade suprasensível, determinando-lhe as formas hierarquicamente
conceituadas. O mundo sensível é em todo caso concebido como meio de interação
de influências mágicas. Mas o que os filósofos do helenismo pretendem é
compreender a realidade que está acima da magia do mundo.
As tendências sincrética e
mística persistem ainda assim pois o filósofo, como Plotino, também é o homem
do seu tempo. O neoplatonismo de Plotino desenvolve, por exemplo, paralelamente
à filosofia, uma religião autêntica dotada de dogmas e uma profusão ritual
bastante peculiar. E se o filósofo se singulariza em relação ao teurgo, a
princípio, por sua recusa dos meios da magia, o teor mesmo das filosofias se
concentra progresivamente em torno de uma realidade suprema visada como objeto
de veneração religiosa.
Quanto ao cristianismo a questão
inicial importante é a relação com a filosofia. Antagônica a todas as formas de
religiosidade pagã, o cristianismo apresenta duas posições opostas quanto à
especulação e à cultura filosófica proveniente dos gregos. Conforme Sciacca, os
apologistas latinos (Tertuliano, Arnóbio, Minúcio e Lactâncio) representam a
posição daqueles que consideram a filosofia inútil ou perniciosa – a mãe de
todas as heresias. Já os alexandrinos Clemente e Orígenes admitem a
continuidade de pensamento grego e revelação cristã.
Mas nesse aporte a continuidade
apresenta pontos de inflexão, refratando-se. Por vezes de modo sutil.
Utilizando-se a fórmula proferida por um filósofo em seu contexto, conduz-se a
conclusões exclusivamente oriundas do dogma da revelação. É assim, por exemplo,
com o monoteísmo de Antístenes e Xenófanes e com os atributos de Deus
enumerados por Cleantes ou pelos pitagóricos. Tudo é desde então aplicável ao
Deus cristão e a sabedoria anterior pode ter se aproximado da verdade, mas
permanece fundamentalmente incompleta.
Contudo, naquilo que mais
importa, é o próprio molde do ensinamento filosófico grego, sua coerência e
organização teórica, que o cristianismo inteiro emprega constituindo-se assim
enquanto doutrina consistente. Orígenes, no século II, produz, com efeito, sob
a influência da filosofia sincretizada judeu-grega, a pioneira exposição
sistemática do dogma cristão. Quanto a isso ressalta-se a importância da
filosofia judeu-alexandrina de Filon que no século I já pretende encontrar nos
filósofos gregos a verdade do Velho Testamento interpretado alegoricamente.
A posição dos apologistas, porém
não foi de todo minimizada ao longo da dominação feudal. Ainda nos século X e
XI conta com adeptos como São Bernardo e os vitorinos Gualtério e Gofredo. Mas
é interessante observar que a continuidade temática persiste mesmo aí pois na
vontade de negação reside uma via polêmica de argumentação, de modo que a
tentativa de argumentar contra as proposições dos filósofos teve o efeito de
conserva-las.
Subsiste contudo a consternação
com que se depara aquele que observa a mudança brusca de natureza das fontes de
reflexão no limiar do feudalismo. Na expresão de Bréhier “o VI e o VII séculos
são momentos de grande silêncio”, após o interregno da consubstanciação
doutrinal ainda no helenismo, em que todas as questões foram se resumindo às
formas fixadas do dogma. Mas pelo que vimos nesse momento do cristianismo
nascente sua via mística não parece de todo deslocada no meio da profusão de
religiões, oriundas do cenário de cosmopolitismo romano, ou da convegência
característica de especulação filosófica e contemplação do sagrado.
O que o cristianismo instaura não
permite que se estabeleça a mesma divisão de trabalho que se pôde localizar
entre a filosofia e as seitas pagãs do helenismo. Ao mesmo tempo em que
prolonga motivos bastante próprios do período só o faz a custa de inviabilizar
não só a relação entre essas instâncias mas a existência mesma da religião pagã
e a consistência mesma da filosofia antiga. O que se torna surpreendente é que
ao solver essa consistência o cristianismo lança o novo meio conceitual no qual
a filosofia se desenvolve de modo que a historicidade do conceito se manterá
integralmente.
Talvez não seja demasiado
simplista relacionar os fatos de modo a lembrar que se a filosofia nasce na
transição da economia agrícola para a intensa movimentação comercial e
industrial na Grécia, é coerente que a interiorização feudal tenha sido favorável
à sua estagnação. Contudo o cristianismo recolhe de um modo ou de outro a
linguagem do conceito. Interessa agora examinar o modo pelo qual isso foi
feito.
Já afirmei que o helenismo em
geral buscou mais a sabedoria do que o conceito. Analogamente Américo Pessanha
observa algo importante sobre a motivação do pensamento de Santo Agostinho. A
filosofia não se visa, no Doutor da Graça, como disciplina teórica que coloca
problemas à estrutura do universo físico ou à natureza dos deuses, mas como
indagação sobre a procura da beatitude enquanto modo mesmo de ser humano. Assim
a inserção desse pensamento em seu período é bastante evidenciada.
Mas a continuidade temática se
refrata, pois se no helenismo a procura da sabedoria, como felicidade e ideal
de bem viver, é algo inerente à humanidade porque o ser humano é racional, no
cristianismo a beatitude se basta como Ideal que é já essência do humano. No “Contra
os Acadêmicos” Santo Agostinho combate o ceticismo aliando felicidade e verdade
– só se é feliz tendo encontrado a verdade. Mas a conseqüência é mais o
enraizamento ético do conhecimento do que a identidade bem helênica de bem
viver e racionalidade [lembrando que se o ceticismo nega o critério da verdade, nem por isso nega os instrumentos erísticos e lógicos necessários à refutação]. Assim se esse enraizamento é já socrático-platônico, sua
consistência não se deriva do mesmo modo.
Pois para o cristianismo a
questão importante é negar que verdade seja apenas uma via da razão ou que a felicidade seja apenas correlato do princípio que ensina o sábio, como o prazer do epicurismo ou dos cirenaicos. Ela o é
inicialmente da fé já que todo o sistema depende de uma verdade a ser aceita
por revelação. Aceita essa proposição única, fundamental e indemonstrável que é
Cristo tudo o mais recebe o juízo conforme o critério dessa aceitabilidade, na
ideologia da salvação. Mas não se trata de uma verdade lógica ou conveniente aos sentidos, não havendo
tampouco necessidade de se apontar esse fato ao modo de uma carência já que tão
fundamental é a aceitação daquilo que tem caráter de revelação quanto a
consciência desse ser assim do revelado. Deve-se crer porque é absurdo – se
fosse razoável não seria o caso de crença e sim de evidência.
Observe-se a questão proposta
anteriormente, sobre a separação das ideias e a introdução da descontinuidade
na Physis. Em Platão o que se destaca da natureza do mundo material é uma
realidade sagrada que tem a natureza dos deuses. Os seres divinos “nascendo uns
dos outros” compreendem a “verdadeira realidade” em relação à qual o mundano se
conserva como mera aparência. No entanto nessa hierarquia celeste subsiste algo
da unidade da Physis, da noção helênica de continuidade inerente à sua
concepção de natureza no sentido de realidade fundamental.
No cristianismo o que se formaliza
como posição oficial após o Concílio de Nicéa (325) é a adoção da trindade como
única realidade a que se pode atribuir ser Deus. Multiplica-se a argumentação
cristã contra a noção de hierarquia sagrada dos seres celestes. As objeções
tematizadas nos argumentos são por vezes bastante medíocres mas a que me parece
importante é a de Lactâncio. Criticando os estóicos, ele inverte o sentido da
asserção pela qual os astros são deuses por apresentarem o curso mais regular e
racional. Argumenta-se então que justamente Deus é aquele que tem poder para
agir como quiser, isto é, possui “vontade livre”. As manifestações de Deus tem
a ver assim com decisões imprevisíveis como a inspiração dos profetas ou o
enviar do Cristo.
Como se poderia compreender uma
mudança tão acentuada de mentalidade se a própria ordem racional , isto é,
regular, não basta mais para prover o caráter de divindade aos seres que a
apresentam? Aparentemente o fator de referência cultural poderia ser dado como
decisivo, da Grécia à Israel. Mas o cristianismo mesmo é uma mudança de
registro em relação à cultura de Israel pois é possível mostrar que os
evangelhos conservam já efeitos da mescla característica do cosmopolitismo
romano. Santo Agostinho, por exemplo, se utiliza da introdução do evangelho de
João reportando-se, senão à letra ao menos quanto ao espírito, a textos
platônicos de proveniência egípcia.
Deslocamento do âmbito da
evidência para o da revelação, identificação da supremacia espiritual com o
poder da vontade, são fatores que convergem na singularidade do cristianismo e
que podem ser relacionados à observação de Paul Ricoeur em “A Imagem de Deus e
a Epopeia Humana”. Ricoeur enfatiza aí a importância nova que o cristianismo
atribui ao elemento humano.
Examinando o texto de Ricoueur é
inevitável o reencontro daquele recurso retórico, a antítese, que irá ser
definitivamente tipificada no barroco, este atualizando-se como a última
fulguração da mentalidade cristã. Por mentalidade cristã denomino não apenas
adesão ao cristianismo a qualquer época mas sim o período específico de sua
dominação política. Mas a linguagem da antítese, prefigurando-se em Ricoeur através da
dialética do mal e da graça, é aí entrelaçada com o motivo do paradoxo.
O que assinalei como entrada na
mentalidade cristã, a transposição da evidência para a revelação, envolve agora
esse fator enfatizado por Ricoeur. Pois se na economia da criação o humano é o
fator de propulsão, aquilo que impele à evolução assegurada como promessa pela
segunda vinda de Cristo, o mal desempenha nessa economia, como também a graça, papel
constitutivo. Nenhum destes elementos antitéticos se tira ou acrescenta mas se
medem e se depuram como o processo de desenvolvimento da história.
O paradoxo será então aplicado
por Ricoeur como envolvido na natureza humana tal como visada no cristianismo.
Os padres da igreja concebiam o ser humano como ser, paradoxalmente, singular
coletivo. Reencontramos assim vários temas caros ao pensamento hermenêutico
tanto quanto ao pensamento retórico.
O período prevalente da
mentalidade cristã inicia-se com o paradoxo feudal, encerrando-se com a
antítese barroca. A relação da verdade com o desvelar e com o revelar e a
apreensão do humano na partição do coletivo, que confere a força das
comunidades do cristianismo nascente, também encontram de certo modo seu termo
na emergência da reforma, pela qual o círculo do ser-com se resolve na linha
reta do “eu” no liberalismo após ter se configurado na espiral barroca. Com
efeito poder-se-ia propor que a espiral figura o movimento antitético mesmo pois
a cada volver circular ao ponto mais inferior do círculo se contrapõe o ponto
superior como a multiplicação infinita de pares de opostos do cristianismo,
trevas e luz, mal e graça, inocência e pecado, bem e mal, sagrado e mundano,
inferno e céu, etc.
A antítese barroca prepara de
certo modo o individualismo liberal ao propor nessa relação antitética de
oposição o que só poderia constituir a força da religião nascente no elemento
relacionante do paradoxo. O “eu” do capitalismo avançado é assim a solução da antítese
barroca pela prevalência, como linha reta ou via única, desse pólo subjetivo no
desenvolvimento da historicidade conceitual alimentado pela ética protestante, aqui utilizando-nos da temática de Weber, em que a graça se torna vocação terrenado indivíduo ao lucro na legalidade. Mas na origem, com Santo Agostinho, ela era a fuga do mundo corrupto pela pessoa na igreja - antes dos monastérios, em comunidades seletas de crentes geralmente fora da cidade, como a do próprio Santo Agostinho evocada no "contra os acadêmicos".
Mas o importante na construção enunciativa do cristianismo é que no momento que examinamos agora o manejo do paradoxo se faz coextensivo ao
acesso hermenêutico-retórico na medida em que o desvelar é o receber da
escritura, e o revelar é o descobrir de sua verdade, geralmente descrito como
experiência de iluminação espiritual de que provem o aceitar.
Logo a compreensão se instala
desde o início no âmbito da palavra, dependendo dessa relação constitutiva com
a linguagem pela qual o absurdo é repentinamente compreensível, isto é,
aceitável. A comunidade cristã primitiva relança assim algo da participação
total da pólis dos sofistas pois o ser singular coletivo, desenvolvendo-se como
auto-compreensão do humano, o dota com força de inserção social considerada
essencial, não produto de uma pertença contingente ou derivada, particular a um
grupo, classe ou etnia.
Mas nada mais afastado do modo de
aglutinação dessas comunidades do que a autonomia do cidadão do século V, ele
mesmo encarregado de seu mundo e de suas instituições. Se o cristianismo
recolhe as conseqüências da reversão retórica pela qual não há objeto primeiro
mas acordo provisório acerca da realidade, ele não o faz sem recolher também a
transposição platônica pela qual esse acordo não se produz pelos homens nem
deve ser impermanente mas se impõe pelo eidos, a realidade não sendo nem
consensual nem objetual mas ideal, modelar.
Contudo no platonismo essa
eternidade é eminentemente espiritual, identidade a si do conceito imutável. A
assimilação cristã por sua vez precisa transpor o caráter modelar do eterno
como expressão de uma vontade ao modo de uma subjetividade, aquela que cria o
universo consoante a fórmula de Feuerbach pela qual o cume do princípio de
subjetividade é a criação ex nihilo.
Assim o obedecer que se torna “regra
de vida” vem a ser o correspondente dessa subjetividade absoluta como fator de
aglutinação das comunidades do cristianismo antigo. Penso que se pode
desenvolver esse problema da transposição do conceito ao plano de
subjetividade feudal através do exame dos temas de continuidade entre Plotino e
Santo Agostinho.
A influência do neoplatonismo
sobre o pensamento de Santo Agostinho, que se desenvolve entre os séculos IV e
V, é ela mesma uma questão. Trata-se de antepor as teses de sua negação ou
efetividade. Bréhier, por exemplo, tende para a negação, considerando que,
apesar de sua simpatia por eles, Santo Agostinho se afasta bastante do
platonismo assim como da espiritualidade de Plotino. Contudo, creio que não se
pode ignorar a interlocução inegável ainda que o que se utiliza dessas fontes
não se aplique de modo algum nas mesmas condições, já se tendo até proposto ser
Agostinho o pensador pioneiro da modernidade.
Com efeito, se bem que
sintomático, não creio que se possa afirmar isso de todo uma vez que a
consistência feudal conserva-se bastante específica, há certamente o fato de
uma novidade real em relação ao pensamento antigo, já estabelecido nesse
elemento de voluntariedade e subjetividade.
Quanto às teses de identificação,
costumam incidir, por exemplo, sobre a doutrina da alma, a assimilação da
trindade cristã às três hipóstases neoplatônicas, a teoria do conhecimento por
iluminação, a concepção de tempo, e inúmeras figuras de discurso platônicas que
povoam os textos agostinianos. Limitando-me ao exame da interlocução entre
esses pensadores, contudo, torna-se favorecida a visibilidade daquela refração
que procuro localizar.
Assim, quanto à natureza da alma,
Plotino insere a sua compreensão no que seria a doutrina platônica sobre a
gênese do universo. Há uma existência não passível de predicação ou nomeação,ou
seja, a ela nada pode ser atribuído como uma qualidade nem dado como uma
designação. É algo originário, de que tudo o mais se deriva. Pode no entanto
ser concebida ao modo de hipóstase, termo que designa, conforme Bréhier, algo
existente independente de determinação. A hipóstase originária é assim o Uno ou
o Bem, não chegando a ser substância, isto é, sujeito de determinação por
atribuição positiva.
A hipóstase originária emana uma
outra hipóstase designada Ser ou Essência, Inteligência ou Mundo Inteligível.
Essa também emana uma outra hipóstase, que é a Alma. Entre as hipóteses o
percurso é do mais ao menos luminoso, sendo a origem comparada ao sol como pura
luz.
Após a alma encontra-se o mundo
sensível, “extremo desvanecimento” do alcance da luz que não se identifica,
porém, com a matéria considerada como sem qualidades, princípio de
indeterminação, espelho no qual a alma reflete as formas inteligíveis. Quarta hipóstase, o mundo
sensível depende desse espelhar para ser constituído mas a realidade mesma não
se confunde com ele pertencendo apenas à Essência, ao Ser e ao Bem de que
deriva. A doutrina de Plotino concentra-se na ascenção às realidades supremas,
supondo uma ascese que vai do controle das paixões no plano físico ao êxtase do
contato intelectual com a luz do Bem que supera até mesmo o estágio de
atividade do pensamento discursivo.
A alma se descreve assim como “imagem”
que “precisa olhar para o seu original”, sendo este o “Princípio Intelectual”.
Ou seja, a hipóstase Alma se espelha na hipóstase Inteligência de modo que
desse modo pode informar a matéria organizando-a pois a Alma se estende por
todo o corpo em que ela habita, enquanto que a Inteligência contempla o Bem.
Contemplando o inteligível a alma organiza o sensível. O que se poderia supor
então é que se trata da mesma submissão da alma cristã a Deus.
Oposto ao processo de emanação do
Uno ao múltiplo – o movimento de ir, ou processão, proodos – há o
processo de conversão do múltiplo ao Uno – o movimento de vir, epistrophé
. Em Plotino as almas singulares estão contidas na alma do universo, cada
ser humano é uma ideia ou ente inteligível, espiritual e eterno. Mas pode-se
considerar a alma tanto sob esse aspecto de reflexo da ideia quanto de
princípio que vivifica o corpo. O objetivo da ascese intelectual será assim
desfazer a identificação que se tem com o aspecto de relação corpórea da alma,
isto é, com aquilo que dela se poderia derivar algo como a subjetividade, para
reconduzi-la à lembrança de sua origem sagrada.
Já em Santo Agostinho a relação
da alma é com o criador, subsistindo sempre uma diferença de natureza entre
criador e criaturas. Algo paradoxal incide nessa relação, pois a submissão da
vontade a Deus é emancipadora da noção mesma de vontade no ser humano, isto é,
do visar a existência como subjetividade já que a consciência dessa relação
enquanto decisão pessoal torna-se fundamental na economia da salvação. Trata-se
de uma revolução o “pensamento de si” de Agostinho, conexo à sua teoria do
conhecimento. Para apreender o que se desenvolve aí é preciso confronta-lo com
o análogo plotiniano.
Ocorre que a alma em Santo Agostinho
realmente conserva a flexão platônica dos elementos anímico e corporal. Sendo
assim a alma tem acesso a sensações provindas do corpo, as quais possuem o
caráter de instabilidade, não podendo o que vem dos sentidos fornecer algo como
conhecimento. Ms a alma pode, sim, conhecer, e o que ela conhece são princípios
imutáveis como os da matemática e aqueles que Agostinho propõe como sendo os da
ética. O conhecimento é facultado à alma porque ela recebe a luz que vem
incessantemente de Deus, possibilitando o processo de produção das ideias que
ela forma.
Analogamente ao platonismo, e à
doutrina da reminiscência, a alma possui o conhecimento previamente à
experiência dos sentidos. Mas se em Platão “previamente” significa numa outra
existência, em Santo Agostinho esse termo significa apenas “independentemente”.
A iluminação que vem de Deus age em relação à ideia de modo semelhante à luz do
sol em relação às coisas, permitindo que sejam vistas.
Em Platão a visibilidade vai da
alma à ideia mesma, ao inteligível ou essência enquanto ato de reminiscência.
Mas a ideia lembrada pela alma conserva-se existencialmente independente desta.
Quanto a isso ocorre em Plotino um certo afastamento do platonismo original e
uma influência de Aristóteles. A segunda hipóstase, equivalendo à esência e à
inteligência, reúne o que no platonismo permanecia separado, isto é, o
inteligível e a inteligência, o conhecido e o cognoscente. O pensamento de si é
à hipóstase Inteligência a garantia formal de sua própria existência, mas também
a garantia da certeza quanto ao seu próprio conteúdo enquanto conhecimento.
Santo Agostinho institui o
pensamento de si da alma também como certeza de existência na via da negação do
ceticismo radical. Mas sem que isso de modo algum conduza à certeza quanto ao
conteúdo. Inversamente é o fato mesmo de se poder estar errado que garante o
fato de se estar existindo. E apesar da instabilidade de todas as aparências
sensíveis o te-las não pode ser negado a sério. [ Na verdade essa refutação dita do ceticismo apenas ignora que a mesma afirmação da certeza inegável restrita ao pathos ou sensação é feita por Sexto Empírico ao modo de dogma da escola cética, isto é, pirrônica. A epocké ou suspensão do juízo possível também não pode portar sobre conteúdos da experiência prática, apenas sobre dogmas teóricos propostos sem meios de comprovação. É importante ater-se ao título da obra de Santo Agostinho, pois a negação radical do saber ao invés da epocké, e portando sobre os dados dos sentidos, não ocorre na escola cética de Pirro, mas somente na escola "acadêmica" que foi fundada por Platão, mas já sob as direções de Carnéades e Arcesilaus. Sexto mesmo negava que a escola cética tivesse a mesma posição que a dos "acadêmicos" ]. Assim como assinalou Bréhier o
conhecimento de si enquanto alma em Santo Agostinho é autoconhecimento, em Plotino é
conhecimento da essência inteligível das coisas.
Esse plano de subjetividade a que
o cristianismo transpõe aquilo que ele prolonga da filosofia antiga não
manifesta tampouco as características da subjetividade moderna, a meu ver. Ele
já se afirma no âmbito da vontade pessoal, é verdade, mas de modo algum se
poderia por exemplo fazer convergir aqui o homem-metron de Protágoras ou algo
que pudesse rotular-se como o moderno subjetivismo que se interpõe como teoria do sujeito . Ora a própria inserção da sofística
na Pólis também não permite uma identificação dessa proposição com o princípio
ideológico moderno de “eu”, o que evidencia o fato de que não se deve igualar
esses aportes apenas sob a rubrica geral de “humanismo” ou “subjetivismo”. A
consistência medieval traz justamente o subjetivo sem com isso acarretar a individualidade do "pensamento" e os problemas que acarreta
Contudo a doutrina da alma em Plotino opera nessa transposição de modo algo complexo pois a doutrina da alma apresenta ainda uma nova autonomia em relação ao platonismo. Isso se pode mostrar através da sua conceituação do tempo.
Contudo a doutrina da alma em Plotino opera nessa transposição de modo algo complexo pois a doutrina da alma apresenta ainda uma nova autonomia em relação ao platonismo. Isso se pode mostrar através da sua conceituação do tempo.
IV – Plotino e a Fenomenologia da temporalização
O exame da teoria do tempo em
Plotino permitirá que se localize precisamente a ultrapassagem da ontologia
grega clássica, a partir de quê tem início a formação daquilo que Backtin, na
observação de Eric Alliez, “não hesita em chamar de tomada de consciência do homem
europeu”. Com isso a interlocução do plotinismo com o pensamento de Santo
Agostinho deverá favorecer também localizar o ponto de refração no
prolongamento, pois já se atribuiu a este último o epíteto de “pai da
consciência ocidental”.
Trata-se então aqui de dois
movimentos contíguos, ou melhor, de dois movimentos na continuidade do mesmo
gesto de compreensão. Inicialmente localiza-se a grande ruptura entre platonismo e plotinismo como nódulo central da ultrapassagem histórica do mundo
clássico antigo. Após o que deve-se buscar na transvaloração cristã a natureza precisa
da relação entre os mundos tardo-antigo e feudal através da apreciação do alcance
dessa ruptura no pensamento agostiniano.
Conforme o estudo de R. Brague, citado por Alliez no volume I de Tempos Capitais, no Timeu o tempo permite ao céu ser a imagem da eternidade, o que erradamente tem sido simplificado como se fosse o tempo mesmo a imitação do eterno. A relação que se oculta nesse erro é a do processo que engendra o tempo com a Alma do Mundo.
Pois se o tempo é a regulação numérica do movimento do céu, este número corresponde à estrutura da Alma do Mundo. O tema da imagem no platonismo original desenvolve-se no âmbito da cosmologia estabelecendo o tempo na ordenação do mesmo que se reproduz na forma circular do céu. Mas o helenismo altera essa sensibilidade votada ao mesmo cósmico, transpondo os temas da imagem para o âmbito da antropologia e da psicologia.
Com Plotino o processo que engendra o tempo evolui na relação não mais com a Alma do mundo e sim com a alma do ser humano. Ao invés do tempo-medida há o tempo-intenso que é concebido como temporalização.
O tempo se instaura na convergência da clareação dessa ruptura, que é tão significativa a ponto de se chegar a propor que o neoplatonismo é na verdade um pseudoplatonismo e até mesmo neo ou pseudoaristotelismo.
Vimos como Platão pensava o Limite como determinação do Ilimitado. Vimos também como a relação restava problemática pois o Limitante não se determinava como limite por uma necessidade em si mesma. Naquela ocasião o problema surgiu no exame do Timeu onde se encontrou o impensável do platonismo na conceituação da Khôra. Mas como observa Aubenque, em sua análise do neoplatonismo na História da Filosofia de Châtelet, o platonismo exibe ainda um impensado – o “não-dizível” conforme a expressão do próprio Platão na Carta VII.
O limite será então concebido como o Uno, o limitante atualizando-se a cada vez como a relação precisa de determinação sobre o ilimitado. Surge assim o conceito de Uno por oposição à díada indefinida do grande e do pequeno. Mas, Platão se pergunta no momento mesmo de se debruçar sobre o que permaneceu impensado na instituição do Limite, como dotar o Uno de sua própria autonomia, como conceituar sua atividade limitante?
Platão deixou a questão se resolver por uma espécie de sobredeterminação dos princípios antagônicos mas na realidade profundamente relacionados. O uno precisa se desdobrar sobre a ação do seu inverso que é o múltiplo, o par de opostos, mas assim ele determina e domina cada momento da dualidade.
Plotino retomará a questão nesse ponto, indagando: qual é a origem desse precisar, que é que faz o Uno engendrar se aquilo que é perfeito não tem necessidade de sair de si, bastando-lhe ser o que é? Mas a essa pergunta (En. III, 2) sobrepõe-se a consideração (En. V, 4) de que tudo o que atinge o ponto de perfeição não suporta permanecer em si mesmo e engendra.
A contradição permanece aparente, pois o que está subjacente é a natureza mesma do Uno. Ora, a reversão da metafísica principia justamente pelo fato de que o Uno agora, com Plotino, não mais se confunde com o Princípio-Intelectual e este, como já constatamos, envolve a esfera do Ser, o pensamento de si implicando a coincidência absoluta de inteligível e inteligência. Logo, o Uno não é ser. Assim a contradição deriva do uso impróprio dos nomes que devém da necessidade paradoxal de se falar daquilo que não tem a natureza do atribuível. Produzir ou engendrar são aqui utilizados ao modo de metáforas.
Mas deve-se compreender bem de que modo o Uno não é ser ou qual ser o Uno não pode ser. Se não nomeável o Uno não pode identificar-se a nenhum ente.
Heidegger localizava precisamente como a pertença metafísica do pensamento a identificação do Ser com o ente como presença constante de que é preciso fazer esquivar o elemento cambiável do devir para alcançar, enquanto essência, eidos ou ideia.
Quanto a isso, ainda que a união existencial possa vir a ser designada como verdadeiro objeto da ontologia aristotélica, ela permanece na compreensão do ser como presença. Pois o ser que se pode declinar em vários sentidos é aquele sujeito da atribuição categorial sempre movimentando-se na pressuposição da essência. E quanto à essência enquanto ser inteligível, situa-se na eternidade, não tendo relação com o tempo. Contudo, talvez se devesse atribuir a designação de “onto-teologia” apenas àquilo que o retrogradar do termo “metafísica”, oriundo do contexto aristotélico, designa em Platão. “Ontologia” seria bem mais próprio à “ciência do ser enquanto ser” no âmbito do aristotelismo estrito pois ainda que pensamento da essência, preserva-se no elemento do devir.
Mas conforme sublinha Aubenque, em Aristóteles e Platão a eternidade é concebida através da intuição do tempo enquanto presente constante, permanência imutável do presente. O ser inteligível, essência, na realidade o ente verdadeiro, surge como a causa daquilo que há de permanente na mudança.
Assim o tempo é da ordem do sensível de modo que sua teorização depende mais do modo como se o apreende “empiricamente”, isto é, no plano gnosiológico, ao invés de propriamente ontológico, uma vez que pode ser pensado apenas pela exterioridade do processo, todo ele relativo ao movimento.
O que está em jogo pode ser bem visualizado através da comparação entre a teoria aristotélica, pela qual se institui o “tempo da física”, concebido como mensuração do movimento extensivo, e a teoria oriunda do plotinismo, pela qual se introduz o tempo pensado na relação com o movimento intensivo, isto é, o tempo anímico. Torna-se inevitável aqui uma aproximação com Bergson.
A crítica de Bergson à noção de tempo utilizado na física é precisamente o fato de que não se trata aí de algo que se compreenda em si mesmo, mas apenas enquanto dado na relação constitutiva com o espaço, sempre conservando-se assim como o conceito ambíguo de “tempo espacializado”.
O tempo é definido como intervalo do movimento, aquilo que o mede. Esse tempo-medida é relativo a um movimento que só pode, por sua vez, na física antiga, ser pensado na pressuposição daquilo para o que tende, sua finalidade (telos). Não pode assim haver movimento no instante, que se define como sua suspensão. A mudança que o movimento introduz só se compreende na totalidade do que nela se cumpre.
Vemos então que a teoria do tempo da física prende-se a uma análise dos movimentos regulares do céu que é aquilo de que o tempo deriva. Mas a teoria aristotélica faz intervir as noções complementares de número numerante e número numerado. Conforme Brhéhier, Aristóteles afirma que pensar o tempo conforme a medida numerante– a unidade que usamos para mensura-lo, isto é, o dia e seus submúltiplos – não é exato. Pois o tempo é aquilo que se conta em cada movimento, qualquer que seja, enquanto duração, o número numerado. Cada movimento possui sua duração definida como seu número conforme o antes e o depois.
O instante, sempre identificado com o presente do agora, fim do passado e princípio do futuro, é o que permite que possamos contar o anterior e o posterior adotando como meio de contagem as revoluções celestes, assim como para a mensuração da altura pode-se utilizar o côvado. Mas como a altura está na própria coisa, assim também o tempo.
Já a crítica de Plotino amplia a de Bergson pois ele começa por mostrar que esse tempo-movimento, mesmo com a ressalva aristotélica, continua sendo pensado pela exterioridade, podendo sê-lo, é verdade, mas assim conservando-se como derivado. É a noção mesma de movimento que Plotino visa aí, pois ao invés de pensa-la teleologicamente ele antecipa o tempo bergsoniano e, ao menos quanto a isso, o da física moderna. Assim o movimento é ato que recomeça a cada instante, isto é, alteridade incessante. Na hipótese de uma realidade absolutamente sem mudança, a alma continuaria a mensurar o repouso.
O tempo intenso é aquele imanente à alma. Em sua atividade de espelhamento material a alma temporaliza, ou melhor, a alma se temporaliza organizando o sensível. Tempo de Narciso, já que o espelhamento – organização é paradoxalmente voltado ao mesmo e ao outro. Ao mesmo enquanto a alma organiza contemplando o mesmo inteligível no qual ela mesma é enquanto dele procede. Ao outro pois o que se espelha é o mundo sensível, o outro especular que é matéria. Contudo é nesse outro que a alma se vê particularmente ela mesma, não apenas parte ou prolongamento do Todo. Como Narciso ela se deixa tragar pelo enfeitiçamento da matéria que lhe é inevitável, pois é aquilo mesmo que lhe permite ter-se como individualidade, subjetividade.
É a natureza da processão que é complexa, podendo ser designada como emanação, sim, mas sem que isso deixe de suscitar questões. Inicialmente há o tema da queda que individua cada alma como particular, privada. A individuação não se faz, para Plotino, como em Aristóteles, pela quantidade de matéria. Não é a matéria que individualiza cada alma que se separa do âmbito maior da Alma hipóstase. A matéria surge como efeito sensível dessa separação pois a alma irradia ou emana o seu duplo corporal ao se lançar no movimento da processão.
Já desde o início a organização universal se supõe como Alma hipóstase, que cada alma individual, como ideia de indivíduo, vem a exprimir. Reencontra-se essa concepção em Spinoza. Todas as almas são a Alma hipostasiada, união-articulação da organização do mundo. Mas se conservando sua diferença no interior desse todo, elas não podem se dividir enquando aí delimitadas. É só quando presas do movimento intensivo no rumo descendente da matéria que a alma se envolve com a atividade puramente subjetiva do espelhamento de si no corpo que vem a animar.
As diferenças intrínsecas, virtuais, o signo da multiplicidade imanente ao universal, que se conjugam plenamente na hipóstase, torna-se oposição, separação subjetiva no atual, entre almas individuais que são agora pessoas, sujeitos de paixões e afetos. A alma hipóstase seria, conforme a utilização por Plotino da conceituação de Aristóteles, o gênero de que as almas individuais seriam as espécies. O tempo decorre então do movimento ou tendência da alma rumo ao sensível, é a vida da alma.
Heautem ekhronosen – essa expressão nova que Plotino se vê obrigado a introduzir para designar esse conceito de tempo traduzindo-se precisamente por temporalização (En. III, 7). A novidade aqui é de grande importância pois o que se introduz é o “sistema de formação da subjetividade irredutível aos elementos constitutivos do sujeito moral”, conforme a expressão de Alliez. Parakoulouthesis, termo com que Plotino inaugura na filosofia a noção de “consciência”. O tempo se autoconstitui como encadeamento temporal do sujeito que é sujeito de vontade. Paradoxalmente essa vontade é o signo mesmo de sua queda, de seu afastamento do modelo inteligível, mas também do seu reencontro com “algo da livre expansão do uno” que é puro ato.
“A fonte da liberdade da alma”, conforme frisa Aubenque, está assim “num plano mais elevado do que o da inteligência”. Aqui precisamente se localiza a ultrapassagem histórica da ontologia grega clássica. O homem interior, eis em que as três realidades, o Uno, o Ser e a Alma, são como suas partes, já desde que há absoluta identidade entre o visto e o que vê, a inteligência e o inteligível. Essa identidade, só na alma individual encontra a conseqüência real enquanto pensamento do humano – “tudo existe na alma e a alma existe em tudo”, conforme sublinha Alliez.
Trata-se de real afastamento de Plotino em relação a Platão pois se o humano se põe como elo natural estabelecido na hierarquia das hipóstases a posição da alma é única, mais eminente de certo modo, pois se saber é ser, a atividade cognitiva é transformação ontológica– restando que o paradoxo da processão se contorna pela obra não menos anímica de conversão e pela experiência do êxtase em que a alma se vê ela mesma como Uno.
Aubenque ressalta que a temporalização é descrita fenomenologicamente de modo pioneiro por Plotino pois trata-se do movimento “pelo qual a alma se reconquista” sempre novamente por sobre a dispersão que é inquietude. A agitação que traduz a sua tendência para o outro-corpo-espelho-matéria, rompendo o círculo do mesmo pela inquietude do instante, corresponde à irrupção no tempo do sujeito fenomenal.
Temporalizando-se o sujeito se recupera na linha reta do tempo orientada pelo futuro. O uno-todo se torna progesso, unificando-se sempre o devir pelo que está por vir, mas também autounificando-se a linha quebrada da subjetivação num sujeito de vontade. O destacamento do todo, o isolamento do princípio, a queda, são figuras da fenda constitutiva da subjetividade como separação-pertença à origem. Temporalizando-se, isto é, constituindo-se no tempo flechado, irreversivelmente orientado pelo futuro, no envolvimento de seus afazeres, na vontade que se envolve nas tarefas da vida, o sujeito se autocompreende agora como vontade mesma de heteronomia em relação ao todo – isso que é a audácia (tolma) da alma inaugurando o tempo pelo fracionamento do Aion, eternidade, de onde surge Cronos, o tempo-ação subjetivo.
Em Plotino a eternidade não se confunde com o Uno – ela é vida da inteligência assim como o tempo é vida da alma. O Uno permanece sem portar nenhuma atribuição. Mas essa negatividade não se concebe ao modo de privação. Inaugura-se também a positividade, na filosofia, dos conceitos de infinito e de negação, esta vindo conceituar a irredutibilidade do Uno à natureza do ser dos entes.
O pensamento de Plotino insere-se com toda coerência no período religioso em que à Pólis participativa substituem-se as cidades burocratizadas das monarquias helenísticas e de Roma. Trata-se da experiência pioneira da solidão urbana, em que a consciência de si se recolhe no particular, evoluindo no vácuo do político na acepção do democrático. A arte do período se lança na aventura da expressão do sentimento, à forma atlética do clássico vindo contrapor a forma ascética do helenismo. Contra o estabelecimento da arte no elemento do sensível, como imitação, Plotino a pensa, no tratado Sobre o Belo, como desvelamento da essência, mais fundamentalmente do que toda manifestação sensível. Como sublinha Aubenque, se o ente dissimula o ser, a obra de arte o desvela.
Exemplar quanto a isso é a análise de Bakhtin do romance assim chamado “grego” ou “sofista”, isto é, dos século II a VI, dentre os quais ele enumera A Novela Etíope de Heliodoro, Leucipes e Clitofonte de Aquiles Tatius, Chereas e Callirhoé de Chariton, As Efesíacas de Xenofonte, Dafnes e Chloé de Longus. Na observação de Alliez, o cronotopo do limiar constitui agora tanto o romance grego quanto a própria filosofia neoplatônica. Por "cronotopo" Bakhtin conceituou o que seria o elemento espacio-temporal do texto literário, propondo vários tipos de ambientação temporalizante, dentre os quais o do limiar vem a ser o que insere narrativas que focalizam alguma transformação iminente e decisiva do destino.
Conforme o estudo de R. Brague, citado por Alliez no volume I de Tempos Capitais, no Timeu o tempo permite ao céu ser a imagem da eternidade, o que erradamente tem sido simplificado como se fosse o tempo mesmo a imitação do eterno. A relação que se oculta nesse erro é a do processo que engendra o tempo com a Alma do Mundo.
Pois se o tempo é a regulação numérica do movimento do céu, este número corresponde à estrutura da Alma do Mundo. O tema da imagem no platonismo original desenvolve-se no âmbito da cosmologia estabelecendo o tempo na ordenação do mesmo que se reproduz na forma circular do céu. Mas o helenismo altera essa sensibilidade votada ao mesmo cósmico, transpondo os temas da imagem para o âmbito da antropologia e da psicologia.
Com Plotino o processo que engendra o tempo evolui na relação não mais com a Alma do mundo e sim com a alma do ser humano. Ao invés do tempo-medida há o tempo-intenso que é concebido como temporalização.
O tempo se instaura na convergência da clareação dessa ruptura, que é tão significativa a ponto de se chegar a propor que o neoplatonismo é na verdade um pseudoplatonismo e até mesmo neo ou pseudoaristotelismo.
Vimos como Platão pensava o Limite como determinação do Ilimitado. Vimos também como a relação restava problemática pois o Limitante não se determinava como limite por uma necessidade em si mesma. Naquela ocasião o problema surgiu no exame do Timeu onde se encontrou o impensável do platonismo na conceituação da Khôra. Mas como observa Aubenque, em sua análise do neoplatonismo na História da Filosofia de Châtelet, o platonismo exibe ainda um impensado – o “não-dizível” conforme a expressão do próprio Platão na Carta VII.
O limite será então concebido como o Uno, o limitante atualizando-se a cada vez como a relação precisa de determinação sobre o ilimitado. Surge assim o conceito de Uno por oposição à díada indefinida do grande e do pequeno. Mas, Platão se pergunta no momento mesmo de se debruçar sobre o que permaneceu impensado na instituição do Limite, como dotar o Uno de sua própria autonomia, como conceituar sua atividade limitante?
Platão deixou a questão se resolver por uma espécie de sobredeterminação dos princípios antagônicos mas na realidade profundamente relacionados. O uno precisa se desdobrar sobre a ação do seu inverso que é o múltiplo, o par de opostos, mas assim ele determina e domina cada momento da dualidade.
Plotino retomará a questão nesse ponto, indagando: qual é a origem desse precisar, que é que faz o Uno engendrar se aquilo que é perfeito não tem necessidade de sair de si, bastando-lhe ser o que é? Mas a essa pergunta (En. III, 2) sobrepõe-se a consideração (En. V, 4) de que tudo o que atinge o ponto de perfeição não suporta permanecer em si mesmo e engendra.
A contradição permanece aparente, pois o que está subjacente é a natureza mesma do Uno. Ora, a reversão da metafísica principia justamente pelo fato de que o Uno agora, com Plotino, não mais se confunde com o Princípio-Intelectual e este, como já constatamos, envolve a esfera do Ser, o pensamento de si implicando a coincidência absoluta de inteligível e inteligência. Logo, o Uno não é ser. Assim a contradição deriva do uso impróprio dos nomes que devém da necessidade paradoxal de se falar daquilo que não tem a natureza do atribuível. Produzir ou engendrar são aqui utilizados ao modo de metáforas.
Mas deve-se compreender bem de que modo o Uno não é ser ou qual ser o Uno não pode ser. Se não nomeável o Uno não pode identificar-se a nenhum ente.
Heidegger localizava precisamente como a pertença metafísica do pensamento a identificação do Ser com o ente como presença constante de que é preciso fazer esquivar o elemento cambiável do devir para alcançar, enquanto essência, eidos ou ideia.
Quanto a isso, ainda que a união existencial possa vir a ser designada como verdadeiro objeto da ontologia aristotélica, ela permanece na compreensão do ser como presença. Pois o ser que se pode declinar em vários sentidos é aquele sujeito da atribuição categorial sempre movimentando-se na pressuposição da essência. E quanto à essência enquanto ser inteligível, situa-se na eternidade, não tendo relação com o tempo. Contudo, talvez se devesse atribuir a designação de “onto-teologia” apenas àquilo que o retrogradar do termo “metafísica”, oriundo do contexto aristotélico, designa em Platão. “Ontologia” seria bem mais próprio à “ciência do ser enquanto ser” no âmbito do aristotelismo estrito pois ainda que pensamento da essência, preserva-se no elemento do devir.
Mas conforme sublinha Aubenque, em Aristóteles e Platão a eternidade é concebida através da intuição do tempo enquanto presente constante, permanência imutável do presente. O ser inteligível, essência, na realidade o ente verdadeiro, surge como a causa daquilo que há de permanente na mudança.
Assim o tempo é da ordem do sensível de modo que sua teorização depende mais do modo como se o apreende “empiricamente”, isto é, no plano gnosiológico, ao invés de propriamente ontológico, uma vez que pode ser pensado apenas pela exterioridade do processo, todo ele relativo ao movimento.
O que está em jogo pode ser bem visualizado através da comparação entre a teoria aristotélica, pela qual se institui o “tempo da física”, concebido como mensuração do movimento extensivo, e a teoria oriunda do plotinismo, pela qual se introduz o tempo pensado na relação com o movimento intensivo, isto é, o tempo anímico. Torna-se inevitável aqui uma aproximação com Bergson.
A crítica de Bergson à noção de tempo utilizado na física é precisamente o fato de que não se trata aí de algo que se compreenda em si mesmo, mas apenas enquanto dado na relação constitutiva com o espaço, sempre conservando-se assim como o conceito ambíguo de “tempo espacializado”.
O tempo é definido como intervalo do movimento, aquilo que o mede. Esse tempo-medida é relativo a um movimento que só pode, por sua vez, na física antiga, ser pensado na pressuposição daquilo para o que tende, sua finalidade (telos). Não pode assim haver movimento no instante, que se define como sua suspensão. A mudança que o movimento introduz só se compreende na totalidade do que nela se cumpre.
Vemos então que a teoria do tempo da física prende-se a uma análise dos movimentos regulares do céu que é aquilo de que o tempo deriva. Mas a teoria aristotélica faz intervir as noções complementares de número numerante e número numerado. Conforme Brhéhier, Aristóteles afirma que pensar o tempo conforme a medida numerante– a unidade que usamos para mensura-lo, isto é, o dia e seus submúltiplos – não é exato. Pois o tempo é aquilo que se conta em cada movimento, qualquer que seja, enquanto duração, o número numerado. Cada movimento possui sua duração definida como seu número conforme o antes e o depois.
O instante, sempre identificado com o presente do agora, fim do passado e princípio do futuro, é o que permite que possamos contar o anterior e o posterior adotando como meio de contagem as revoluções celestes, assim como para a mensuração da altura pode-se utilizar o côvado. Mas como a altura está na própria coisa, assim também o tempo.
Já a crítica de Plotino amplia a de Bergson pois ele começa por mostrar que esse tempo-movimento, mesmo com a ressalva aristotélica, continua sendo pensado pela exterioridade, podendo sê-lo, é verdade, mas assim conservando-se como derivado. É a noção mesma de movimento que Plotino visa aí, pois ao invés de pensa-la teleologicamente ele antecipa o tempo bergsoniano e, ao menos quanto a isso, o da física moderna. Assim o movimento é ato que recomeça a cada instante, isto é, alteridade incessante. Na hipótese de uma realidade absolutamente sem mudança, a alma continuaria a mensurar o repouso.
O tempo intenso é aquele imanente à alma. Em sua atividade de espelhamento material a alma temporaliza, ou melhor, a alma se temporaliza organizando o sensível. Tempo de Narciso, já que o espelhamento – organização é paradoxalmente voltado ao mesmo e ao outro. Ao mesmo enquanto a alma organiza contemplando o mesmo inteligível no qual ela mesma é enquanto dele procede. Ao outro pois o que se espelha é o mundo sensível, o outro especular que é matéria. Contudo é nesse outro que a alma se vê particularmente ela mesma, não apenas parte ou prolongamento do Todo. Como Narciso ela se deixa tragar pelo enfeitiçamento da matéria que lhe é inevitável, pois é aquilo mesmo que lhe permite ter-se como individualidade, subjetividade.
É a natureza da processão que é complexa, podendo ser designada como emanação, sim, mas sem que isso deixe de suscitar questões. Inicialmente há o tema da queda que individua cada alma como particular, privada. A individuação não se faz, para Plotino, como em Aristóteles, pela quantidade de matéria. Não é a matéria que individualiza cada alma que se separa do âmbito maior da Alma hipóstase. A matéria surge como efeito sensível dessa separação pois a alma irradia ou emana o seu duplo corporal ao se lançar no movimento da processão.
Já desde o início a organização universal se supõe como Alma hipóstase, que cada alma individual, como ideia de indivíduo, vem a exprimir. Reencontra-se essa concepção em Spinoza. Todas as almas são a Alma hipostasiada, união-articulação da organização do mundo. Mas se conservando sua diferença no interior desse todo, elas não podem se dividir enquando aí delimitadas. É só quando presas do movimento intensivo no rumo descendente da matéria que a alma se envolve com a atividade puramente subjetiva do espelhamento de si no corpo que vem a animar.
As diferenças intrínsecas, virtuais, o signo da multiplicidade imanente ao universal, que se conjugam plenamente na hipóstase, torna-se oposição, separação subjetiva no atual, entre almas individuais que são agora pessoas, sujeitos de paixões e afetos. A alma hipóstase seria, conforme a utilização por Plotino da conceituação de Aristóteles, o gênero de que as almas individuais seriam as espécies. O tempo decorre então do movimento ou tendência da alma rumo ao sensível, é a vida da alma.
Heautem ekhronosen – essa expressão nova que Plotino se vê obrigado a introduzir para designar esse conceito de tempo traduzindo-se precisamente por temporalização (En. III, 7). A novidade aqui é de grande importância pois o que se introduz é o “sistema de formação da subjetividade irredutível aos elementos constitutivos do sujeito moral”, conforme a expressão de Alliez. Parakoulouthesis, termo com que Plotino inaugura na filosofia a noção de “consciência”. O tempo se autoconstitui como encadeamento temporal do sujeito que é sujeito de vontade. Paradoxalmente essa vontade é o signo mesmo de sua queda, de seu afastamento do modelo inteligível, mas também do seu reencontro com “algo da livre expansão do uno” que é puro ato.
“A fonte da liberdade da alma”, conforme frisa Aubenque, está assim “num plano mais elevado do que o da inteligência”. Aqui precisamente se localiza a ultrapassagem histórica da ontologia grega clássica. O homem interior, eis em que as três realidades, o Uno, o Ser e a Alma, são como suas partes, já desde que há absoluta identidade entre o visto e o que vê, a inteligência e o inteligível. Essa identidade, só na alma individual encontra a conseqüência real enquanto pensamento do humano – “tudo existe na alma e a alma existe em tudo”, conforme sublinha Alliez.
Trata-se de real afastamento de Plotino em relação a Platão pois se o humano se põe como elo natural estabelecido na hierarquia das hipóstases a posição da alma é única, mais eminente de certo modo, pois se saber é ser, a atividade cognitiva é transformação ontológica– restando que o paradoxo da processão se contorna pela obra não menos anímica de conversão e pela experiência do êxtase em que a alma se vê ela mesma como Uno.
Aubenque ressalta que a temporalização é descrita fenomenologicamente de modo pioneiro por Plotino pois trata-se do movimento “pelo qual a alma se reconquista” sempre novamente por sobre a dispersão que é inquietude. A agitação que traduz a sua tendência para o outro-corpo-espelho-matéria, rompendo o círculo do mesmo pela inquietude do instante, corresponde à irrupção no tempo do sujeito fenomenal.
Temporalizando-se o sujeito se recupera na linha reta do tempo orientada pelo futuro. O uno-todo se torna progesso, unificando-se sempre o devir pelo que está por vir, mas também autounificando-se a linha quebrada da subjetivação num sujeito de vontade. O destacamento do todo, o isolamento do princípio, a queda, são figuras da fenda constitutiva da subjetividade como separação-pertença à origem. Temporalizando-se, isto é, constituindo-se no tempo flechado, irreversivelmente orientado pelo futuro, no envolvimento de seus afazeres, na vontade que se envolve nas tarefas da vida, o sujeito se autocompreende agora como vontade mesma de heteronomia em relação ao todo – isso que é a audácia (tolma) da alma inaugurando o tempo pelo fracionamento do Aion, eternidade, de onde surge Cronos, o tempo-ação subjetivo.
Em Plotino a eternidade não se confunde com o Uno – ela é vida da inteligência assim como o tempo é vida da alma. O Uno permanece sem portar nenhuma atribuição. Mas essa negatividade não se concebe ao modo de privação. Inaugura-se também a positividade, na filosofia, dos conceitos de infinito e de negação, esta vindo conceituar a irredutibilidade do Uno à natureza do ser dos entes.
O pensamento de Plotino insere-se com toda coerência no período religioso em que à Pólis participativa substituem-se as cidades burocratizadas das monarquias helenísticas e de Roma. Trata-se da experiência pioneira da solidão urbana, em que a consciência de si se recolhe no particular, evoluindo no vácuo do político na acepção do democrático. A arte do período se lança na aventura da expressão do sentimento, à forma atlética do clássico vindo contrapor a forma ascética do helenismo. Contra o estabelecimento da arte no elemento do sensível, como imitação, Plotino a pensa, no tratado Sobre o Belo, como desvelamento da essência, mais fundamentalmente do que toda manifestação sensível. Como sublinha Aubenque, se o ente dissimula o ser, a obra de arte o desvela.
Exemplar quanto a isso é a análise de Bakhtin do romance assim chamado “grego” ou “sofista”, isto é, dos século II a VI, dentre os quais ele enumera A Novela Etíope de Heliodoro, Leucipes e Clitofonte de Aquiles Tatius, Chereas e Callirhoé de Chariton, As Efesíacas de Xenofonte, Dafnes e Chloé de Longus. Na observação de Alliez, o cronotopo do limiar constitui agora tanto o romance grego quanto a própria filosofia neoplatônica. Por "cronotopo" Bakhtin conceituou o que seria o elemento espacio-temporal do texto literário, propondo vários tipos de ambientação temporalizante, dentre os quais o do limiar vem a ser o que insere narrativas que focalizam alguma transformação iminente e decisiva do destino.
Vemos assim porém que o conceito backtiniano é expressamente relacionado à intuição do tempo de Einstein , e não o bergsoniano. Na verdade seria pertinente questionar a apropriação bergsoniana da ruptura do tempo anímico com relação ao tempo da física, uma vez que a vida da alma é movimento ou tendência ao sensível. Creio de fato que o próprio Bergson, ao conceituar o que considerava tempo puro com a figura do cone, o espacializava, sendo toda a figura geométrica espacial. Não creio possível pensar o tempo independente da intuição do espaço.
Bakhtin mesmo mostra que todos os
gêneros do clássico, os dramáticos e os retóricos do mesmo modo que os
narrativos como a epopeia, o romance histórico e geográfico, são remanejados
para que se introduza essa nova entidade romanesca que é o homem particular, o
indivíduo privado que age nesse mundo abstrato, estrangeiro, igualmente novo e
desconhecido, em que se desenrola o “tempo das aventuras” ou do acaso, isto é,
da intrusão das forças irracionais na vida humana.
Tempo e espaço são essencialmente
reduzidos às ações dos heróis no romance "grego", isto é, conforme a terminologia de Backtin, a narrativa de aventuras que emerge nesse período helenístico. O “movimento do homem no espaço”
é que fornece a unidade de mensuração espacio-temporal, isto é, o cronotopo. Ao
mundo estrangeiro corresponde o herói particular, o indivíduo isolado sem
qualquer laço substancial com a pátria, cidade, linhagem, grupo social ou
familiar. O centro organizador da imagem do homem no romance "grego" é apenas a
identidade consigo mesmo.
Contudo penso que não se tem
assim já o que se poderia identificar como o “eu” no sentido moderno do termo.
Seria o quase-indivíduo tardo-antigo o que emerge tanto no pensamento de
Plotino quanto na análise da obra literária. Pois é verdade que ocorre aí uma
subsversão do platonismo ainda que utilizando-se rebarbativamente as fórmulas
de Platão, operação que Alliez designa “dublagem”. O que se concede ao pensar é
agora o sujeito-alma e seu mundo, de modo que as categorias que aí se compõem
deixam de se instituir por modelagem matemática ou física, movendo-se novamente
no âmbito do humano.
Mas à diferança da retórica
sofística esse âmbito não precisa responder pela cidade ou fornecer o
embasamento de suas instituições. O homem não é pensado na constitutividade de
uma formação educatia (Paideia). Inversamente, agora trata-se de pensar a subjetividade que, como
heteronomia, se opõe não apenas ao princípio, no ímpeto do movimento de
processão, mas também a tudo o que diverge do seu próprio espelhamento
narcísico, isto é, propõ-se agora a experiência de irredutibilidade do sujeito.
Mas sempre se pode reestabelecer
o sentido original da voz platônica, ou mesmo, o plotinismo não abre ao pensar
o tempo existencial sem caracterizra-se por essa tensão entre as duas vias que o
estabilizam, o ir e o vir relativamente ao Princípio, daí o nele privilegiar-se
o tema da volta, a nostalgia da origem. Há dependência dessa origem na
constitutividade do sujeito.
Assim parece-me só haver
realmente “eu” no sentido moderno a partir de Kant pois aí toda a
constitutividade do mundo é já formalmente subjetiva, ainda que uma psicologia do sujeito só exista desde a emergência das ciências humanas, logo depois de Kant. Não há origem, nada a que
o pensamento se proponha como tema de um voltar, o sujeito é absoluto,
transcendentalmente garantido. E se o transcendental garante, a cada sujeito, a
sua própria posição, independentemente de algo pressuposto, isso que é comum a
todos como constituição de subjetividade é no entanto o mais particular a cada
pessoa. A liberdade se institui, é certo, no âmbito da moral, mas não se
constitui a pertença do mundo se não pela via especulativa, que responde à
indagação epistemológica mais fundamental de como é que se constitui a
experiência construída enquanto pensamento.
E como é que esse sujeito
absoluto se pôde postular na modernidade é uma questão por desenvolver. Por
ora, retornando à consideração do helenismo, constata-se que o neoplatonismo de
Porfírio, Jâmblico, Proclo e Damáscio, não conservam as mesmas soluções
conceituais de Plotino, ainda que movendo-se sobre o mesmo lote de problemas.
Utilizando algo do esquema
extremamente conciso de Aubenque, pode-se estabelecer os aportes subsequentes
do seguinte modo: alguns, como Jâmbico e Proclo, vão se deter nos mecanismos da
processão instituindo séries de intermediários, este último porém concedendo
uma preminência à negação como verdadeiramente originária e motor da afirmação
–e compreende-se assim o elogio de Hegel que o caracteriza como precursor da
dialética e do “trabalho do negativo”. Outros, como Porfírio e Damáscio, se
esforçam por ultrapassar o nível do Uno, Porfírio inaugurando a oposição de ser
infinitivo (ser somente ser –monon einai) e ente particípio,
enquanto Damáscio nega que se possa afirmar do Princípio que ele é Uno,
podendo-se apenas limitar a conceitua-lo como Inefável.
Damáscio, o último filósofo antigo, fecha o ciclo de toda a
filosofia - até a reorganização dos estudos na Idade Média, ou, como alguns compreenderiam mais, até o retorno do pensamento leigo com o Renascimento. Mas com essa base neoplatônica já estabelecida podemos agora
nos aproximar da teoria do tempo em Santo Agostinho.
V – Santo Agostinho: cristianismo e ocidentalização
Conceituar o Logos como uma pessoa (Cristo),
isto é o que Heidegger na Introdução à Metafísica vai mostrar como
essencialmente não-grego. Encontra-se aí também, de modo muito sucinto, a
relação dessa concepção cristã com a filosofia da religião elaborada por Fílon.
Logos, enquanto palavra, é
mediador – mesites – entre criador e criaturas. Na economia da criação que
Fílon enuncia a palavra é mesites porque encerra o mandamento, transmite as
ordens que a criatura tem que observar para de algum modo fazer preservar sua
relação com o criador. Na economia cristã da salvação o Logos é mesites porque
ele é relacionado a Cristo, o mensageiro ou enviado que transmite as novas
ordens, a "boa-nova" da salvação.
Mas observando o processo de
constituição feudal, e conforme o próprio Heidegger, a onto-teologia está se
configurando como a via de ocidentalização propriamente “metafísica” . E se o
plotinismo já foi considerado como movimento não de todo enraizado na
grecidade, mas dependendo de elementos oriundos do Oriente, a questão se torna
bastante complexa. Na verdade é um problema em que várias questões convergem.
Inicialmente a questão da
pertença grega do plotinismo, a seguir a relação do cristianismo com a
filosofia greco-latina, e como tudo isso converge no pensamento de Santo
Agostinho. A seguir a questão mesma do Ocidente.
Quanto ao plotinismo, creio que
se pode propor uma compreensão de sua realidade sincrética a partir da própria
pluralidade que se verificou na geofilosofia da Grécia. Em todo caso, o elemento de
contemplação, que Alliez sugere como o orientalismo de plotino, talvez pudesse
ser mais aproximado ao “pensar poetante” da ontologia fundamental, na expressão
de Heidegger, do que propriamente à onto-teologia platônica. Aqui então seria
bem o caso de inserir o afastamento da estética do plotinismo em relação à mera
pertença sensível que Platão reserva à arte.
Quanto à relação de cristianismo
e filosofia, nenhuma aproximação desse tipo poderia vir a se operar pois é na
transposição mesma de planos em relação ao Logos que se pode começar a propor a
vacuidade das discussões sobre a existência de um pensamento cristão. Esse
pensamento efetivamente se joga e se define como tal no momento mesmo de
anunciar-se como algo mais do que “pensamento” no sentido “grego-filosófico” do
termo.
Resta então perguntar sobre o que
há com a relação de pensamento cristão e o que se diferenciou daquela ontologia
fundamental, isto é, com Platão e a metafísica ou o pensamento da filosofia
helênica assim como o cristianismo a defrontou desde o início. Pois se o
cristianismo deriva de algo que é não-grego essencialmente, como é que nele se
encontra o sentido histórico da ocidentalização como via eleita na encruzilhada
de possibilidades que se constituem desde o helenismo?
Ocorre que aquilo que vem a ser
Ocidente [na pressuposição de sua unidade ] não somente se distingue conforme seus momentos propriamente
constitutivos como levanta ainda a indagação acerca desses momentos, como se
houvesse algum obstáculo em apreende-los simplesmente como estágios de algo já
sempre e intrinsecamente o mesmo.
Assim desde a
desterritorialização do feudalismo aqueu em relação à máquina despótica
oriental, abrangendo a operação de racionalidade conceitual que marca o
surgimento do jurídico na Pólis, o terceiro momento da feudalização tout court vai definir
como ocidental não mais grego ou racional e sim cristão. Há, contudo, desde a Pólis
à “cristandade do ocidente” que se singulariza em relação ao oriente árabe, a
partição da própria igreja conforme sua pertença geográfica local “ocidental” à
Roma ou às regiões exteriores “orientais” de Grécia, Antioquia, Bizâncio.
Sem deter-me nas questões
particulares que animaram a controvérsia de ortodoxia e heresias da
cristianismo ocidental e oriental, não concidindo de todo, importa observar como
a ocidentalização caminhou no seu sentido mais essencial [ao enunciado de si]: operação política na
Grécia primitiva, operação conceitual na Pólis Helênica, e agora no
cristianismo uma operação complexa que dobra o político e o conceitual ou, mais
propriamente, teológico.
Pois como assinala Bréhier, as
grandes controvérsias da ortodoxia com as heresias na patrística, isto é, desde
o início do cristianismo até a consolidação doutrinária no século V, estendendo
sua validade aproximadamente até o século X, importam mais à política
eclesiástica do que ao dogma no sentido de sua estrutura metafísica. Não se
trata, para o papado, de uma filosofia da natureza de Deus ou teologia por si
mesmo, mas apenas de assegurar através das fórmulas mais convenientes o poder
espiritual da igreja. É um problema político e jurídico, não propriamente
filosófico, que no entanto importa ao conceito.
Contudo aquilo que constitui esse
novo mundo ocidental cristão mantém uma relação inquebrantável com o processo
geral de ocidentalização [enunciativa], isto é, precisa de alguma forma integrar aqueles
momentos anteriores. Muito do problema da relação entre pensamento grego e
cristianismo nascente poderia se reduzir pela figuração da realidade histórica
do início da nossa era, em que nos cultos de seitas proeminentes como a dos
gnósticos adoravam-se imagens de deuses da religião grega, de filósofos e
esfígies de Jesus Cristo. E do mesmo modo aqueles que professavam o
cristianismo estrito eram frequentemente oriundos de escolas filosóficas,
havendo inserção de pagãos e cristãos no mesmo ambiente cultural, com uma
linguagem comum.
Pode-se então afirmar a dobra do
político pelo teológico– filosófico como constitutiva do cristianismo enquanto
regime de dominação eclesiástica. Mas a deriva propriamente conceitual aí só se
observa através daquela transposição de plano do Logos de modo que é uma
atitude inteiramente outra que se institui como exercício de pensamento no
interior do cristianismo.
Pode-se avaliar esse salto
comparando Atos, XVII com Coríntios, I,17. Aceita-se geralmente essa comparação
como uma mudança de atitude do apóstolo Paulo em relação ao pensamento grego
que estaria prefigurando aqueles dois modos que examinamos anteriormente, a
recusa e a aceitação estratégica do discurso filosófico. Não tendo sido bem
recebido, o apóstolo se torna hostil.
Mas penso que na realidade a
identidade da atitude espiritual paulina não só deve ser afirmada como é
solidária da atitude mais básica do cristianismo em relação ao seu fora. Isso
pode ser entrevisto pelo comentário, em Atos, sobre o sentido da atividade que
estava tendo lugar no Areópago: tratava-se de “passatempo”, isto é, de simples
e puerilmente trocar novidades.
Assim mesmo ali onde
aparentemente há uma atitude mais esclarecida a concepção básica não mantem nenhuma
comunidade com aquela que anima a filosofia. Nesse sentido a única matéria de
reflexão e verdade deriva da aceitação da pessoa do Cristo, de obedecer à ordem
do “verbo”. Essa opção básica define o ser humano e assim todo aquele que com
ela não se defrontou não pode ser considerado mais do que estando no exterior
do estatuto de seres adultos e responsáveis.
Como lidar, porém, com a
excelência da produção desses excluídos? Ora enunciando que se trata de um
furto – de Homero a Platão, conforme a apologética antiga, tudo é cópia das
escrituras dos judeus – ora utilizando contra eles os seus próprios produtos
conforme a fórmula de Damasceno.
Na evolução do feudalismo, com a
reforma de Alcuino no final do século VIII, essa posição de Damasceno evolui no
sentido de uma repartição de tarefas. A verdade , ou aquilo que é essencial,
pertence ao recebimento e aceitação da Mensagem. O que é mundano conserva o
sentido de sua utilidade prática e só assim deve ser acolhido. Instituem-se as
sete artes liberais, o Trivio (gramática, retórica e lógica) e o Quadrívio ( aritmética, geometria,
astronomia e música), sem prejuízo para as verdades da fé.
Mas se ao poder eclesiástico a
dobra do conceito só interessa politicamente, ela não deixa de marcar o próprio
percurso espiritual daqueles que se envolvem com a controvérsia anti-herética,
como é o caso de Santo Agostinho. Assiste-se assim nessa fase de consolidação
doutrinária que é a patrística uma verdadeira ruptura com o cristianismo
primitivo, conforme observou Alliez.
Santo Agostinho é o artífice
dessa ruptura na medida em que, desde uma doutrina da missão salvífica que
investe o iniciado na obrigação de transformar a lei do mundo e da carne pela
lei de Deus, todo o sentido do cristianismo agora se transpõe ao “ homem interior”.
Trata-se de evitar as possíveis interpretações das Escrituras capazes de
investir a Mensagem de uma autêntica força de transformação da exterioridade
social.
Mas como pensar esse “homem
interior”? Insere-se aí, por exemplo, o alcance do antepelagianismo
agostiniano. Pois Pelágio afirma, numa recuperação cristã da confiança estóica
na virtude, o poder da natureza humana em evitar o mal e fazer o bem, se assim
desejar.
Aparentemente o zelo de Santo
Agostinho em relação a essa controvérsia pode se explicar suficientemente pela
conseqüência que ela acarreta. Pois se Pelágio aporta a essa afirmação para
lutar contra os que querem se eximir de executar a lei de Deus sob a desculpa
da fraqueza da carne, o que se segue é a negação do pecado original. Deus não
poderia imputar a inocentes o pecado de um só homem, Adão.
Mas essa conseqüência seria tão
indesejável se ela não fizesse a força do humano independente dos meios da “graça”,
a saber, os sacramentos da Igreja? Santo Agostinho enuncia assim, contra tal “heresia”,
a sua doutrina da predestinação. O bem só pode vir à alma decaída por uma graça
especial que pertence apenas àqueles predestinados eternamente por Deus para
recebe-la. Até um recém-nascido, sem batismo, é um pecador, assim como todos os
pagãos ignorantes da graça do Cristo.
Conhece-se através de Palcal os
problemas que uma tal doutrina suscitará posteriormente. Aqui importa observar
que essa concepção se desenvolve com muita coerência na teorização do homem
interior que designa como a própria consciência da individuação a consciência
da diferença da criatura em relação ao criador.
Converge aqui aquela reintegração
do conceito, a plicatura do grego sobre o não-grego, problemática
característica a enfrentar na compreensão da consistência medieval. Pois como
não ver nessa ruptura com o cristianismo primitivo que assinala o cristianismo
imperial, em vias de se feudalizar como instituição política - na acepção do Poder - dominante, o
influxo do neoplatonismo já ele mesmo sobredeterminado em relação à filosofia
helênica?
O novo cristianismo agostiniano
emerge na auto-certeza do sujeito deslocando a cristã determinação anterior da
certeza da salvação. Fé como exercício da vontade, a certeza do sujeito sobre
si mesmo como possibilidade da certeza sobre Deus, a preminência da teologia
negativa já que essa realidade que é Deus não se deixa determinar por nada que
se restrinja meramente ao ser criado. O plotinismo permite como vimos,
efetivamente a mesma auto-certeza que deriva, algo dialeticamente, do
hipostasiar da alma em relação ao Todo.
E já a relação de contemplação
entre Alma e Ser faz intervir na própria realidade anímica a identidade do
conhecimento de si que pertence ao Inteligível. Como afirma Heidegger, o
neoplatonismo se constitui como estrutura profunda do cristianismo.
Mas o pensamento cristão vai
tender a dialetizar aquilo que em Plotino se desenvolve como movimento de ir e
vir constitutivo da economia do Universo. Pois entre os neoplatônicos os
momentos sucessivos que compreendem a via de multiplicação do Uno e a via de
reunificação do múltiplo são derivados de uma necessidade natural e eterna.
Assim o exemplo de Jean Scot Erigena, no século IX, que desenvolve um esquema “neoplatônico”
de divisões da Natureza: Deus princípio, Verbo, Mundo, Deus fim. O Deus
princípio é de onde tudo procede, o Deus fim para onde tudo tende como termo do
movimento das coisas que buscam a perfeição.
Como observa Bréhier, porém, esse
não seria um verdadeiro sistema de emanação e sim, propriamente, uma Teofania.
Deus pai, Verbo filho, sendo que em Deus ser e querer, natureza e vontade, são
o mesmo. Há desenvolvimento histórico e iniciativas aí onde o neoplatonismo só
via uma ordem eterna e imutável.
Quanto a Santo Agostinho, ainda
no processo inicial de redução cristã de todo elemento pagão, se encarregará de
dialetizar a relação alma-todo de modo que o mais característico do
cristianismo, derivando de sua concepção pessoal de Logos, será a Cisão de
criador e criatura. Cisão irredutível entre homem e Deus, dependência total do
homem em relação a Deus. Como afirmou Alliez, considerando o alcance da cesura
entre os sentidos neoplatônico e cristão do termo “conversão”, não se trata com
Santo Agostinho da ilusão do conhecimento do semelhante pelo semelhante mas sim
de “apreensão” entre princípios opostos que vão encontrar a síntese, como
reconciliação, em Cristo.
A oposição se relança
tematicamente em vários níveis. Há duas leis, a de Deus segundo o homem
interior, isto é, a do espírito, e a da carne. Duas cidades, a secularmente
orientada pela cupidez e a espiritualmente orientada pela caridade. Há também
dois tempos, o Aevum, que é vida eterna, o “tempo cósmico da criação” e o tempo
do homem “o tempo histórico da alteração”, conforme as expressões de Alliez.
Ora, o plotinismo também observa
uma duplicação temporal. Pois o que a alma que contempla o Inteligível vê são
formas de luz enquanto que na existência corpórea o que resta a ver são os
traços sem qualidades das figuras geométricas, a pura ilusão da materialidade.
A via da salvação consiste na renúncia da alma a esse olhar que obscurece a
visão para liberar aquele ver que lhe restitui a visão da luz no êxtase –
experiência do Todo. Mas nesse acontecimento de Contemplação o que se libera é
também o tempo do Aion que Alliez conceituará como a autotemporalização do
absoluto, o originário do tempo em que os modos do passado e do futuro são
contemporâneos do presente na síntese passiva da unificação do ser.
Experiência da arte bizantina, o
Aion do plotinismo estaria assim na prefiguração do Ereignis heideggeriano e do
Logos do mundo estético, o Urzeit husserliano. Trata-se do paradoxo do sentido
íntimo. Pois o Ereignis enquanto Contemplação, só restitui o Eu puro no momento
mesmo em que ele deixa de ser o “eu” individual que se autoapreende a si, isto
é, quando torna-se “outro”, seu centro devendo agora ser coincidente com o
centro do universo.
Já na conceituação do tempo em
Santo Agostinho a duplicação inicial deve redundar em três apresentações.
Inicia-se com a menção ao Aevum, o tempo em que Deus cria o mundo, o tempo
cósmico dos movimentos celestes, eternidade participada às criaturas naquilo em
que elas são mais essencialmente. A seguir deve-se conceituar o tempo
existencial que não se mede pelo movimento do corpo e sim pela atividade da
alma. Simetricamente oposto ao Aevum esse é o tempo como distensão da alma, o
tempo derivado da queda. Trata-se do tempo psicológico, ligado à avareza e à
atividade do mercadejar porque só se instaura a partir do momento em que o ser
humano se exterioriza no mundo da materialidade,
Mas como reconduzir essa alma que
se distende, à qual o tempo é a atividade mais própria, a forma mesma da
atividade pois só “mede” a duração como movimento intensivo de espera, atenção,
expectação, sendo a distensão sempre o tender ao futuro, como reconduzir esse
tempo derivado da alma ao pensamento do homem interior, espiritual, portanto
mantendo a relação essencial com o criador através do exercício da fé?
A via da contemplação do
plotinismo não poderia se manter uma vez que a conciliação só se faz, como
conversão, por uma providência posterior, o Cristo, ao invés de se propor como
constitutividade do humano mesmo. No entanto, se a relação é de autoria, deve
haver algo de participado na criatura que vem do criador. Santo Agostinho vai
utilizar aí a oposição entre os termos distensio e intentio. O tempo derivado,
que é o que conhecemos do mundo “secular” é distensio animi, o tender da alma
ao futuro que pertence ao comum dos homens na exterioridade das relações. Mas à
alma, através do exercício da fé, conserva-se a via da Intenção, a Intentio,
pois ela assegura a transformação dos modos temporais, ampliando o presente,
sendo agora o tender da alma ao eterno.
Assim, desde o Aevum e a
caracterização do tempo secular da distensio, segue-se a teorização do tempo
teológico da intentio como via de conversão de modo que se a ciência procede
pela exterioridade na distenção, a sabedoria é “contemplação do eterno”, a via
do homem interior. Observa-se que a conservação da noção de contemplação se
desloca em relação ao uso que dela se faz em Plotino. Pois esse tempo não
poderia ser concebido por si mesmo, sem a pressuposição do presente eterno de
Deus que no entanto permanece por natureza irredutível à alma.
Como as duas cidades na
existência terrestre os dois tempos não chegam nunca a se destacar
completamente, permanecendo de algum modo misturados. Conceitualmente é preciso
pensar a síntese dialética mas como operação cristã ela deve supor a realidade “mesites”
do Logos e aquilo que a ela se relaciona, a realidade da Cisão.
A questão aí não é de modo algum
simples. A liberação da Intenção depende da cisão fundamental de criador e
criatura que se refaz no âmbito mesmo do humano enquanto este é vontade e
consciência que decide entre o homem secular e o homem espiritual, exterior e
interior. Mas todas as duplicações convergem para esse paradoxo da
semelhança-reconciliação dos opostos. Assim é uma apreensão metafísica, não
psicológica, que permite captar a figuração interior de Deus no mais profundo
da consciência de si, na “Memória Dei”. Objeto intencional moralmente
sancionado porque cem por cento interior.
O que se pode possibilitar assim,
no plano mesmo da criatura ainda que transpondo-se pelo exercício da fé, é
aquilo a que se relaciona a introdução do Logos-mesites. Pois se o Logos é dado
na relação Deus-criatura, a mutação afeta a apreensão mesma do Ser. Há
identidade entre consciência e objeto, preexistência espiritual das coisas,
corte com o pensamento antigo do ser que se conservava como entidade objetiva.
A relação da trindade com as
hipóteses já o demonstra, pois se em Plotino a conservação de Ser e Essência se
mantém derivada do Uno, o cristianismo oficial vai taxar de heréticas as
objeções de Sabélio e dos Modalistas da Igreja oriental que insistem na negação
da assimilação do Verbo hipostasiado a Cristo. O dogma prescreve essa
assimilação no momento mesmo da afirmação da Trindade. Deus é Ser e Ser é
Verdade. A independência do plotinismo, do Uno em relação ao Ser, não se
mantém. A Intensão, como a Revelação, não são acontecimentos de auto-apropriação
mas sim fatos do conceder da existência já pressuposta como derivação do criado
em relação ao criador.
Assimilação da realidade do mundo
com o ser criado, logo a existência resultando como o mais inautêntico, domínio
do afinal meramente prático e utilizável. A cisão permanece, pois a verdade da
alma é a sua limitação em relação a Deus. O que é eterno é a hierarquia dos
espíritos. Se o tempo teológico tende para o Aevum como eternidade, neste não
se encontra mais do que a mesma limitação derivada da Cisão. O máximo de
transcendência acarreta assim o máximo de limitação do particular, inversamente
ao plotinismo onde a transcendência é o horizonte de abertura na qual todo o
particular se abole para liberar a continuidade do Princípio que, mais
propriamente, o constitui.
Nesse sentido pode-se
reconsiderar o aporte humanista do cristianismo, o modo pelo qual ele se
instala, como já afirmei, no horizonte conceitual do pensamento
retórico-hermenêutico grego. Pois se podemos ainda pretender que a Intensão de
Santo Agostinho retoma algo da imagem-contemplação de Plotino, liberando-se da
imagem-ação, quanto a isso devemos recordar a afirmação de Paul Ricouer, citada
por Alliez, pela qual há impossibilidade da pertença fenomenológica do tempo
agostiniano, ao mesmo tempo em que aí se pode localizar a fenomenologia única e
autêntica.
A transposição do plano parece-me
porém não estender tal afirmação no sentido do paradoxo. Pois a relação da
Revelação depende do Conceder da graça, e a criatura jamais aspira à sua
própria natureza no Todo.
Recoloca-se aqui de certo modo a
questão complicada da Ocidentalização. Pois se não se pode pensar seus momentos
como de todo sem relação uns com os outros, resta que na medida em que se
afasta tão decisivamente de toda possibilidade de uma ontologia fundamental a
dogmática cristã se relaciona de certo modo com o crescimento do deserto que
caracteriza o aporte relacionante de pensar e razão tão propriamente metafísico
e ocidental.
O afastamento aí é precisamente
feito em relação àquele “pensar poetante”, ou ao elemento puro da contemplação,
ao pensamento não subsumido à proposição e ao juízo lógico. Mas parece
problemático convergir no mesmo horizonte essa dogmática cristã, para a qual a
razão é sempre algo derivado, reservado ao domínio do instrumento, e a possível
definição moderno-contemporânea do Ocidente como projeto de racionalidade
total.
Mas se for feita abstração do
juízo de valor, o que o cristianismo possibilitou em relação a esse novo
momento da ocidentalização é a sua essência mesma, na medida em que o termo “razão”
só se determinou por completo nesse aporte de utilidade, nesse estar voltado ao
ente, a partir do pensamento cristão. Até então a tensão permanecia entre
tendência metafísica e abertura hermenêutica de modo que no interior do mundo
grego e da filosofia “pagã” mesmo após as “decisões operadas no platonismo”,
conforme a expressão de Boutot, conservava-se o sentido originário da Physis, o
que a via sincrética do helenismo poderia, inclusive, vir a favorecer.
Não obstante, o pensamento
cristão e o que dele se conservou, por exemplo em Kirkegaard, conforme observou
Pépin, sempre sustentou o primado do absurdo como objeto da fé. Mas vimos qual
a imagem da razão que daí deriva. Pode-se propor, contudo, que o problema
restou intacto. Pois essa imagem não prolonga aquelas decisões mesmas, de modo
que, como sugere S. Weil o platonismo prepara o cristianismo? Parece-me contudo
que o neoplatonismo antepõe a necessidade de se afirmar que não
necessariamente. Pois o projeto platônico poderia ter prosseguido numa
interlocução que viesse recuperar o sentido mais originário de suas
palavras-guia autenticamente gregas.
Quanto a isso é interessante a
observação de Bréhier pela qual os próprios “destinos da filosofia” da época
feudal poderiam ter sido outros se Boécio houvesse levado a cabo seu “imenso
trabalho” de traduzir em latim as obras de Platão e Aristóteles.
O mundo fechado dos claustros
derivou, como reporta Bréhier, do sem-número de comunidades filosóficas
religiosas do paganismo, características do final do helenismo, que parecem
reconstituir o cenário do “Contra os Acadêmicos” agostiniano. Mas a
reintrodução das obras de Aristóteles e a doutrina de São Tomás já é a ambiência
tardo-feudal. Sem aprofundar a análise do período, basta observar algo da
filosofia de Duns Scot quanto à teoria do tempo.
Conforme Alliez, aceitando a
independência do tempo relativamente ao movimento físico, como aporte
propriamente agostiniano, Duns Scot deverá opor o que ele designa como tempo
abstrato, potencial enquanto existente na ausência de qualquer movimento, ao
tempo atual que o representa, contudo, mensurando todo movimento real.
Resta que o tempo abstrato, se
independente do movimento celeste, não é mais, por isso, psicológico, e sim
absoluto, independente da experiência, aprioristicamente postulado. O tempo
comum permanece, portanto, relativo à experiência, à percepção dos movimentos
visíveis dos corpos celestes.
Conhece-se a história: a partir desse ponto
tender-se-á a limitar o conceito de tempo ao sentido exclusivo do tempo atual
convergindo assim, concomitantemente à unificação da lei natural universal, até
aí observando a repartição dos mundos celeste e sublunar, na eclosão da física
moderna. Mas aqui já se pode introduzir o cenário – e as conseqüências – dessa
revolução.
= sobre a Idade Média, ver blog "estudos medievais"
= O Renascimento
I – Renascimento – a existência e
o paradoxo
Relacionado ao amor, como questão
desse novo sujeito dado a pensar desde a idade média tardia, de São Tomás, Dante e Duns Scottus, está o riso. E como observa Bakhtin, história
e filosofia do riso tornam-se bastante aplicáveis à tarefa de compreender o
Renascimento.
Inicialmente é preciso deslocar o
foco de observação que vínhamos mantendo sobre o período feudal. Assim, desde o
estudo da cultura oficial que a filosofia escolástica desenvolve, devemos nos
aproximar agora da cultura popular.Historicamente, a delimitação dessas duas regiões se apresenta de dois modos possíveis de relação. Ou esses elementos se distanciam, não se misturam ainda que coexistam no interior de um mesmo complexo cultural, ou há continuidade entre eles de modo que nas formas da alta cultura se podem encontrar aspectos precisos da cultura popular. Não verificamos no tratamento da era pós-feudal, o modo que Jaegger utiliza para a questão dessa relação na Grécia Antiga, a saber, fazendo do popular reflexo degradado do que se deixou coar da alta cultura.
À época feudal coexistem, conforme Bakhtin, dois aspectos de mundo. Ao mostrar que esses dois aspectos recobrem o popular e o oficial Bakhtin equaciona ao mesmo tempo o popular medieval ao cômico-grotesco rabelaisiano do Renascimento.
Assim como as páginas dos manuscritos da época de Duns Scottus e São Tomás se povoam de ilustrações fantásticas “de inspiração livre”, inúmeras figurinhas sem relação com o texto cuja descrição de Bakhtin faz lembrar os quadros de Hieronimus Bosch, na consciência do homem feudal participavam os dois aspectos do mundo, o piedoso oficial e o popular carnavalesco.
Mas esses aspectos superpostos jamais constituíram no feudalismo uma via única. Eram princípios opostos de modo que a irrupção “legalizada” do cômico se reservava ao calendário festivo sendo tolerada assim como um procedimento de catarse, purgando a inclinação irracional da alma humana.
Pode-se assim afirmar que no contraste entre culturas oficial e popular no feudalismo, enquanto aquela o representava exemplarmente como concepção imobilista e hirárquica do mundo, com esta se anuncia no interior mesmo da época medieval uma “verdade popular” que é fundamentalmente “antifeudal”.
O que ocorre no Renascimento é a ascenção dessa cultura popular, e consequentemente do cômico, à esfera da grande literatura. Bakhtin relaciona esse fato ao sentido agudo da percepção histórica da época, isto é, à consciência de que um velho mundo estava desaparecendo, à sensação do novo.
Já o cômico popular do período feudal se constituía como compreensão alegre da finitude e da renovação como interposições onipresentes da natureza, integrando o elemento da materialidade e da mudança, do tempo e da alternância contínua, no devir. Assim ao contrário da fenecida cultura oficial, a cultura popular que vinha do feudalismo continuou, alcançando expressão letrada nesse novo tempo do Renascimento.
Havia uma conveniência dessas formas cômicas populares, portanto, na expressão das perspectivas do Renascimento, enquanto que, paralelamente, o período se institui por uma manifesta tradição de ruptura com a cultura oficial medieval. O que é compreensível, pois o que a cultura oficial do feudalismo oferecia eram formas conceituais aptas apenas a expresar a concepção de universo e sociedade imutáveis, estabelecidos eternamente do mesmo modo por Deus porém sem que se pudesse interpretar a fé de um modo independente das verdades factuais alcançadas agora pela razão, devido à suspensão dos obstáculos ao comércio, à vida urbanizada da cultura, e à navegação.
Enquanto que as formas descritas por Bakhtin de expressão do cômico popular – a anedota, o carnaval, as formas do linguajar da praça pública, o calendário festivo, o caráter comunitário das feiras, por exemplo – evidenciavam os aspectos relativos e transitórios do devir ao mesmo tempo em que subvertiam as fórmulas da autoridade instituída na oposição às transformações em curso, através da linguagem “livre e ousada” capaz de fornecer o “conteúdo positivo mais rico às novas concepções de mundo”.
Com efeito, conforme Bakhtin, a época do Renascimento interessava-se sobremaneira por formas que pudessem possibilitar as máximas “franquezas de pensamento e palavra” que “procuravam a realidade nova” ultrapassando o “horizonte aparente” das concepções dominantes. A palavra devia agora revelar o que o costume e a convenção mantiveram sempre oculto.
Esse sentimento do novo se torna bastante evidenciado. Nessa época, repetindo, ocorre uma quantidade de transformações que afetam profundamente as doutrinas previamente estabelecidas sobre universo, ser humano e sociedade. Um erudito da geração anterior, confrontado a um aluno em seus inícios escolares, pareceria desinformado. Mas uma observação de Bréhier sobre Montaigne permite que se alcance o sentido mais próprio do período.
Trata-se do espanto da razão, a confrontação com os outros povos do mundo, porém como a descoberta do heterogêneo puro, o aborígine americano. Paralelamente ao desenvolvimento das descobertas das leis naturais patenteia-se a irredutibilidade das culturas. Não há “uma” razão que, à maneira estóica, possa servir de referência universal. O choque intercultural mostra, inversamente, que o espírito humano é como um grande “inventor de milagres”, que há inúmeras possibilidades de crenças, explicações de mundo e linguagens, não apenas aquelas conhecidas no velho continente.
E já no interior mesmo da cultura europeia a desagregação do lastro do latim como língua oficial em proveito das línguas nacionais antepõe o fenômeno trilíngue – latim medieval, língua nacional, latim clássico que se quer restaurar – ressaltado por Bakhtin. Assim se a fronteira de latim e língua nacional demarcava até aí o limite entre as culturas oficial e popular, paradoxalmente a intenção filológica do Renascimento em purificar o latim medieval através da reorientação pelo latim clássico, o de Cícero, determinou a impossibilidade do seu uso disseminado concomitantemente à universalização da linguagem da praça pública, veiculando os pontos de vista e formas novas de pensamento que até aí se reservavam aos gêneros inferiores, pregões, farsas, comédia, etc. As fronteiras culturais que demarcavam a irredutibilidade da diferença não se reservavam ao distanciamente espacial, mas abarcava o tempo, as épocas, a própria história.
Assim a descoberta pirrônica de Montagne, conforme Bréhier. A ciência não concede o acesso por si mesma a uma região superior da humanidade, mas seu valor depende do seu uso. O valor da ciência é relativo àquele do ser humano que a emprega. Se “o homem” se torna o objeto mais proeminente de estudo, ele não se visa como “natureza humana universal” mas sujeito que se descobre a si mesmo “puro” frente ao mundo, isto é, fundamentalmente desconhecido de si mesmo, não já determinado por leis e predestinações asseguradas de antemão.
É a própria interioridade que se torna opaca uma vez que não há certezas disponíveis. Sob o verniz dos costumes, o fundo do espírito, como afirma Montagne, é vagabundo e flutuante. Estudando o seu próprio “eu” Montagne nada vê de previamente estabelecido. É somente na experiência, em contato com as coisas e com as pessoas, que se pode atingir algum conhecimento, relativo é verdade, de si mesmo, mas que serve à condução da existência na positividade do devir.
Essa concepção “cética”, mas renascentista, não propriamente antiga, tem bastante afinidade com o riso rabelaisiano profundamente afirmador da vida. Pois não se trata de constatar a falência do mundo feudal sem compreender que o que o inviabiliza é infinitamente mais poderoso. A constatação é, pois, alegre. O tempo novo é alegre, esse é o capítulo da história do riso em que ele não se dissocia da noção de verdade. Montagne procura ainda nos livros “o prazer do divertimento honesto” enquanto que mais tarde a modernidade clássica vai introduzir uma relação fundamental de verdade e seriedade, riso e superfluidade.
O dogmatismo da sociedade imobilista, a unilateralidade de uma concepção de mundo imposta como verdade universal, havia povoado a consciência com as intimidações, as fórmulas instituídas, a hipocrisia. O riso expurga todos esses sentimentos que “mascaram o conhecimento da vida” mantendo assim uma relação essencial com a verdade. Rabelais, conforme Pinski, citado por Bakhtin, é o “pensador” que visa a relação entre o riso e o conhecimento. Ocorre que essa “verdade” é a do ser humano, do espírito que apreende os aspectos cambiantes, relativos e alternantes do real em si mesmo. O físico e o espiritual não mais se exluem. São elementos que se alternam assim como os pares de opostos e os valores no tempo.
As fontes teóricas da filosofia do riso como meio de compreensão do mundo à época de Rabelais, enumeradas por Bakhtin, são Hipócrates, Aristóteles e Luciano, o autor do “Menipo”. Se o exame da influência de Luciano se joga mais no plano teórico literário, interessa-me aqui especialmente a convergência de Hipócrates e Aristóteles.
Enquanto o Estagirista observa que o riso é o próprio do ser humano, as concepções hipocráticas relacionam-se à Demócrito em que o riso expressa uma concepção filosófica do mundo, como intuição espiritual do ser humano que desperta triunfando sobre temores derivados de superstições infundadas. Rabelais, reunindo Hipócrates e Demócrito, havia efetivamente realizado exposições na Faculdade de Medicina de Montpellier sobre sua teoria da “virtude curativa do riso”, teoria em voga numa época que reservava à medicina e à astronomia a preponderância entre as ciências.
Essa convergência insere-se assim plenamente na “corrente das ideias humanistas” do Renascimento. Pois não seria algo como uma prática terapêutica estritamente “científica” no interior do quadro já completamente moderno da especialização que separa o domínio natural positivo do âmbito da autocompreensão do próprio ser humano.
Ora, quanto a isso a observação aristotélica é essencial, pois trata-se no Renascimento da possibilidade de algo que Bakhtin designa como “concepção do mundo cômica” ou “aspecto cômico universal do mundo”. Esse aspecto precisa então integrar, a priori, o fato de ser humano, não ao modo de um conhecimento “objetivo” ou neutro dos fatos.
Assim, ao invés de “concepção de mundo”, algo que se pode pensar ainda como opinião ou mero aspecto descritivo-apreciativo, exterior, da existência – que não me parece no entanto ter sido o significado visado por Bakhtin – prefiro a expressão “compreensão de mundo”.
Pois essa expressão ilumina o acontecimento como eclosão do sentido, que está no cerne dos fatos posteriormente descritíveis como concepções de mundo. O riso abre o mundo “humano”, mundo que ainda não se absorveu nas leis de uma Mathesis Universalis mas que expressa perfeitamente o paradoxo como sentido existencial pleno, lugar em que o profundo senso do cotidiano que impregna as formas da comicidade popular não são ainda a esfera do privado que localizará o cômico burguês da modernidade clássica.
Ou seja, na comicidade popular que alcança a forma letrada da filosofia, o riso é inerente à percepção de um mundo em devir que não conta com um além ideal ou Ser, mas na modernidade clássica, inversamente, é o desvio da norma rigorosamente universal no fato fortuito do indivíduo, este somente que compartilha o devir.
Assim se Pinski, conforme Bakhtin, capta a “relação imemorial” entre o riso e a alternância temporal, parece-me oportuno observar que entre as situações cômicas analisadas por Bergson, as que mais se aproximam da obra de Rabelais são as de inversão e de interferência de séries. Assim a troca de papéis (coroamento do tolo, coincidência do horóscopo do bufão e do rei, utilização chula ou irreverente de elementos habitualmente sacralizados, glutões e ébrios mais sábios e lúcidos que o intelectual típico, etc.). Assim também as associações inesperadas (sombra da igreja que fecunda mulheres, muralhas da cidade formadas pelos próprios habitantes, etc.).
Mas de modo inverso ao cômico burguês dos exemplos de Bergson, sente-se nesse conteúdo rabelaisiano mais do que o exagero, algo como a derrubada das fronteiras que ao invés de somar ou encadear noções provindas de regiões diversas do real, fazem interpenetrar aquilo que se mantem ou deveria se manter expressamente disjunto.
A interferência não incide jamais sobre séries quaisquer, mas o efeito grotesco supõe que essas séries sejam forçosamente imiscíveis. Ora, no Renascimento, como mostra Bakhtin, ocorre uma “assimilação dos elementos cósmicos nos elementos do corpo”. A relação de macro e microcosmos não se fazia ao modo da representação simbólica mas como corporificação, ato de conferir o sentido de si, do corpo próprio e seus processos fisiológicos, como idênticos à materialidade dos elementos.
O corpo humano se torna o centro em que se reúne a heterogeneidade do mundo novo, o universo infinito que substitui o geocentrismo das esferas delimitadas. A espacialidade se torna horizontal comportando relações de movimentos para trás e para a frente ao invés da verticalidade pura do gótico. A horizontal do tempo se desloca inexoravelmente do passado ao futuro.
É inevitável recordar o modo como Santo Agostinho conjurava sua própria descoberta do tempo anímico, orientado pela expectação do futuro, através do tempo teológico que era a personificação da imutável ordem do claustro apta a reproduzir a hierarquia dos espíritos e a eternidade do tempo da criação através da estabilidade institucional eclesiástica. Comparando essa concepção com a de Pico della Mirandola, assim como observada por Bakhtin, vemos que o conceito de humanidade, agora , impede completamente a possibilidade de subtrair-se ao tempo do futuro.
O ser do humano, em Pico della Mirandola, é existência e futuro pois enquanto tudo o mais tem uma natureza completa e imutável, como única semente a partir da qual se desenvolve, os seres humanos recebem as sementes de todas as vidas tendo então que escolher o que neles se desenvolverá: vegetal ou animal, anjo ou filho de Deus, há liberdade de escolha. O corpo humano reúne todos os elementos e reinos da natureza, pois o ser humano é aquele que escolhe, no devir histórico, o sentido de sua existência.
E o paradoxo já se instala assim nessa concepção do cômico popular em que tudo o que há de mais oposto se interpenetra, não apenas se toca. Bakhtin ressalta os elementos de ambivalência e hiperbolização que afetam o cânon do corpo renascentista rabelaisiano. O corpo cósmico que acentua as funções fisiológicas capazes de turvar toda delimitação de exterior e interior, movendo-se sempre na continuidade, acontecimentos de membranas, subverte o sentido da necessidade material no cômico ao projetar-se parcialmente, hiperbolizando alguma parte ou função que se torna repentinamente autônoma.
A própria linguagem popular é ambivalente, de dupla tonalidade, o que se traduz pela interpenetração frequente de séries injuriosa e elogiosa sobre o mesmo objeto. Esse aspecto se reencontra na literatura bíblica em que o efeito retórico é alcançado ao se estender do mesmíssimo modo a série de castigos ou recompensas que têm lugar conforme a inobservância ou a observância da lei instituída – não se trata de simplesmente “informar” sobre conseqüências.
Observa-se assim a correção da perspectiva de Bakhtin sobre o enraizamento feudal, não tanto antigo, da matriz formal ou prática do cômico renascentista. Quanto a isso, Bakhtin insiste na impossibilidade de assimilar, por exemplo, o cômico rabelaisino ao satírico, apesar de uma certa resonância de formas com o treatro antigo, como a do ágon.
Ora, nessa época o humanismo cristão esforçava-se por reestabelecer o cristianismo primitivo, purgado da oficialidade das fórmulas institucionalizadas da igreja. Podemos aqui recordar que o paradoxo constituía uma das chaves desse cristianismo primevo que parece ter se perpetuado na cultura popular. O paradoxo não coincide exatamente com as formas do cômico clássico antigo onde a subversão cômica se faz mais pela colocação lado a lado ou pela inversão simples que no entanto mantem os lugares sociais bem delimitados.
Se o paradoxo irrompe na sofística, observa-se nela aquela acentuação singular à época em que se desenvolve, acentuação justamente humanística, em que é o sentido da compreensão humana, o Nomos, que se torna o que se dá a pensar. Pode-se inclusive propor que as formas de recepção da sofística posteriores ao século V a. C. apresentam o mesmo deslocamento da compreensão do seu sentido que as do cômico rabelaisiano renascentista em relação à modernidade.
O que os textos antigos que a recepção ampliada pelas traduções fornecem ao mundo do Renascimento propiciam é uma tomada de consciência da época a respeito de seus próprios arredores, por assim expressar, conforme Bakhtin. E esse é a meu ver o sentido da recepção histórico-crítica do humanismo pós-feudal em relação à literatura clássica antiga. Ao mesmo tempo em que se procurava libertar os textos das sobreinterpretações espúrias dos códigos instituídos pelo dogma, procurava-se também no próprio acervo da cultura o que se havia semeado às costas da oficialidade de modo a instaurar-se uma prática real e atualmente válida das formas do cômico popular.
O sentido existencial pleno dessa prática estava no mundo da vida mas assim como poderia ser visada no âmbito dessa compreensão instauradora do riso conexo à revelação da verdade que é paradoxo. A situação cômica por excelência é também a do inesperado como a do “boneco de mola”, registrada por Bergson, que salta da caixa sem que se espere que algum conteúdo ali pudesse apresentar qualquer capacidade de ação ou movimento.
A existência estava povoada dessa experiência, à época do Renascimento. Continentes e povos desconhecidos, o sol central e a terra girando em torno, novidades matemáticas, inovações terapêuticas, descobertas de todo tipo, e a visão popular que sabia penetrar com naturalidade o caráter insólito do real, a impermanência característica do devir, a coexistência do mal e do bem impossíveis de cindir-se em traços nitidamente destacados.
As funções materiais, corporais, são agora consideradas essenciais à preservação das funções sublimes, espirituais, por exemplo, ou a situação de alternância onde o fim de um ciclo é pressuposto ao início de outro. A constatação do mais inesperado no interior daquilo que é o mais familiar é o aporte propriamente humano da descoberta da existência como sendo ao mesmo tempo seu próprio motor e finitude. O papel central do corpo é também a consciência aguda dessa finitude constitutiva.
Esse riso que abre o mundo subjetivado comporta algo de irredutível ao momento posterior que se inicia no século XVII, a partir do qual já não se situa a compreensão de Rabelais no interior do seu próprio universo de sentido, daí os deslocamentos das interpretações analisadas por Bakhtin no âmbito da recepção moderna e contemporânea da obra rabelaisiana. O que poderia parecer algo insólito se considerarmos que é à época de Descartes que se desenvolve precisamente o panorama da filosofia do sujeito.
Mas muito da argumentação de Bakhtin reside na comparação do Renascimento com esse momento posterior de modo a ressaltar a incompreensão que nele se manifesta quanto ao aspecto filosófico do riso rabelaisiano. Assim por exemplo a descrição do cânon corporal moderno em relação ao renascentista. No cânon moderno a corporificação é um negócio de fechamento, delimitação, superficialidade como fronteira nítida de interior e exterior que impede as interpenetrações, ambivalência e hipérbole, do cômico de Rabelais.
É a observação de Montagne protestando contra as novas restrições que os costumes já estavem impondo ao ímpeto liberalizante da linguagem do Renascimento. Conteúdo e expressão de um novo plano, o da estratificação do sujeito moderno.
Incide também aqui o problema periodológico do Renascimento, não-feudal, não-moderno de todo. Prolongando a cultura popular do passado, antepondo oficialmente antiqui e moderni – perpetuadores das discussões escolásticas que vão se estiolando e autores de uma nova visão da liberdade filosófica e especulativa – mas sobretudo humanistas, envolvidos com essa compreensão de mundo jogada na abertura da própria individuação. Quanto a isso, dobrando-se a cesura, reencontra-se o século XII no século XIV, a retomada do espírito chartrense em plena tarefa de superação da escolástica.
O que ocorre é que nesse plano de
centralidade corporal, nesse mundo de semelhanças e influências cósmicas, o
sujeito não tem o caráter de generalidade, não é propriamente o “ego”
cartesiano, forma geral de individualidade para si. Não se deveria mesmo,
talvez, falar de “sujeito”.
Entre a alma como unidade
intelectiva do tomismo e a hecceidade escotista o que muda é a referência do
humano conforme o seu lugar específico no plano da criação em favor da
singularidade como dado a pensar na efetividade do seu vir a ser
esse-ente-aqui. Mas precisamente o corpo-microcosmo não se delimita por
oposição ao universo ou ao outro mas se constitui por sua inserção no mundo e
interação material. O que garante o acontecimento – apropriador existencial que
é abertura do sentido. Assim a individuação não se faz ao modo da pessoa,
sujeito, coisa, forma, substância.Há somente conjunção de afetos (latitude) e reunião de elementos materiais (longitude), intensidade e variação entre relações de movimento e repouso. Se essa cartografia é espinozista, a hecceidade é já o conceito escotista que insere a individuação no plano da vida, que não se confunde com o do “sujeito”.
A hecceidade é contração de essência ou grau de potência, na leitura de Deleuze, tom de brancura e grau de calor, designando-se sempre como positividade plena ao invés de diminuição do ato puro. Assim só há existência onde o ato é já agenciamento, “independente da forma de seu conceito ou da subjetividade de sua pessoa”. A hecceidade é acontecimento que torna singular – o momento, a vida de Sócrates, o passeio, a estação, o clima, o vento, o bando de animais, mas de maneira que tudo o mais, o mundo inteiro, se precipita nisso que se tornou singular. É a concepção ek-sistencial pela qual isso, o cão magro que corre na rua, é a rua, na visão de Virginia Woolf.
A essência se contrai, mas a essência só pode ser tudo isso que ela é. A “socratidade”, o sujeito eterno, não seria sujeito de todo no sentido de algo que não é nada mais que somente ele mesmo. Mas tampouco é a generalidade do ser que pode, de outro modo, ser visado particularmente. A neutralidade da essência em Duns Socott abarca o universal tanto quanto o particular. Mas a socratidade, como a hecceidade, como os acontecimentos desse corpo microcósmico do Renascimento, não seria “acontecimento” sem ser também “sentido” – daí seu caráter de modo algun contingente mas eterno. Mais propriamente a-crônico, aiônico, ainda não tendo vindo, sempre já tendo sido.
O que estou opondo é portanto a generalidade do sujeito moderno, que se relaciona à formação capitalista da sociedade de controle que surge na “grande internação” da modernidade clássica como reporta Foucault, indivíduo irredutível ao outro mas forma de generalidade coextensiva a todos, à “universalidade” na acepção do cosmos e não do ideal, do “sujeito” renascentista, hecceidade em que o mundo inteiro se contraiu abolindo a fronteira do mesmo e do outro. Contudo, apreender essa movimentação complexa que relaciona a transição ao Renascimento e o alvorecer cartesiano da modernidade requer novas aproximações que se orientam agora mais no sentido do conceito filosófico.
Há dois eixos dessa orientação que me parecem aptos a conduzir a compreensão das mutações em jogo. O eixo ético-político em que se observa a consolidação ideológica do Estado absolutista e o eixo epistemológico em que se vê a Metaphysica generalis transformar-se em Mathesis Universalis, conforme a expressão de Marilena Chauí. Aprecia-se desse modo a continuidade imanente ao devir da filosofia, isto é, na mudança de planos a historicidade do conceito.
Em Bacon a mutação se torna
bastante evidenciada pela vinculação manifesta com a inspiração de Santo
Agostinho de uma unidade espiritual pela qual as artes liberais devem servir à
teologia assim como a filosofia que pode apenas ser útil na refutação dos erros
dos gentios. Pode-se avaliar que a posição tomista que designa ao exercício da
razão autonomia em seu domínio havia surgido como ruptura dessa perspectiva
patrística, a orientação platônico-agostiniana nas escolas medievais, instituindo porém precisamente aquele acordo próprio à Escolástica
pelo qual a aplicação autêntica da razão é a filosofia tomista-aristotélica e enquanto
verdadeira ela deve confirmar as Escrituras.
Mas ao invés de determinar uma
prática de limitação do discurso racional ao desenvolvimento conceitual de
noções que estendem proposições nucleares da Revelação, o que Bacon apresenta é
uma ênfase na experiência como terceiro modo de conhecimento, entre a
autoridade e a razão silogística. Bréhier acentua a natureza mística dessa “experiência”,
que não pode ser identificada assim ao método científico moderno. Por esse meio
Bréhier pôde explicar de certo modo a vinculação franciscano-agostiniana do
"doutor mirabilis", que afirma o conhecimento por iluminação, com essa atitude “experimentalista”.
Tratar-se-ia de experiência no
sentido da alquimia, astrologia, magia e manejo de forças ocultas em geral com
base em uma concepção de universo como lugar de influências das forças
emanadas. E essa experiência “de sentido externo” tem ainda em Bacon sua
contraparte na experiência “de sentido interno” que é a do êxtase. Bréhier
relativiza assim o caráter precursor de Bacon que tem sido considerado
antecessor da moderna ciência experimental.
Ocorre que o que Bacon realmente
antecipa é o Renascimento que deverá se caracterizar justamente por esse tipo
de conjunção de (neo)platonismo extático e experiência de sentido externo. Mas
o papel do misticismo se reduz progressivamente até a perspectiva de Leonardo
da Vinci que define a verdade não como algo acima dos meios do espírito humano
e sim pelas conclusões naturais e válidas que excluem tanto as visões
sistemáticas quanto a transcendência e a postulação de realidades ocultas. Mas
it’s a long way entre Bacon e Leonardo, e, não obstante, a via mística prossegue
no exterior do ambiente acadêmico de maneira a alcançar uma ressonância social
bastante ampla.
Assim a trajetória do pensamento
Renascentista se relaciona com pressupostos que deverão conduzir ao momento de
racionalidade ilimitada como definição do Ocidente. O que o embasa sendo a
configuração nítida de sujeito e objeto, sujeito e mundo, como realidades
separadas, irredutíveis. Não há na modernidade estrita traços daquela
correspondência de macro e microcosmos. A individuação deixou de ser um
problema para se tornar o referencial do dado qualquer.
Assim compreende-se que a
polaridade, desde a época pós-renascentista de Descartes, vai abranger o sentido dessa resolução,
seja na via subjetivo-racionalista ou objetivo-empirista. Isto é, do inatismo
das ideias que asseguram a realidade intelectivamente coerente do mundo
irredutivelmente exterior, ou do primado da experiência que se institui numa
relação com as leis do espírito que não se deixam porém compreender de fora
dessa relação mesma.
A experiência, desde aquilo que,
conforme R. Bacon, abrange tanto o sentido externo quanto o interno, deverá
portanto se compreender na modernidade estrita pela síntese desse verso e
reverso mas não com base no princípio de unidade universal profundamente
místico do neoplatonismo, que será contudo quase onipresente no Renascimento.
Vimos que desde a Escolástica
tomista o que se torna o sintoma desse mundo novo é o sujeito na acepção estrita dos fenômenos humanos como o amor e o riso. Inicialmente
trata-se do estatuto epistemológico que em São Tomás dota a alma com a
autonomia de substância espiritual. Com Duns Scott a individuação começa a ser
pensada como gênese de um mundo (a)subjetivado. O processo se completa, por assim
expressar, com o nominalismo em que se abandona o problema da individuação como
a um falso problema.
Pois ele depende da preexistência
do universal como princípio de conhecimento humano, o que se propõe no
nominalismo como verdadeiro contrasenso. Ora, como observa Bréhier o
nominalismo dos séculos XIV e XV é algo que não se pode reduzir a apenas uma
solução particular do problema dos universais. Trata-se do “espírito novo” que
despreza as questões metafísicas, considera as verdades de fé como heterogêneas
e inacessíveis à razão, pura questão de crença pessoal, e que se mantém no
âmbito da experiência.
O nominalismo afirma que o
universal, a espécie, resulta de certo modo pelo qual o espírito considera a
imagem sensível, minimizando as diferenças. Mas conforme o peripatetismo ora julgado
autêntico, o que existe na verdade é a substância, os indivíduos reais, aquilo
que constitui o objeto original do conhecimento.
Nessa relação, que já se concebe
como sendo a do sujeito do conhecimento com seu objeto, claramente enunciada de
início com Pierre Auriol, a realidade desse objeto aqui é o que há de mais
eminente como conhecimento efetivado por esse sujeito aqui. Ao invés de visar o
universal na acepção do ser ou ideal, como se houvesse uma forma ou espécie por si mesmas subsistentes no
exterior da coisa ou da relação intelectiva, o que ocorre no processo da
episteme é que as coisas produzem impressões no intelecto, impressões que
variam em força e precisão.
A impressão ou aparência que
assim se produz é designada por Pierre Auriol como Ser Intencional (esse
intencionale), conceito ou concepção, como uma aparência do objeto, um
reflexo (forma specularis) da coisa no intelecto. É de grande
importância a transição da “espécie inteligível” à “intencionalidade”.
Trata-se agora do objeto da
consciência ao invés de uma intermediação pela qual há conhecimento da coisa
pela alma. Às coisas elas mesmas, poder-se-ia propor, lembrando a fórmula da
fenomenologia husserliana. Pois o ser intencional não possui outra realidade
que aquela mesma da coisa visada, mas é o objeto, presente ao espírito, naquilo
em que este o visa atualmente. O que me parece, porém, impossibilitar a
interpretação dessa tese, que penso contudo ser bastante fiel a Aristóteles,
como fenomenológica, é que o pensamento de Husserl depende fundamentalmente de
conceitos inexistentes na história da filosofia até Descartes, o conceito de “Ego”,
e ainda da Revolução Copernicana da filosofia, que com Kant transpôs a noção de
transcendental.
Sem tentar antecipar o que deverá
ser mais detalhadamente examinado posteriormente, já se pode ver a
interdependência Kant-Descartes nisso pelo que só se poderia propor o
transcendental como conhecimento daquilo que condiciona a experiência após
ter-se efetivado a completa separação do sujeito, o que ocorre com o Ego Cogito cartesiano
frente à experiência – o que também exige a formulação do empirismo de Hume.
Ora, sujeito e experiência como
dois campos contrapostos ainda não estão nitidamente formulados no
Renascimento. O que ocorre no nominalismo, como precursor do empirismo, é
apenas a transformação da problemática da alma ao domínio da consciência.
Transpor o problema do conhecimento para esse domínio é efetivamente recolocar
a questão no âmbito da Physis, em que o peripatetismo se desenvolve. Assim o
epíteto Renascença está correto, quanto a isso, ganhando todo o seu sentido.
Trata-se, no aristotelismo
autêntico, como já observado por Aubenque, da reversão das relações
tradicionais entre metaphysica generalis (a ontologia ) e metaphysica
specialis ( a teologia ).
Enquanto o neoplatonismo supõe
Deus acima do ser, o Deus de Aristóteles é a essência, incontestavelmente Ser.
A questão não seria como elevar a linguagem, feita para falar do ser do
sensível, ao mais que ser de Deus mas sim como a intuição humana destinada a
Deus ou ao Ser “pode se degradar a um discurso indefinido sobre o menos que ser
do mundo sublunar”, conforme Aubenque.
A ontologia aristotélica é
metafísica da particularidade, do ser em movimento desse mundo sublunar. Assim
o que é propriamente generalis deveria ser a teologia, a ontologia sendo
o que deveria ser o specialis, “metafísica da Particularidade, da
Exceção”, na expressão de Aubenque. Vê-se por esse meio que não se poderia
postular uma redução no sentido do transcendental mesmo que sem postular o Ego
Transcendental. Isto é, não se poderia tentar definir o ser do peripatetismo,
como verdadeiro e falso, ao modo de uma afecção do pensamento, funções lógicas
suas.
Pois para que seja verdadeira, a
ligação no pensamento deve expressar uma ligação nas coisas, a concepção da
verdade é, pois, não lógica mas onto-lógica. A ambiguidade entre essas duas
posições se inscreve, conforme Aubenque, entre as citações da Metafísica: K 8 e a
verdade lógica, Q 10 e a
verdade ontológica, sendo a chave E 4. A verdade é sempre desvelamento. Na
visão de Aubenque não ocorre jamais o “oubli” heideggeriano em Aristóteles, do
ontológico pelo lógico.
Não se delimitando contudo a
teoria do Estagirista a uma simples questão de adequação, o que a palavra faz é
“deixar expressar em nós uma certa relação de coisas que existe independente de
nós”, conforme Aubenque. A palavra desvela isso que existe, a função copulativa
do verbo ser se constituindo como o lugar em que “a intenção significante” se
ultrapassa e onde as coisas nascem ao sentido. Assim a interpretação tomista
que Aubenque cita: quantos modos de se predicar, tantos modos pelos quais o ser
pode se expressar, havendo tantos modos de ser quanto de dizer.
Mas não porque o dizer condiciona
o ser e sim porque a verdade da linguagem humana é sempre prefigurada ou
pré-dada nas coisas mesmas. Assim a dualidade expressa em Guilherme de Okham
entre a significação da palavra (intentio animae, cenceptus animae ou
passio animae) enquanto unversais naturais (universalia naturalia) e
os universais convencionais que são os próprios termos, a palavra como
instituição humana que significa, no entanto, a coisa.
A vinculação dessa teoria
aristotélica com o nominalismo parece-me bastante confirmada. Historicamente é
como se o nominalismo já com Pierre Auriol resgatasse, no “ser intencional”
essa “intenção significante” que a vinculação da interpretação (neo)platônica
tendeu a obnubilar no sentido seja do primado do universal seja da postulação
formal da espécie inteligível derivando assim problemas que o peripatetismo
jamais se propôs resolver.
Mas quanto a reduzir a teoria do
Estagirista a essas correntes, nominalismo ou empirismo, já isso não me parece
completamente exeqüível. Entre os motivos que poderiam se estender há o que me
parece mais importante a ressaltar. É que se o sentido do Renascimento pode ser
visado, por exemplo, nesse aporte nominalista em relação à doutrina autêntica
do peripatetismo, há uma série de pressupostos históricos que vinculam o
nominalismo ao cenário posterior que será de empirismo versus racionalismo,
como já vimos, irredutível à ambiência da Antiguidade como à medieval. Em geral
prefiro ver em cada teoria a relação constitutiva que ela mantem com a
consistência epocal em meio a que ela pode traçar o seu próprio plano.
Assim o meio “Renascimento”
mantém, a par da polêmica de antigos e modernos que opõe tomismo, escotismo e
okhamismo, a contrapartida desses movimentos universitários – principalmente do
okhamismo nominalista – no misticismo alemão de mestre Eckart que é inseparável
da vida monástica dos conventos.
Se nas universidades estudam-se
os clássicos e desenvolvem-se termos cada vez mais especializados na condução
das explanações teóricas, nos conventos os místicos usam a linguagem vulgar,
expondo sobretudo através da afirmação, da sentença, da Visão. Mantém-se aí a
vinculação com o pensamento de Plotino. Trata-se de “ascese”, de afastamento
mundano rumo à realidade puramente espiritual.
Mestre Eckart ensina o amor, como
plenitude e identidade com Deus, que se traduz por completa passividade à
vontade de Deus, de modo que o prêmio, a salvação, deixa de ser objetivado por
si mesmo. O amor, inseparável da inteligência, como o Espírito é inseparável do
Verbo, é a união com Deus mas não tanto como objetivo único da alma e sim como
seu ser mesmo. As virtudes decorrem naturalmente dessa liberdade completa que
pertence à alma desde que ela não de desvia de seu ser autêntico.
A doutrina da alma e de seu
destino, a união com Deus, é ao mesmo tempo, conforme Bréhier, uma teoria do ser.
Trata-se da descoberta mesma da realidade das coisas. Bem inversamente a Duns
Scott, Eckart afirma que conceber o indivíduo como dotado de realidade no mesmo
sentido que Deus, propor a univocidade do ser, torna incompreensível o destino
das criaturas. A individualidade deve ser apenas puramente contingente, como um
estado provisório, pois todas as criaturas são unas em Deus.
A manifestação das coisas
corresponde à revelação dessa unidade mais fundamental. Assim a criação se
desenrola como processão, o mundo é expressão de Deus. O Filho sendo o Verbo,
palavra ou inteligência, e o Espírito Santo sendo o amor que une o Filho ao
Pai, cada coisa tem seu ser eterno compreendido no Verbo. “A criação é o ato
intemporal em que Deus se expressa em seu Filho”, conforme Bréhier.
A causalidade mística de Eckart,
mesmo tão próxima de Plotino, é de uma estrita imanência. Não se pode assim nem
mesmo dizer que a existência individual é o correlato de um ato localizado de
Deus, como se ele criasse em certo momento, por exemplo, o céu e a terra.
Quanto à alma, sua única função é
o conhecimento. Mas sendo “de algum modo todas as coisas”, conforme a expresão
de Aristóteles na inteligência em ato o objeto sendo idêntico ao sujeito, a
alma compreende todas as coisas ao seu modo, de modo semelhante às hipóstases
de Plotino.
A alma é o lugar em que todas as
criaturas reencontram sua unidade. O conhecimento não permanece exterior às
coisas, mas é transmutação, retorno das coisas a Deus. A doutrina cristã em
mestre Eckart alcança assim um sentido ontológico, o Verbo agindo como
igualdade da unidade. O drama do evangelho, o pecado de Adão, a salvação, não
são aspectos senão acessórios da encarnação que permite ver no Cristo a imagem
que a deidade inefável engendra na alma purificada. A regra de vida consiste em
saber que é loucura tentar perscrutar o ser de Deus. Crer sem tentar desvendar,
eis o que Ruysbroeck, nesse mesmo espírito, designará como regra: a sobriedade.
Observa-se que mantendo o aporte
inverso ao nominalismo conserva-se aí, nesse misticismo, contudo, a mesma
atitude pós-escolástica de separação completa entre as esferas de fé e razão.
Ora, o contraste entre nominalismo e misticismo, entre positividade da
experiência externa e ênfase na experiência espiritual, entre a universidade
das castas intelectuais e o convento dos movimentos populares com maior alcance
social, parece a Bréhier testemunhar a cisão profunda que caracteriza a vida
espiritual entre os séculos XIV e XV. Contudo, o Renascimento deverá procurar
superar tal ruptura, conforme ele, por dois modos complementares.
Ou se tenta organizar a vida
moral autônoma tendo como regra a natureza, que é a tendência humanista, ou se
nega qualquer possibilidade de justificação humana, reservando-a somente à
graça, que vem a ser a tendência da Reforma. Humanismo e Reforma, como já
observa também Carpeaux, inversamente ao que se costuma propor, são movimentos
basicamente antitéticos, mutuamente hostis. Assim essas tentativas elas mesmas
rearticulam a ruptura já no interior do próprio Renascimento, que por esse meio
a configura conforma a sua feição, por assim expressar.
A posição cada vez mais
contraditória da Igreja, ao mesmo tempo detentora do imenso poder oriundo do
mundo feudal mas já no cenário das transformações que ensejam o capitalismo,
com os prolongamentos ideológicos que correspondem a esse fenômeno, pode ser
relacionada, a meu ver, a tal cisão operante, constitutiva. A síntese de tipo
tomista que poderia espelhar esse poder unificado que a Igreja sonhava ser é
ela mesma um momento de ultrapassagem mais do que uma solução real. A despeito
do seu brilhantismo, o tomismo não poderia representar a estabilização católica
com a mesma extensão e solidez que o agostinismo patrístico implementou, por
séculos.
Os fatores históricos, incremento
do poder temporal, reativação do comércio, descoberta do novo mundo, vão de par
com a fissura incontornável entre o sentido autêntico da recepção ampliada dos
textos antigos e o dogma ele mesmo resultando do fechamento interpretativo platônico-plotiniano.
Contudo, enquanto o capitalismo
não se cristalizou universalmente na forma do Estado absoluto, essa fissura se
manteve paradoxalmente como linha de força da articulação do mundo da
Renascença em que ambos os influxos, o velho e o novo, coexistiam
inapelavelmente, sem posibilidade de se fundir nem de se resolver por um ou
outro termo singular.
Somente os processos que se
desenvolvem aí poderão fazer compreender o sentido que o momento moderno da
ocidentalização efetivamente adotou. Não que se proponha apontar a evolução
dos acontecimentos num sentido determinista, como se derivando ao modo de
alguma obscura causalidade, mas sim observar como e quais decisões lançadas se
revelaram fundamentais nesse processo evolutivo.
III – A função hermenêutica
Quanto à intentio animae, ou “noção
intra-anímica” na expressão de Apel, é interessante observar que sua função
designativa deveria não ser por princípio suposta no sentido da ideia
platônica, isto é, como identidade a si do conceito, dada como eternamente
estabelecida. Assim ela poderia ter sido proposta como pura condição de
possibilidade epistemológica. Já a possibilidade transcendental – hermenêutica
iria conservar a inteligibilidade desse grifo apenas se pudesse haver consenso
– common sense – sobre algo como algo.
A crítica de Apel se apoia no
seguinte. A intentio enuncia a impressão da coisa na consciência. Independente
da pragmática toda intelecção já está sendo proposta como objetivamente
orientada. Mas, poder-se-ia responder que aquilo que o nominalismo interpreta
assim é que qualquer concepção afirmada de algo sobre algo corresponde a alguma
intenção na consciência, como aquilo de que ela se conscientiza.
Já para a perlocução se consumar
é preciso se ter consciência daquilo que a mediatiza – para que o ouvinte se
alegre é preciso que ele realize a intenção do logos da mensagem. Somente a
guinada de Kant poderia então conjurar essa preminência semântica da intenção
mas precisamente ela não se perfaz no domínio da linguagem.
Ora, o que Apel realmente propõe
como prévio é o acordo mútuo do sentido – sobre o sentido das palavras que
mediatizam as coisas e sobre o sentido do ser destas coisas assim mediadas.
Para que esse acordo se realize não ocorre de modo algum que o processo possa
vir a ser reduzido ao simples conjunto apontar. Todo o arsenal poético e
retórico se torna constitutivo dele de modo que ao que está em jogo não se pode
atribuir essa crítica de estar revertendo à semântica pura. Enquanto que já o
humanismo retórico, conforme Apel, atribui competência filosófica a poetas e
retores.
Institui-se assim a dialética
como círculo entre os níveis semântico e pragmático: idealmente pragmático, o
significado se estabiliza na semântica plasmando-se como linguagem natural. Mas
o meta-sistema da fala não está sendo proposto em algum nível
sintático-semântico mas sim como pragmático ou seja, como competência
comunicativa – que a competência lingüística de Chomski, por sua vez, mediatiza
através das línguas particulares. É assim que o pragmático se torna
transcendental. E o significado se torna o resultado do processo, não o seu
ponto de partida.
Ocorre porém que enquanto
transcendental, meta-sistema, essa pragmática deve se propor sob o modelo da
universalidade. Logo ela encontra na linguagem o a priori que permite derivar,
no âmbito humano, a superação da cisão da filosofia teórica e prática a partir
de uma ética universalista do discurso. Esse é o sentido do a priori da
kommunikationsgemeinschaft. Enquanto verbalizável qualquer formulação proposicional
é, em princípio, proferimento, e enquanto proferimento condiciona-se por um
pressuposto ético que visa todos os seres humanos como sujeitos de sentido, daí
como sujeitos que pautam sua existência a partir de razões.
Mas o que se torna assim questionável
é se em princípio o sentido de “proferimento” se presta a uma tal
universalização ética que não se performatiza a si mesma apenas enquanto um
formalismo. Assim é interessante observar que também Popper utiliza a
interlocucionalidade do discurso como critério de objetividade científica, não
tanto as condições pelas quais a ciência se produz. A interlocução nesse caso é
a possibilidade de contradição, de falseamento, logo o pressuposto ético de
toda pretensão científica de sentido, enquanto que o pseudo-logos marxista ou
psicanalítico, conforme ele, não podem por princípio ser falseados não
preenchendo assim esse requisito ético da cientificidade.
Ora, o deslizamento produzido no
âmbito da ética do discurso, que parece ser o traço comum de Apel e Habbermas,
se vê nisso: se a princípio “sentido”, como processo complexo da gênese do
acordo mútuo, precisava ser bem diferenciado de “consciência” ou “razão” como
faculdade de captação do significado, como é que se conclui por uma assimilação
universalista de ambos os termos? Não seria por um prejulgamento sobre o modo
pelo qual se produz esse acordo – que aliás não fica explícito?
E esse prejulgamento hermenêutico
não teria assim já de início se colocado no caminho problemático da mediação,
da dialética, de modo que todo o processo já de antemão deveria ser pensado ao
modo do universalizável, do ilimitável? Mas o que tornou a mediação tão
apropriada à démarche da hermenêutica transcendental?
A questão deve mesmo se repor
desde o início. Pois é a postulação do que vem a ser o originário, enquanto
formação de consenso, que se propôs de modo enigmático. Assim os elementos
poéticos e retóricos, o espaço de jogo pragmático, uma vez que se tenha
reduzido à pura forma do comunicável, se não pode ser dado como tendo se reduzido
ao significado, tampouco pode dele, completamente, se destacar.
Ou melhor, não se pode destacar
não tanto do significado mas daquilo em que a semântica se enraíza – o âmbito
da razão pura. A transformação da filosofia no rumo da linguagem é assim mais
essencialmente a transformação da linguagem no sentido do que até aí se fez
como “filosofia”, isto é, o âmbito do racional, do universal. Mas a questão é
que os elementos retóricos e poéticos já haviam sido há muito visados na
constituição do sentido por Nietszche. Contudo aqui realmente há transformação
da filosofia, que se estende agora à genealogia dos valores, à esfera dos
sintomas.
Porque o que esses elementos
acarretam, uma vez tendo sido visados na constituição mesma do sentido, não
como algo acessório ou exterior a essa constituição, é a necessidade de
instaurar as questões que desbordam o âmbito da razão pura, da forma pura, do
universal, na região do pensável.
O pensamento se desloca ao âmbito
da vontade, potência ou desejo, sendo este o alcance real da revolução
pragmática instaurada por Nietszche. Mas também o seu alcance hermenêutico de
modo que aqui incide a grande convergência Spinoza-Nietszche já tematizada em
Deleuze.
Supondo o resíduo da análise como
pura forma do comunicável não há como não se por numa relação fundamental com o
significado. Desde aí como se poderia compreender a singularidade real se já
foi instalada a reflexão no âmbito mesmo do seu mascaramento? No domínio dos
sintomas, da avaliação dos valores, a questão não seria o que é que ou como é
que a vontade comunica mas o que ela quer. Entre o comunicar e o querer a
relação não é de modo algum direta, ou não haveria a mínima necessidade de
hermenêutica. A relação é de mascaramento, de simulação.
O que sobe até a esfera do significado
se mascarou para poder chegar até aí. Assim o diagnóstico espinozista acerca da
linguagem: ela é da ordem do signo, da imaginação. A ordem dos signos
convencionais, que é a linguagem, é equívoca, opondo-se à ordem das expressões,
dos conceitos filosóficos enquanto ideias adequadas, que é unívoca em relação à
substância ou natureza.
A hermenêutica de Spinoza foi
aproximada por Todorov à corrente filológica do século XIX. Trata-se do método
histórico-crítico que une o estudo gramatical e estrutural do texto,
exclusivamente intra-textual, à interpretação de sua inserção histórica, às
condições de sua produção e recepção.
Assim a própria tradição deve ser
interpretada, portanto recusada como a priori da tarefa interpretativa do
texto. Mas aproximando-se do que Mello, no posfácio ao “Spinoza e os Signos” de
Deleuze, designa “hermenêutica desmistificadora do sentido”, Spinoza não se
circunscreve totalmente na corrente filológica tal como reportado por Todorov.
Essa hermenêutica da
desmistificação pode assim clarificar as iniciativas de Marx, Freud e
Nietzsche, pois o que as caracteriza é a consideração do sentido latente que se
oculta sob o sentido manifesto. O sujeito mesmo está assim visado de modo
não-cartesiano: o quadro de suas intenções não coincide com o de suas posturas
empíricas, mas isso de modo constitutivo e sintomático. Seria enganar-se
totalmente, ou pior, manter-se no plano do simples controle ou julgamento
extrínseco sobre o agir alheio, pretender derivar o sentido das intenções pelos
signos da linguagem comum.
A comunicação, ainda que como
pura forma do comunicável, se torna limitada como projeto hermenêutico de
apreensão total da essência da linguagem porque não logra prever as margens de
sua equivocidade. Assim a expressão torna-se conceituavelmente mais proveitosa
quanto a isso, porque também não deixa de recobrir a ambiguidade constitutiva
pela qual o liame do latente e do manifesto não poderia ser simplesmente
descartado, pelo modo mesmo de ser do sujeito enquanto desejo e conatus.
O modelo do corpo, como afirma
Deleuze em relação à filosofia de Spinoza , implica na descoberta do
inconsciente, logo, uma transformação da filosofia, sim, mas não da consciência
à linguagem e sim da consciência ao pensamento. Converge aí também o diagnóstico
nietzscheano da consciência como campo do reativo em proveito do pensamento
como lugar produtivo, criativo, das forças.
Mas também a reinserção no
pensamento da exigência de crítica das relações do sujeito com o real. Assim
propor o consenso ou acordo mútuo como termo de que deriva tudo o mais deixa de
oferecer a possibilidade de se determinar a ilusão, a dominação do sujeito por
imagens distorcidas do real, se não se estende a crítica hermenêutica
justamente aí. Inversamente, o que isso deveria supor é todo o trabalho a
realizar da genealogia dos valores.
Já observando-se o sentido “extra-moral”
da avaliação da noção de verdade em Nietszche, pode-se compreender que o que
está sendo proposto como hermenêutica de desmistificação tampouco não seria
equivalente a reduzir novamente à pura semântica como significado último – a
verdade, essa multidão “móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos”, essa
“soma de relações humanas que foram enfatizadas poética e retoricamente,
transpostas, enfeitadas e que, após longo uso, parecem a um povo canônicas,
obrigatórias”.
E por isso mesmo a filosofia é
necessariamente hermenêutica, logo compreende seu círculo. Pois a ascese como “perda
das ilusões da consciência” é condição de qualquer conquista do “sujeito
verdadeiro”, conforme as expressões de Ricoeur, mas essa ascese ao mesmo tempo
depende da linguagem mesma de que o sujeito crítico simula ter-se posto no
exterior. Contudo esse modo de simular supõe, em Spinoza, algo como uma
linguagem das ideias, sistema de conceitos inteiramente autodefinidos, que se
move agora no domínio do entendimento, não no da imaginação.
Criar conceitos, como tarefa da
filosofia, encontra assim o seu sentido no interior mesmo dessa circularidade
pela qual a crítica hermenêutica, propedêutica à filosofia, meio de transpor o
espaço ideológico, depende já da filosofia que a torna possível. O que não
invalida de todo o processo de compreensão já que o círculo, como afirma
Heidegger, é ontologicamente inerente à estrutura do sentido.
Mas observa-se assim que o
problema das ciências humanas encontra uma base bem mais ampla de
desenvolvimento. Pois frente à desqualificação da pretensão científica, logo
não-ideológica, da psicanálise ou do marxismo, tal como apontada por Popper –
esses discursos não falseáveis – não se poderia pretender que esse mal crônico
atinge toda teoria “humana” – desde que não se conforme ao modelo do controle
da opinião que está apenas para mensurar a probabilidade do “você decide”?
Desqualificação aliás quase mais séria do que aquela que incide sobre a
impossibilidade de movimentar-se no âmbito das determinações causais.
Ocorre que esse confronto com
Popper, tal como observado por Luc Ferry e Alain Renault, permite, no âmbito
dquilo com que estamos lidando agora, propor outro nível de aplicação das
teorias enquanto pensamento humano. Nível que não seria falseável nem
ideológico mas que atua ele mesmo como instrumento hermenêutico-crítico em
regiões especializadas como o ser humano e a sociedade, por exemplo.
Isto é, instrumento de redução
crítica da espessura entre o latente e o manifesto, ao mesmo tempo mostrando em
que essas instâncias diferem, como o manifesto se produz por leis de
mascaramento do que oculta, quais as relações determinantes da diferença, de
modo que a cura, como horizonte do processo, é pensada de modo heideggeriano
como algo não de todo dependente da simples decisão dos que nela se engajam.
Pois as forças que atuam são
demasiado amplas, as relações muito complexas, mesmo não apenas “materialmente”
sendo propostas aqui. Mas o que continua sendo o horizonte relativo da cura, ou
da terapia, é a decisão da recuperação da existência autêntica, no sentido da
ética dos devires.
Quanto a isso seria oportuno
observar o sentido do termo esquizo-análise lembrando que trata-se de começar
assim por não postular categorias como indivíduo ou sujeito ou psiquismo ou
sociedade, no limite, como noções que podem ser compreendidas por si mesmas de
modo preordenado, antepondo a isso que só se pode pensar cartografando, isto é,
não na base de uma tomada de decisão entre descrever de fora ou participar de
dentro mas em termos de composição de forças. Pois aquilo que se designa como
comportamento relaciona-se muito mais com as forças com que alguém se compõem
do que com um negócio de seguir regras.
A análise incide, pois, sobre a
dupla ligação presente naquilo mesmo que se visa ideologicamente como
pré-formado nas suas oposições estritas, por exemplo, sobre a noção de
sociedade na sua sobredeterminação constitutiva enquanto aparato de poder. Só
nesse sentido a-crítico a noção se oferece como extensível, precisamente, no
sentido da ilimitação. O algoritmo que opera essa extensividade é a oposição
dialética em relação ao indivíduo de modo que o “resto” da operação é a figura
do idiota, do isolado, definido como aquele que por si mesmo “resta”
problemático, anômalo, inadaptado, fora do normal.
A barra do algoritmo é a função
normativa que já permite mostrar que redunda num pleonasmo a expressão
sociedade de controle. A normalidade sanciona o indivíduo enquanto noção
mediatizada pelo social ao mesmo tempo que rotula o idiota como doente ou
marginal, o que se deve vigiar ou punir. Ora, a dupla-ligação consiste nisso
pelo que o isolado é função do social, a sociedade não seria de controle sem
ser de um tipo de exclusão que já não necessita da condição do "fora", mas apenas da discriminação. A história analítica mesma já lida com a função de expiação do
doente por relação aos conflitos familiares não assumidos.
E quanto a isso seria até
pertinente propor a inserção da questão espinhosa da ideologia, os preconceitos
da classe proletária, no âmbito maior da função social de exclusão discriminatória, como se
cada classe a exercesse ao seu modo constitutivamente enquanto classe. Ora, a
sobredeterminação esquizofrênica que opera na noção de sociedade se faz de modo
que o ônus fica todo do lado do idiota, a operação de exclusão sendo,
inversamente, como antônimo de associação, de ação social, de sociedade como
termo substantivado daquilo que se propõe mais fundamentalmente como verbo – a “sociação”
. A sociedade é universalmente o que reúne, o excluído é o que se auto-segrega
por suas próprias culpas ou deficiências.
Sem estender a questão, penso que
o importante aqui é ressaltar que a expressão esquizo-análise é assim já em si
terapêutica nisso pelo que alerta para o fato de que é preciso localizar a
sobredeterminação que se instaura naquilo mesmo que se conceitua como o ideal
universal das regras a seguir. Assim em cada caso é preciso ver como se compõem
quais forças, e como nos compomos, nós enquanto forças, com elas. Trata-se de
questões que não se dispõem do mesmo modo, no interior das ciências humanas, do
que decidir se o cientista joga ou não o jogo de linguagem que analisa ou como
se pode vir a compreender a regra que cada um supostamente segue ao se
comportar como algo.
A questão portanto é deslocar o
núcleo conceitual que articula esse tipo de questão, a saber a categoria da “mediação”,
utilizando-se a noção bem mais oportuna de “agenciamento”. Mas retornando ao
que vínhamos examinando, já o desenvolvimento da psicanálise, que não se esgota
de modo algum com Freud, não seria também devido aos “falseamentos” que
conduzem `a tranposição do plano suposto do psiquismo puro, rumo à
esquizo-análise? Mas esses processos de falsear não são simplesmente os que
Popper define, um tipo de prognóstico factual que se pode ou não desmentir, mas
algo como a coexistência de conceitos que se criam e se medem como poder
crítico-hermenêutico crescente das teorias em ciências humanas.
E à filosofia, mais do que “servir”
às ciências, não se reserva algo bem mais importante, criar conceitos que
favorecem a compreensão de todas essas ações e paixões: a contemplação, a
reflexão, a comunicação, que no entanto não se confundem de modo algum com o
seu exercício? Se assim for, o princípio filosófico originário deve ser que os
universais não explicam nada, eles próprios devem ser explicados...
Inseri nessa altura a questão
hermenêutica por vários motivos. Um deles é que o nominalismo, com sua recusa
do problema da individuação, permite bem colocar o alcance da filosofia aristotélica
na sua oposição fundamental com o platonismo. Mas também porque a apreciação de
uma deriva transcendental da hermenêutica como a de Apel demonstra de modo
excelente o sentido do humanismo que está se esboçando no Renascimento, tão
relacionado à démarche platônica.
Assim esse movimento complexo
abrange: a) a oposição desse humanismo com o projeto cartesiano não humanista;
b) a oposição desse humanismo com o projeto espinozista que mantem com o
humanismo uma posição ambígua pela qual dever-se-á averiguar se e como se pode
postular que trata-se de outro humanismo ; c) a relação desses humanismos com o
devir das ciências humanas.
Esse capítulo pode ser visado ao
modo de algum como se orientar no pensamento. Agora, através do exame daquele
eixo ético-político deve-se estender o âmbito humanista característico do
Renascimento.
IV – Balanceando o paradoxo
A conjuntura paradoxal da
sofística, como vimos, relacionava-se à singularidade da pólis democrática na
ambiência do mundo antigo. Enquanto a democracia e o desenvolvimento comercial
têm por correlato o sujeito que empreende e escolhe, todo o universo espiritual
da Antiguidade orientava-se pela concepção hierárquica e concentradora do real.
O motor imóvel aristotélico,
assim como o bem platônico e o Uno plotiniano, funcionam como perspectivas
dessa unidade do mundo, de que o Deus providencial do estoicismo – a que
Bréhier não hesita em atribuir uma origem semita – vem completar as
possibilidades a partir do corte socrático que instaura a cisão do conceito no
interior da Physis.
Quanto a isso não se poderia
propor que a intervenção metafísica designada por Heidegger corresponde à
separação das noções fundamentais de Physis e Logos? No entanto essa operação,
conservando-se no cenário da Antiguidade, teve por conseqüência frear a
dispersão que a sofística e a especulação científica liberada, características
do meio de influência jônico-ateniense, como vimos em Sagan, ameaçavam estender
concomitantemente ao estabelecimento da democracia ateniense.
Mas se há algo comum abarcando
Antiguidade e mundo feudal é essa concepção una do universo. Se no apogeu
ateniense assim como expresso na dramaturgia, ela impôs o paradoxo do “eu” ao mesmo tempo como destino pessoal e como cumprimento da norma divina-natural, vimos que na transição à época feudal,
no helenismo, o paradoxo é reencontrado na figura do indivíduo isolado no interior
da Urbe. No entanto, mesmo que a expansão do cosmopolitismo romano fosse forte
o bastante para impor à reflexão a realidade positiva desse indivíduo autônomo
de modo que o dado dessa real autonomia forçasse a pensar, essa realidade mesma
não lograva escapar ao círculo mais amplo da Unidade pois a operação metafísica
já havia lançado o estatuto de sua implementação garantida pelo
desenvolvimento das formas imperiais do exercício do poder a partir da
consolidação macedônea .
À época sofística, vimos, o paradoxo da
subjetividade – ou a subjetividade como paradoxo – oferecia-se como a novidade
do teatro trágico. Na sofística, encarregada de promover a integração política
via formação da cidadania, procurava-se integrar o paradoxo no pensamento “humano”.
Pode-se assim propor que a sofística almejava ultrapassar as condições do seu
tempo? Ora quebrando a unidade, ora estendendo a linha de subjetivação para
além do limite do próprio paradoxo?
Em todo caso pode-se observar que
esse era um empreendimento bem pensante à época, pois amalgamava-se à
preservação da pólis democrática, como virtude cívica. A comédia reflete isso
de certo modo pois a liberdade com que invectiva a figura pública não se põe
como paradoxo mas como celebração do exercício da cidadania plena,
transfigurado pela arte, ao modo de uma integração “religiosa” desse exercício
– lembrando que a arte conserva sempre o seu papel litúrgico na Grécia antiga.
A comédia e a sofística, por
meios diversos, compartem a mesma intenção de naturalizar aquilo que ao trágico
e à tradição ologárquica parecia tão chocante quanto incompreensível. A comédia
visando com tanta naturalidade as instituições democráticas quanto se costumava
visar as tradicionais – e assim ela ignorava o paradoxo no seu processo de composição.
A sofística, inversamente, fazendo do paradoxo o elemento mesmo do pensar.
A quádrupla instituição
metafísica sutura o elemento neutro da ambiência antiga, restituindo a bela
unidade por meio da transcendência. A physis que era Logos, dos pré-socráticos,
havia revelado seus poderes de desdobramento do múltiplo: heliocentrismo,
atomismo demócrito-epicúrio, medicina “empirista”, universo infinito,
materialismo, tantas hipóteses que a Grécia já enuncia na Antiguidade. Mas
reservando ao Logos o poder sobre a physis, a Unidade reinvestia o mundo
geocêntrico, finito, os princípios evidentes por si mesmos, o sentido da
teologia, a medicina dos elementos e da correspondência universal.
O Bem conserva a unidade do Logos
como Ideia das ideias. O motor imóvel é o pensamento que se pensa eternamente a
si mesmo. Como ato puro ele é mais que suas ideias, mais que seu próprio
conteúdo, mas enquanto pensamento em ato ele é a realização noética mesma. O
Uno plotiniano já amplia essa duplicidade que o motor imóvel introduz,
apontando para uma realidade que transcendo o próprio Logos. Contudo, se a
série de hipóstases se efetiva a seguir como Inteligência e como alma, resta
que o plotinismo pode ser visado ora mais em seu aspecto hierárquico ora mais
na totalidade que pertence a cada hipóstase que ao seu modo compreende o todo.
Caracterizando o Renascimento
pela cisão epocal entre o intuito cientificista que autonomiza as regiões do
real e a conservação dessa visão una do mundo, vemos que progressivamente a
ênfase da interpretação vai se deslocar, desde a interpretação hierarquizante
do plotinismo árabe até a complicatio de Nicolau Cusano em que tudo se une
conforme mais se aproxima da origem. Mas por ora, a questão é compreender o
Renascimento naquilo que ele se relaciona ao que pretende aparentemente fazer “renascer”.
Ora, em certos aspectos o Renascimento poderia semelhar a continuação do que o cristianismo e as invasões bárbaras haviam interposto ao helenismo. Mas o papel do paradoxo mostra que uma tal perspectiva seria ilusória. Pois agora é a Unidade do mundo que resta paradoxal, a autonomia do “eu” afirmando-se cada vez mais como região autônoma dada a pensar, de modo a também progressivamente impossibilita-la como concepção universalmente válida. Mas não logrando-o de todo enquanto dura o Renascimento, isto é, aproximadamente desde meados do século XIV, ou início do século XV, até o alvorecer do século XVII.
Ora, em certos aspectos o Renascimento poderia semelhar a continuação do que o cristianismo e as invasões bárbaras haviam interposto ao helenismo. Mas o papel do paradoxo mostra que uma tal perspectiva seria ilusória. Pois agora é a Unidade do mundo que resta paradoxal, a autonomia do “eu” afirmando-se cada vez mais como região autônoma dada a pensar, de modo a também progressivamente impossibilita-la como concepção universalmente válida. Mas não logrando-o de todo enquanto dura o Renascimento, isto é, aproximadamente desde meados do século XIV, ou início do século XV, até o alvorecer do século XVII.
Que isto pode ser proposto assim
parece-me bastante consequente a julgar pela reversão do aspecto marginal da economia
comercial que substitui finalmente a sociedade agrícola do feudalismo. A
monarquia do Estado absolutista é obra de juristas, correspondendo à ordem da
legalidade. Seu embasamento ideológico, a eleição do soberano por Deus, é
decerto algo essencial à época, não menos do que o mercantilismo. Mas não se
coloca como a única via de sutura. Trata-se do fenômeno mais amplo de
laicização das instituições, da autonomia do poder temporal que já se concebe
mesmo como representação da soberania popular (La Boétie), se não como simples
mestria na manipulação das forças que atuam no jogo social (Maquiavel).
O paradoxo do Renascimento pode
mesmo invadir a comédia pois não se trata de uma sociedade que se sabe singular
num meio diverso como a Grécia entre os impérios antigos, mas sim de uma cisão que se instala por todo o tecido da
civilização, uma contradição epocal, constitutiva, opondo o presente urbano-comercial ao passado interiorano-agrícola. Avaliar o seu alcance
torna-se possibilitado pela compreensão do papel das ciências que estão
surgindo precisamente agora.
O “espírito experimental
matemático e técnico” que Bréhier reporta a propósito de R. Bacon, parece ter
exercido o seu papel na prática da construção – arquitetura, engenharia – tanto
quanto entre os artesãos, durante toda a Idade Média. Mas como assinala
Carpeaux, a linguagem intelectual do feudalismo é eminentemente simbólica e
alegórica, espiritual, não técnica nem naturalista.
A filosofia aristotélica impõe
então, à época de São Tomás, a inovação pela qual surge a física do movimento
definindo seu objetivo como sendo o ens mobile – expressamente designado como
âmbito científico independente da explicação sobrenatural já por Alberto Magno.
Paralelamente desenvolve-se, com Roberto Grosseteste, uma explicação física da
natureza que propõe a produção do real fundada exclusivamente sobre a matéria e
a luz, conforme A. de Libera. As fontes, entre alguns outros títulos, são as “Òticas”
de Ptolomeu, Euclides e Alhazen, e o “Meteorológico” de Aristóteles. A ciência
da perspectiva, a ótica, com Vitelo, se torna o modelo científico desse
período.
Bréhier assinala que essa ótica
se relaciona à ideia da matematização da física já em R. Bacon, ligada à
valorização da experiência. Mas na escolástica tardia esses projetos de
orientação científica, derivados do peripatetismo, por mais independentes que
se queiram convergem com a teologia, pois se propõem como tarefa solucionar as
aporias que surgem da confrontação dos princípios dessa física grega com
movimentos e transformações descritos pela Escritura como o movimento angélico
e o momento preciso da transubstanciação.
E em sentido de certo modo
inverso, a noção da potentia Dei absoluta, pelo qual “Deus pode por sua
potência absoluta fazer tudo o que não implica contradição”, que é um dado de
fé, vai designar, já no século XIV, o domínio especulativo do raciocínio “secundum
imaginationen”, relacionado ao desenvolvimento da matematização da física e
paralelo à revolução do cálculo.
Em Duns Scott esse princípio de
fé é utilizado para mostrar que, salvo os dez mandamentos, todos os deveres das
criaturas poderiam ser outros, valendo apenas por sua notificação expressa.
Está aplicado assim no mesmo âmbito teológico de que precede, mas de modo a
inserir a nova tendência que, contrapondo-se à Escolástica, exige a separação
dos domínios de fé e razão.
Mas aplicado à física, torna-se
um instrumento heurístico que condiciona certo procedimento imaginário, ora
modelizando matematicamente relações calculáveis entre objetos físicos
manipulados independentemente de qualquer experiência, isto é, meramente
postuláveis pelo pensamento, ora reduzindo problemas físicos à matemática pura,
ora limitando assim o alcance epistemológico do método de abstração e
funcionalização de conceitos ao campo do “não-real”. O procedimento consiste
portanto em remontar do possível físico ao possível lógico.
É interessante o modo como de
Libera compara esse procedimento com as notas de Galileu sobre a função
heurística do imaginário que consiste, já no interior do método experimental
autêntico da modernidade que principia contudo ainda em âmbito Renascentista, em propor no pensamento certos objetos não dados na
experiência – como uma superfície “verdadeiramente” plana. Ora, nesse caso o
que assim se articula como apenas pensável só está se propondo para ser posto
em jogo, isto é, para ser de algum modo aplicado à experiência induzida. Já o
procedimento tardo-medieval jamais vai do Ideal ao Real. As relações
conceituais só se movimentam no espaço abstrato da argumentação lógica.
Quanto à “revolução do cálculo”,
ainda no século XIV, abrange a aplicação de linguagens analíticas – matemáticas
ou “quase matemáticas” (Heytesbury, Billingham), linguagem de proportiones e de
suppositiones (Ockham). A finalidade da interação dessas linguagens no projeto
matemático aplicado a problemas lógicos ( denominação, tradução), ainda que
comportando testes impostos a suas regras, tampouco introduzem qualquer
confronto com a experiência ou se destinam a uma experimentação ativa. A
finalidade não abrange por exemplo a verificação de hipóteses mas apenas gerar
puzzles lógicos de modo que se desenvolvem no puro âmbito da análise lógica,
não na efetividade da indução científica.
Ora, concomitantemente a
exigência da separação entre razão e fé, no evoluir do século XIV, vai se impor
sobrepondo-se àquilo que se determinava como a questão mesma da Escolástica
desenvolvendo-se no interior do vínculo de filosofia e teologia. Guilherme de
Okham, o “doutor invencível” e “venerável inceptor” dos nominalistas, desempenha
papel proeminente nesse processo. As provas tomistas da existência de Deus,
tanto quanto a salvaguarda escotista da necessidade ao menos do decálogo, são
por ele negadas como puros artigos de fé enquanto a potentia Dei se pensa assim
de modo bem mais absoluto. Ou seja, mais do que apenas justificar o existente, projetar o possível como também amparar a autoridade puramente civil.
A influência do nominalismo se
expande na Universidade de Paris. As teses que se relacionam a essa nova
autonomia da razão envolvem a negação também dos princípios da física grega. A
crítica da causalidade (Jean de Mirecourt) se une à da noção de substância
(Nicolas de Autrecourt). A oposição ao princípio aristotélico de que “tudo que se move é
movido por outra coisa” implica não apenas revisão da teoria do movimento dos
projéteis mas também negação do esquema astronômico das esferas com sua
separação de domínios supra e sublunar, resultando assim a identidade dos
princípios das mecânicas celeste e terrestre que vem a ser corrente na física
moderna.
João Buridan e Nicolau Oresme
desenvolvem esses novos aportes da física. Oresme chega a formular com exatidão
a fórmula do espaço da queda dos corpos no movimento uniformemente acelerado. A
potencia Dei do nominalismo estende uma noção de lei – civil ou
científica – não condicionada por nenhuma necessidade natural preconcebível. A natureza é um
campo limitado de relações a serem explicadas apenas como processos que se podem
reconstituir entre as coisas mesmas. Mas essas relações não poderiam ser
pressupostas no exterior da observação pois tudo poderia ser simplesmente de
outro modo. Elas não são teoricamente destinadas a atualizar princípios gerais
metafísicos pré-estabelecidos. A unidade do mundo se rompeu. Os aspectos dessa
ruptura progressivamente determinam a constituição de regiões epistêmicas
autônomas – natureza, indivíduo, sociedade.
A história do provisório
equilíbrio que o Renascimento ainda mantém entre miticismo e ciência, como
remanescente daquela Unidade, e o percurso de sua invalidação na modernidade
nascente, é o que devemos observar agora. Mas mesmo sob o risco de insistência
a respeito de alguns temas, creio que certos aspectos devem ser ainda mais
desenvolvidos, quanto a isso. Pois a autonomia dos domínios da fé e da razão
parece um tipo de clichê. O que se designa assim, efetivamente?
Por uma lado uma certa
pressuposição sobre o que veio a ser a Escolástica. Mas também aquilo que a
caracteriza, aquele acordo entre domínios doravante independentes. Essa
autonomia deveria significar que no exterior do âmbito escolástico não se trata
mais de fé, e sim tão somente de razão? Mas basta examinar, por mais
ligeiramente que se queira, o Renascimento para ver que não se abandona de modo
algum a preocupação com a espiritualidade, não se penetra de modo abrupto,
desde o ulrapassamento do âmbito escolástico, no iluminismo que caracteriza o
porvir das revoluções política francesa e industrial inglesa.
O ultrapassamento escolástico
não seria ainda o ultrapassamento especulativo de Deus. Em que se pode então
evidenciar o salto que anuncia o Renascimento?
O que ocorre pode ser visado como
transformação na cartografia dos conceitos de modo que se assiste à
movimentação que enuncia o nucleamento do espaço conceitual pelo sujeito enquanto realidade material de fenômenos humanos. Os
problemas que anteriormente se traçavam conforme as coordenadas do mundo
fechado, de que testemunha Koyré, isto é, conforme a ordenação universal e
revelada, mudam de sentido e se propõem agora a partir da perspectiva do ser
humano enquanto sujeito singular, na acepção do sujeito que vivencia certos fenômenos que nos são próprios e imediatos.
À hecceidade de Duns Scott vem
sobrepor-se a “forma corporeitatis” de Ockam. O sujeito singular se conceitua
progresivamente como esse ente aqui que é corpo e intelecto – Ockham inclui a
existência da alma na categoria dos puros artigos indemonstráveis da fé. Assim
pode-se compreender como é que a potência absoluta de Deus é agora utilizada
para embasar a maior liberdade de pensar e ser, abrangendo todos os domínios –
da especulação, do direito, da espiritualidade. Colocando, inclusive, a questão
da existência do mundo exterior, a possibilidade de tudo ser apenas sonho, já
enunciada por Siger de Brabante.
A potentia Dei absoluta é
conceitualmente aplicada agora a partir dessa nova centralidade que é a do ser
humano, enquanto que no momento inicial do cristianismo a vontade absolutamente
livre e onipotente de Deus se aplicava, bem inversamente, como centro ulterior
àquela quádrupla fundamentação metafísica antiga, de modo a assegurar o
fechamento do mundo sobre a criação inteiramente submissa e teologicamente
ordenada.
O ser humano se torna assim o
aspecto conceitual central desse mundo novo, infinito, não geocêntrico. Se a
hipótese de que é a terra que se move, ao invés do céu, não permaneceu ignorada
ao feudalismo desde suas raízes antigas, o pitagorismo e as referências do
Timeu, Bréhier observa que sua sustentação, já no século XIV, se torna
secundada pelas noções de mecânica geral aptas a lhe fornecer o sentido pleno.
Alberto de Saxe e Nicolau Oresme a propugnam efetivamente desde esse período.
Mas a mudança se reflete não
somente a partir da cartografia dos conceitos, incluindo também a
reconfiguração das forças que aglutinam as correntes de pensamento. Mas para
compreender as relações que aí se estabelecem deve-se observar que não basta
caracterizar superficialmente as vertentes: aristotelismo paduense, humanismo
platônico-cristão, os avanços da ciência natural experimental, os moralistas e
políticos, movimentos místicos como a Reforma.
Sem dúvida essa partição é fiel
aos fatos. Mas não conduziria a uma apreciação autêntica da época se não
enfatizasse certas tendências que se superpõem à delimitação rígida das
doutrinas.
Ora, o correlato desse sujeito
novo dado a pensar não poderia ser já designado como o Cogito. A ontologia
ainda não se enunciou como Mathesis. Se a unidade do mundo foi descartada no Renascimento,
sobrevindo a nova física, mantem-se o valor da Ética e da Política do
Estagirista, como preconiza Nicolas d”Autrecourt.
As transformações que afetam o
pensamento humano são claramente enunciáveis: separa-se a política da ética,
designando-se a ética como estudo do ser humano assim como ele é, das paixões e
suas causas, à política reservando-se pensar a sociedade ao modo de um campo de
forças humanas em interação. Contudo, se essas transformações são progressivas,
evoluindo até a enunciação do pacto social enquanto conceituação plena da noção
de representação política, a espiritualidade se mantém como a consistência em
que se pode pensar o sujeito-microcosmos – até a redefinição moderna,
cartesiana, em que a representação política pode se exercer por puros sujeitos
que se enunciam como forma mesma do inteligível. Aí sim a consistência em que
emerge o sujeito moderno se emancipa da espiritualidade como pertença cósmica,
pela forma da razão pura.
Assim é preciso ver que as
designações dessas correntes – peripatetismo paduense, platonismo místico-cristão – no
Renascimento funcionam nesse meio singular, não como teorias redutíveis ao
corpus textual de cada uma de suas proveniências antigas, mas como
configurações estratégicas de questões que se encaminham conforme as exigências
do tempo.
A maior influência que o
aristotelismo paduense estende à França é oriunda da crítica moral e religiosa
que Bréhier descreve, precisamente, como pensamento livre e independente que
não se traduz por nenhuma doutrina filosófica isolada mas que desliza entre
literatura e poesia “de mil maneiras”. Conjuga-se por toda parte, mesmo sob o
influxo de questões que enfeixam origens filosóficas nítidas, um certo regime
intelectual que mistura cristianismo, astrologia, alquimia e ocultismo. O
naturalismo paduense envolve, conforme Bréhier, uma concepção de mundo bastante
próxima do estoicismo e do plotinismo. E Jerônimo Cardan, médico em Pádua e
célebre matemático que descobriu os números complexos e a probabilidade,
desenha o horóscopo de Jesus, sob a conjunção de Júpiter e do Sol, relacionando
a história das religiões aos períodos cósmicos regidos pelas conjunções dos
astros.
A consistência espiritual em que
ainda se pode pensar esse sujeito microcósmico prolonga assim o que de Libera
designa “o espírito da filosofia medieval”. Se a unidade daquele mundo se
rompeu, o sujeito se encarregou de conserva-la no elemento da contemplação. O
destino do ser humano é a vida filosófica, uma vez que a intelectualidade se
funda como essência do humano, na “mística especulativa dominicana do século
XIV”, inspirada pelo peripatetismo, conforme de Libera.
Se o (neo) platônico Nicolau
Cusano propõe o intelectualiter, conhecimento ao modo da segunda hipóstase,
como objetivo de ultrapassamento do rationaliter, a razão discursiva que
corresponde ao modo de ligação das coisas na hipóstese alma, a ética do
Estagirista já pressupõe a contemplação intelectual como virtude superior tanto
às virtudes éticas (coragem, justiça), quanto às dianoéticas (frônesis ou prudência
na deliberação, síneses ou penetração como correta apreensão das ações dos
outros, e o bom-senso como faculdade de julgar em geral).
Aristóteles situa as ciências – teóricas,
práticas e poéticas – como meios de filosofia enquanto a propõe como estudo da
tendência de todas as coisas ao pensamento. Já no Renascimento assiste-se o
percurso da assimilação de Deus e verdade – com o princípio correlato da
contemplação – àquela postulação moderna da verdade definida por conclusões
seguras e naturais acerca dos fatos de experiência. Mas como o sujeito moderno
poderá conservar sua relação com o pensamento sem limitar-se, por exemplo, à
cisão cartesiana que impede o acesso ao conhecimento da história? Enuncia-se
assim a instituição do questionar que é próprio à problemática das ciências
humanas.
Com essa base da tendência mais
geral do período torna-se mais exeqüível uma aproximação daquelas vertentes que
presentificam as correntes especulativas do Renascimento.
VI – A loucura e a refutação do ceticismo
Descartes começa o processo da dúvida metódica com o argumento sobre a
incertitude dos sentidos. Como prover a fundamentação das ciências se não se
está completamente certo sobre os conhecimentos mais comuns? Mas a meu ver o
que ele faz a seguir é encenar a objeção mais usual que se pode antepor ao
procedimento dubitativo proposto: negar a própria pertença ao corpo é loucura,
ou seja, negar filosoficamente certas evidências dos sentidos não é exeqüível.
O parágrafo 5 dessa meditação inicial enuncia a estratégia cartesiana
para contornar a objeção através da hipótese do sonho, que é filosoficamente
aceitável pois embasada na tradição filosófica a partir do averroísmo, já com
Siger de Brabante sustentando que somente a evidência dos sentidos não pode
garantir que isso que eles evidenciam não passa de sonho. Na utilização desse
argumento se torna claro que Descartes está transpondo nesse trecho os
problemas herdados da tradição, formulando-os em novo sentido.Pois logo que ele torna a encenar uma objeção ao seu próprio empreendimento dubitativo metódico, isto é, à hipótese do sonho, relaciona-a ao procedimento de composição mais característico do período final da idade média, a composição ou mistura de elementos do real conforme a livre imaginação assim como nos quadros de Bosch e nas ilustrações de textos, conforme observado por Bakhtin. O que Descartes vai encenar como impossibilidade também dessa hipótese é seu modo mesmo de produzir-se.
Assim a mistura imaginária resulta da união de coisas reais e sempre se conserva o elemento do real em todas as possibilidades da imaginação, como por exemplo a cor real utilizada para compor a figura inteiramente fictícia. A enunciação dessa nova objeção conduz à postulação da impossibilidade do procedimento dubitativo, desta vez pela evidência dos elementos mais simples e inegáveis do real, o que pode ser ilustrado pelos objetos da matemática.
Ora, desde o início havia sido proposta a dúvida com o objetivo determinado de fornecer uma efetiva fundamentação às ciências. Assim, ao tratar essa objeção posterior à postulação da dúvida, Descartes mostra que ela só garante algumas dentre as ciências, isto é, aquelas que tratam somente das coisas mais simples e gerais. A transposição da hipótese tardo-escolástica – como a potentia Dei é absoluta, tudo o que existe poderia ser de outro modo ou apenas sonho – se completa pois Descartes mostra que a validez daquelas coisas mais simples e gerais, objetos da arimética e da geometria, permanece independente da hipótese.
Mesmo se tudo fosse sonho sua validez continuaria indubitavelmente afirmada. Mas a argumentação assim conduzida enuncia os limites da episteme – no sentido foucaultiano do termo, isto é, como estrutura epocal de conhecimento – da época tardo-feudal e do Renascimento. Pois ela se movimenta no interior do círculo da necessidade escolástica (Deus faz o mundo conforme as leis necessárias da racionalidade) ou da liberdade renascentista (Deus faz o mundo conforme sua livre vontade).
A hipótese do Deus falseador parece ser uma reformulação cartesiana da opção pela liberdade desde que todo o trecho se desenvolveu como uma hábil transposição da tradição. Se Deus não pudesse nos enganar, ou se ele fosse enganador, isso deveria ser indiferente ao número de vezes, logo também a qualquer partição entre as ciências. Que o círculo de liberdade e necessidade tenha surgido como limite da episteme do Renascimento, que em certos aspectos prolonga o período tardo-feudal, significa em Descartes, a meu ver, o seguinte. Ela não logrou fornecer uma fundamentação epistemológica capaz de garantir a validez das ciências.
Mas isso de modo tal que aquilo mesmo que infirmou o acordo escolástico como postulado da necessidade, isto é, o postulado da liberdade, ao mesmo tempo condicionou o desenvolvimento autônomo das ciências e conduziu ao ceticismo filosófico. Descartes enuncia o dilema como círculo fundado por e tendendo para a Potentia Dei absoluta. Mas desse modo ele enuncia que o período anterior havia se exaurido, isto é, que aquilo que o Renascimento havia conduzido como desenvolvimento da aplicação da Potentia Dei encontrava-se sem possibilidades de fornecer a fundamentação daquilo mesmo que desenvolvia.
O próprio procedimento dubitativo encena, mais profundamente, a impossibilidade da época anterior a Descartes, que no entanto permanece ainda no fundo do empreendimento cartesiano, isto é, no estado de coisas com que se ele se defronta. Tudo o que se oferece como ciência desenvolveu-se na liberação em relação à fé, mas por isso mesmo como domínio precisamente do indemonstrável, do infundável, do puramente contingente, quanto ao fundamento.
Assim é interessante ver como Descartes joga com a possibilidade desse mesmo movimento “continuar” de modo a que o ceticismo que deriva da Potentia Dei venha a atingir o próprio domínio que o possibilitava agora negando que a existência seja criação de Deus.
O ceticismo radical, "acadêmico" e não pirrônico-sextiano, que a dúvida cartesiana exercita, chega à sua consumação, isto é, não ocorre mais a posibilidde de objetar seriamente o procedimento dubitativo se for levado ao absurdo o jogo de premissas que sustenta o desenvolvimento do pensamento renascentista.
Descartes de certo modo fechou o ciclo, mostrando que aquilo que se oferecia como justificativa apaziguadora da consciência da época e que frente à acusação formal de ceticismo encenada pela dúvida ofereceria suas meias verdades sob a forma das objeções reencenadas na enunciação do procedimento dubitativo, se desmorona de modo que a época se vê assim como é, cética, mas para além do pirronismo sensato de Montaigne, porque incapaz de fundar aquilo mesmo que permite produzir. Todas essas dissimulações repõem afinal a época frente a si mesma, mas desse modo a desmascara e a faz confessar a própria verdade mais íntima.
A consideração que empreendo aqui sobre o procedimento dubitativo cartesiano vai permitir agora a aproximação à polêmica de Foucault e Derrida sobre esse mesmo trecho inicial das Meditações conforme amplamente desenvolvido por Ferry – Renault. Trata-se de uma divergência de interpretação acerca do lugar da loucura na economia da dúvida.
Foucault havia observado que Descartes não procede do mesmo modo frente às duas possibilidades de negação da evidência dos sentidos, a loucura e o sonho. Assim o sonho, como a ilusão, conserva em relação a verdade uma certa simetria pois a estrutura mesma da verdade conjura as conseqüências céticas daquilo que proponho como sendo a hipótese escolástica.
Mas Foucault afirma que nesse trecho Descartes exclui simplesmente a loucura pois estabelece uma implicação entre pensar e não ser louco. Com isso propõe que se pode demarcar nesse trecho, nitidamente, a mudança de regime de pensamento, do Renascimento à modernidade.
Quanto ao Renascimento, Foucault faz intervir Bosch, com suas figuras compósitas, entre outros exemplos, como ícone do prolongamento da concepção medieval da loucura, na qual não havia a condenação na forma da des-razão devido à irredutibilidade radical de fraqueza humana e sabedoria só de Deus, concepção entretanto agora impregnada da possibilidade enunciada como absoluta liberdade de Deus em relação à criação.
A loucura como “manifestação cósmica obscura”, na expressão de Foucault, seria o avesso possível do mundo como o animalismo do homem ou as misturas loucas das coisas. Essa concepção ilustrada por Bosch se opõe de um lado à fase mais estabilizada da Idade Média, em que a figura do animal se utilizava ainda apenas como antropomorfismo ilustrando tendências do caráter humano ao invés de animalização mesma do homem.
Mas enquanto Bosch e o procedimento da composição se relaciona à concepção cósmica da loucura, no prolongamento do período tardo-medieval, Erasmo é a posição própria do Renascimento que engloba a loucura na sabedoria tornando a esta última pessoal e humana. Essa é a concepção crítica da loucura, propriamente renascentista. Pois a razão descobriu seus limites no momento em que se separou da fé.
Assim em relação à Razão de Deus toda sabedoria humana não passa de loucura mas ao ser humano o pensamento de Deus pareceria loucura se ele pudesse se alçar até lá. A razão real do ser humano consiste portanto, no Renascimento, em aceitar seus limites, saber que está numa relação de reciprocidade com a loucura.
“Aproximem-se um pouco, filhas de Júpiter! Vou demonstrar que o único
acesso a essa sabedoria perfeita a que chamamos cidadela da felicidade, é
através da loucura”. A expressão de Erasmo ilustra essa concepção
renascentista, francamente contrastante com a do início da modenidade que
Foucault designa a “época clássica” e que se enuncia precisamente no trecho de
Descartes que estamos analisando: “Mas quê? [aqueles que negam a
evidência da própria pertença ao corpo] São loucos e eu não seria menos
extravagante se me regrasse por seu exemplo”.
Excluída a loucura, resta o sonho. Mas se o sonho atravessa a corrente
de imagens do real, este subsiste em sua validez naquilo mesmo em que é o que
permite sonhar, isto é, nessas imagens mesmas que se deturpam. Agora a relação
entre os termos é antitética. Ou loucura ou razão. Ou imagem composta onírica
ou imagem real básica. Ou tudo ou nada. Ou o nada saber da dúvida hiperbólica e
do ceticismo, seja ele mascarado ou professado como em Montagne, ou algum
fundamento que garanta todo conhecimento existente. Esse é bem o modo de pensar
da “época clássica” e da Reforma protestante, conforme observou Foucault.Ora, Derrida acolhe muito bem a “História da Loucura” mas contesta que Descartes, nesse trecho, tenha excluído a loucura. Muito inversamente, segundo Ferry e Renault, para Derrida ele teria feito silêncio sobre ela até relança-la espetacularmente como hipótese geral do Deus falseador. O procedimento cartesiano só poderia ser apreciado conjugando-se esse trecho à segunda meditação. Pois se a hipótese do sonho não invalidava as ciências matemáticas, a hipótese da loucura – isto é, conforme Derrida, a hipótese de ter sido completamente enganado por Deus – não invalidava o fato mesmo de pensar. A fissura do irracional se insinua portanto como diferença no texto que é a própria fundação moderna da razão como identidade.
O interessante na análise de Ferry-Renault sobre esse assunto é que eles utilizam ambas as versões interpretativas, de Foucault e Derrida, para desqualificar o método genealógico e mais geralmente uma certa tendência dos anos sessenta que, como expressamente enuncia Foucault sobre suas próprias influências, alia Nietzsche e Heidegger.
A resposta de Foucault à objeção de Derrida estabeleceu um corte metodológico no interior dessa tendência mais geral: Foucault propondo que o texto não pode ser compreendido sem recolocar-se a exterioridade a partir da qual ele se enuncia e Derrida reafirmando o célebre “nada há fora do texto”.
Quanto à resposta de Foucault, Ferry-Renault detectam uma circularidade na estratégia utilizada. O trecho das Meditações teria servido para esclarecer a posição da época acerca do irracional enquanto que agora é a estrutura da época que serve para esclarecer o sentido do trecho. Já quanto à interpretação de Derrida, eles antepõem que, inversamente ao que Derrida por ela estabelece e mesmo que esteja tecnicamente correta, não implica que a “fissura da diferença” esteja nesse texto cartesiano, “no coração mesmo da constituição da identidade”.
Assim Ferry-Renault pretendem mostrar que a genealogia nietzscheana conduz à regressão ao infinito, o heideggerianismo à superinterpretação. Quanto a Descartes, o que teria feito equivaleria, conforme eles, a enunciar a objeção da loucura à postulação da dúvida – só um louco poderia duvidar da pertença ao próprio corpo – mas não a responder à objeção. Ele, inversamente, a teria ignorado deliberadamente à falta de qualquer possibilidade de trata-la e a seguir teria radicalizado a dúvida pela hipótese do sonho, filosoficamente fundada, ao invés de correlata ao que poderia fazer um louco.
A partir de que Ferry – Renault convidam a, por prudência, verificar a totalidade da armação argumentativa da “História da Loucura” já que esse “erro” não seria de simples detalhe mas teria se instalado no seu próprio cerne. Nesse momento não seria interessante estender a verificação assim empreendida que vai, em seguida, se utilizar da “lógica da democracia” de Gauchet e Swain para contrapor ao esquema foucaultiano do capitallismo como sistema de crescentes processos normativos de exclusão.
[nota: observe-se que minha leitura aqui havia contudo sido muito influenciada pelo texto de Ferry e Renault, que não acentuam o que atualmente me parece evidente, a saber, que Foucault não pensa a época clássica e a contemporaneidade do mesmo modo, reservando a exclusão explícita apenas à primeira; na contemporaneidade o processo é inclusivo, porém como exclusão interna ao regime, na base da discriminação não apenas "ideológica", no plano dos costumes, mas instituicional, pela rubrica de classificações que para Foucault é normativo-científica. Eu mesma considero que a discriminação é muito mais "ideológica" do que Foucault pensava, na medida em que ele não equaciona a dominação de mass midia, e que ela atua por exclusão, sim - desde as eliminações na ditadura até formas de expropriação que impedem o cotidiano. Portanto ainda que se trate de mostrar que a crítica de Ferry e Renault à noção de exclusão na assim designada democracia é inadequada, a meu ver é preciso porém criticar a todos os que tratam a sociedade industrial na base de algum controle brando e todo-inclusivo, e principalmente notar que se minha posição é demonstrável pelos fatos, a tendência é radicalizar-se as formas de exclusão como se tem visto nos absurdos neofascistas da "globalização".]
Pois no desenvolvimento da hipótese Derrida, Ferry-Renault demonstram inicialmente que conforme ele, o cogito “precede a separação entre razão e loucura” mas também que “a eliminação da loucura só se efetiva com a refutação da hipótese” do Deus falseador. Assim, não se deixa de afirmar, como Foucault, que há “partage” de loucura e razão na época clássica e mais precisamente em Descartes.
Enquanto que no Renascimento, conforme Foucault, ela é a sua contrapartida. Só se é sábio, à época de Erasmo, sabendo que perante Deus toda sabedoria humana é vã. Só se é sábio, à época de Descartes, tendo reconhecido que se pensa, logo não se pode ser louco. E na contemporaneidade nova transformação: louco ou sábio, tudo é humano demasiadamente humano. [Ao louco se trata como a qualquer doente, isto é, como a qualquer desvio da natureza que só pode haver entretanto como um caso compreensível de sua norma, ainda que caso de disfunção. Já não há monstros e os fósseis não poderiam sugerir-se como assinaturas de Deus.]
E “desvio em relação à norma” em sentido foucaultiano, equivale complementarmente a “poder sobre a vida do Outro”, isto é, sobre a vida daquele que se pode apontar como desviante. Comparando pois, Gauchet-Swain com Foucault, o que se tem é a versão banal da ocidentalização como progresso frente à denunciação dos processos de poder sobre os corpos ou de sua dulcificação que se institui desde o final da idade média até a contemporaneidade, processo pelo qual ou se pode exercer o poder sobre o corpo ou ele já se tornou assujeitado.
O que o processo cria são posições de controle, de exercício desse poder sobre o outro assim como dispositivos de assujeitamento, o que amplia sobremaneira, tranformando-a, a questão da ideologia.
Consequentemente pode-se observar que de modo algum o procedimento foucaultiano é circular, na resposta a Derrida, uma vez que o que Descartes enuncia se enuncia transformando aquilo sobre que se institui (tradição, discurso do Renascimento) como novo momento (modernidade, “época clássica”). O texto se articula com a exterioridade, não se explica por ela nem tem a função de explicá-la, conforme me parece ser o procedimento genealógico de Foucault. [ nota: desenvolvi um blog em 2015, intitulado "O projeto da des-razão" especialmente voltado ao estudo desse tópico, o estatudo histórico, político e médico, da loucura entre os pós-estruturalistas, e mantive a posição pela qual o texto de Descartes realmente exclui a loucura conforme Foucualt, ao contrário de relança-la na hipótese do sonho conforme Derrida; meus blogs sobre a "geoegologia" assinalam a época clássica como dualismo excludente.]
Mas como afirmei devemos nos aproximar mais tarde das conseqüências da
análise que Ferry-Renault empreendem sobre Foucault. Por agora convém focalizar
o tema do Renascimento assim como se desenvolve nos escritos foucaultianos.
Circunscrevo a observação à “História da Loucura”, “Microfísica do
Poder” e “As Palavras e as Coisas”. Assim, a princípio dois personagens
centralizam o tema, Erasmo e Maquiavel. Quanto à “prosa do mundo”, deverá embasar aquilo que se depreende das transformações que evoluem no espaço de produção desses personagens, de modo a definir os contornos epistêmicos do período.
VII – Moralidade e Política
Com Aristóteles instituiu-se a circunscrição da esfera da filosofia
prática, com seu sentido autônomo em relação à filosofia teórica. A ética se
designa assim como âmbito do circunstancial, não do universal. As virtudes são
qualidades que se devem deliberadamente desenvolver até se tornarem hábitos. Não
são inatas mas resultam da ação voluntária relacionada à escolha refletida
(proaíresis) como o justo meio em um par de tendências extremas opostas – a
coragem, meio entre a temeridade e a covardia. Eis porque a ética
deve ser desenvolvida como descrição de afecções e ensinamento sobre situações
efetivas, não apenas exposição de princípios gerais.
Quanto à política, em Aristóteles desenvolve-se no âmbito de uma
reflexão sobre a cidade, como ocorre na consistência da Antiguidade em geral. A
cidade é concebida como meio da vida ética. Se a política é o estudo dos meios
de viver bem, corresponde à organização mesma da Pólis. Há conexão do ético e
do político. A organização da cidade implica necessariamente a educação dos
cidadãos mas a educação boa é aquela que sabe manter uma hierarquia de funções
ao invés de, como fazem por exemplo os espartanos, supervalorizar a função
combativa. Assim a educação desenvolve o corpo em função da alma e as paixões inferiores da alma em função de sua instância superior que é a vontade, mas essa instância mesma, por sua vez, em função da razão contemplativa. Se o objetivo da cidade é asegurar a felicidade e a virtude dos cidadãos através das leis e da educação, o desenvolvimento da contemplação intelectual é o objetivo supremo do ser humano, em relação a que tudo o mais se conserva apenas como um meio.
Na interpretação cristã de Aristóteles desenvolvida por São Tomás, assim como ocorre a delimitação da atribuição de fé e razão, entre física e teologia, também no domínio da ética se empreende uma circunscrição de domínios. A moral natural é aquela que se apoia na espontaneidade da vontade como tendência ao bem e a felicidade, enquanto que à destinação sobrenatural só a revelação teológica conduz. A moral natural do tomismo é a aristotélica, instituindo através da sindérese – hábito da virtude que se manifesta em preceitos particulares – a via da retidão da vontade.
A deliberação racional que precede a escolha da virtude é agora designada como livre arbítrio. Mas se o livre arbítrio escolhe o meio melhor através da razão, ocorre que as leis mesmas da ética como as do direito são racionalmente fundadas. E se a vontade de Deus é racional, ela deve submeter-se também à lei eterna da razão. Esse raciocínio influencia notavelmente o direito moderno que considera, com Grotius, que a lei é razão, portanto há algum direito imutável.
Quanto à moral sobrenatural, consiste, no tomismo, naquele conhecimento de Deus que no entanto é interditado na totalidade ao ser materialmente composto, reservando-se porém como dom de Deus aos eleitos e manifestando-se nas virtudes superiores, caridade e beatitude, que não são accessíveis por via racional.
Ptolomeu de Luque desenvolve as conseqüências políticas do tomismo, defendendo uma espécie de teocracia moderada, pois o poder temporal conserva a autonomia da circunscrição da moral natural, ainda que deva permanecer submisso ao poder espiritual pois só a ele se relaciona a esfera da moral espiritual.
Paralelamente o agostinismo anti-tomista que propugna, por exemplo, Henri de Gand, propõe como objetivo da vida espiritual, assim como da vontade enquanto faculdade de amar e desejar, a união com Deus, a política tendendo à teocracia estrita.
Com Duns Scott observa-se o surgimento da tendência a separar os domínios da vontade e do entendimento. Vimos que a ética aristotélica instituía a especificidade dos domínios moral-prático e teórico-especulativo. Mas conservando a moralidade da ação fundada na deliberação racional. Com Duns Scott a vontade se considera livre, pois os princípios éticos decorrem da lei de Deus que não possuem outra justificativa senão sua vontade mesma.
Scott propõe que, à exceção da família, que é uma ligação natural, todas as demais formas de associação humana se formam por livre contrato, antecipando a moderna teoria do pacto social (electio e consensus). O Renascimento acentuará sobremaneira essa tendência do escotismo. Mas, curiosamente, através da influência crescente, desde o quinhentos, do estoicismo.
A moral dos estóicos se concebe, desde a Antiguidade, como o conjunto de regras de conduta do sábio e estudo das inclinações da alma, supondo a tendência a persistir na existência ou princípio de auto-conservação (conatus) como inclinação natural mais originária. Contudo, opera um corte nítido entre aquilo que se oferece como objeto natural das inclinações pessoais, ou o útil, e aquilo que se pode designar como realizável apenas pela vontade, ou o bem.
A virtude – o bem ou a felicidade – é algo que não se confunde com uma finalidade dos atos quaisquer mas é algo que possui uma autonomia como disposição estável e acordo consigo mesmo que se designa prudência (frônesis). Virtude fundamental, a frônesis qualifica todos os domínios da ação, a temperança, por exemplo, sendo a prudência nas escolhas assim como a coragem é a prudência quando ao que se deve suportar, etc.
Na Renascença a influência do estoicismo torna-se preponderante, mas é preciso distinguir o neo-estoicismo, de Guilherme de Ver e Justo Lipse, purgado do panteímo e em geral de quaisquer concepções sobre o universo para se ater aos princípios de um guia de consciência, do estoicismo mais naturalista que vemos inspirar tanto os meios aristotélicos em Pádua quanto os meios humanistas platônicos.
Com Guilherme de Ver pode-se observar como a influência estóica contribui na acentuação da tendência voluntarista da ética de Scott, pois mantendo o bem como distinto do útil, o estoicismo permite propugnar uma espiritualidade independente da especulação. Trata-se assim da afirmação da independência do “eu” frente à necessidade da natureza, do espiritualismo como afirmação de autonomia enquanto conhecimento de si mesmo.
Nessa concepção – a época é geralmente influenciada por Sêneca, Cícero e Epiteto – o bem depende do conhecimento de si, do que se pode evitar ou não, do que está em nosso poder ou não, até que ponto se estende nossas possibilidades de ação, de modo que a liberdade consiste na harmonia da vontade com aquilo que ela pode, logo na renúncia aos ideais que prescrevem perfeições de conduta inatingíveis na realidade.
Torna-se assim compreensível o encaminhamento da ética renascentista no sentido de um estudo do ser humano como ele é, estudo das paixões e de suas causas, que em todo caso converge com a índole do naturalismo humanista que estuda as coisas nelas mesmas, não na sua relação com o plano da Revelação. O que ilustra perfeitamente o salto da Renascença em relação à Idade Média escolástica pois a um São Boaventura, por exemplo, ainda à época tomista, o objetivo da filosofia não deveria ser “o fruto de uma curiosidade que pretende atingir as coisas nelas mesmas”, conforme a expressão de Bréhier, mas sim “uma tendência religiosa que nos conduz a Deus”.
Quanto a isso é interessante observar que a expressão “as coisas nelas mesmas”, hoje, obriga a um certo sorriso e talvez mesmo de circunspecção. Pois o longo trajeto da filosofia, desde Descartes, autorizou a inversão de perspectivas pela qual a fenomenologia pôde utilizar esses termos com o sentido inteiramente delimitado pelo primado da consciência, de modo que desde então essas coisas, “elas mesmas”, conforme também Hegel, somos nós – transcendentalmente mediadas pelo Ego.
E de modo geral a atualidade, mesmo no seu aspecto mais empirista dos momentos posteriores ao Círculo de Viena, só pode pensar os fatos e as coisas no âmbito de uma problematização da experiência que envolve necessariamente uma reflexão sobre a teoria. A situação da filosofia analítica exemplifica bem o que estou expressando aqui, pois de uma deliberada opção pela experiência na rejeição de toda metafísica “a priori”, chegou por todos os meios à exigência metateórica.
Mas a Renascença é ainda o momento, precedendo Descartes, em que esse anseio das coisas mesmas parece aflorar na pureza de um anelo pela experiência não mediada. Pensar o ser humano e a natureza assim como são em si, do mesmo modo que Verochio incitava seus discípulos a observar atentamente a realidade material dos modelos a ser fielmente reproduzidos na tela, conforme o exemplo de Châtelet na entrevista radiofônica com Emille Noel.
No entanto o Sêneca de Justo Lipse, identificando Deus e a natureza, permite pensar Deus como sendo inteiramente livre, identificando-se também à sua própria necessidade. E em geral, como vimos, é na transição ao Renascimento que surge esse pensamento novo da inteira autonomia do espírito. Assim o neo-estoicismo já separa a compreensão do ser humano de um tipo qualquer de inserção cósmica, já se ocupa de um pensamento humano, de algo como uma causalidade livre.
Bréhier sobre isso se expressa mesmo em termos de “uma espécie de paradoxo da história”. Contudo, não seria aqui o lugar de ver resoar essa expressão de Artaud, citada por Foucault? “A Renascença ... rompeu com uma realidade que tinha suas leis, sobre-humanas talvez, mas naturais”. Assim somos compelidos a indagar, utilizando ainda os termos de Artaud: trata-se aí de diminuição ou de engrandecimento do ser humano?
Artaud pensa condenatoriamente o Renascimento e mais geralmente isso que nele aflora apenas como tendência de conceder-se ao pensamento humano algum domínio autônomo de exercício. Em todo caso penso ser importante nesse contexto a observação de Foucault sobre o "percurso da dúvida cartesiana” já no século XVII. Pois mais do que apenas um trecho é o sentido mesmo da argumentação cartesiana que me parece permitir perfeitamente notar como já se desenvolve em um âmbito outro, com relação ao tema da loucura, do que aquele de Erasmo e Montaigne.
E isso se evidencia pelo fato de que literariamente Descartes manipula o discurso da dúvida de modo que simula estar reconduzindo a questão, da loucura ao sonho, no sentido de prover a sua aceitabilidade. Assim é como se implicitamente ele estivesse negando o tema da loucura como inserido na tradição filosófica, inversamente ao do sonho. Contudo sabe-se que à época do Renascimento ambos os temas eram correntes de modo que, também, sim, o próprio trecho expressa uma deliberada exclusão da loucura no âmbito da reflexão filosófica.
Ora, Foucault mostra então que “se o homem pode sempre ser louco, o pensamento, como exercício de soberania de um sujeito que se atribui o dever de perceber o verdadeiro, não pode ser insensato”. Temos assim a escanção epocal que a meu ver delimita Renascença e Modernidade estrita.
Pois esse “eu”, esse ser humano que a Renascença libera a pensar, é mais aquele sujeito de vontade que vimos no escotismo, enquanto tema de uma especulação autônoma em relação à natureza, do que aquele sujeito de pensamento que havia esboçado a filosofia de São Tomás.
Contudo se a outra vertente humanista do Renascimento vai ainda tender para uma inserção naturalista da concepção ética, o próprio tomismo movimentava-se no sentido de embasar existencialmente a teoria do sujeito, tornando-a extremamente dependente de toda uma via de participação metafísica que implicava, no sistema propriamente escolástico, por exemplo, a física antiga. Somente a modernidade, com Descartes, vai liberar a teoria do sujeito, no sentido de puro pensamento, de modo a transpor completamente o sentido de toda problematização anterior e ao mesmo tempo superar a dualidade sujeito-natureza a partir da recondução da problemática nos termos estritos da consciência.
Assim já à época de Schopenhauer, como observa Nietszche, se o “moralista” ainda tem como tema “a vontade”, ele a universaliza ao mesmo tempo que a estende à natureza, numa “falsa coisificação”, mas isso no âmbito de um pensamento que se desenvolve a partir do Kantismo, de modo algum como proposta de inserção da compreensão do humano a partir de um plano cósmico.
Ocorre portanto um movimento, da Renascença à Modernidade, que expressa algo mais do que simplesmente a autonomia do sujeito. Nesse sentido, ao invés de paradoxal, o desejo de uma filosofia que seja apenas guia de consciência manifesto no neo-estoicismo está bastante próxima do sujeito de vontade do escotismo assim como da política realista de Maquiavel e em geral do tema político da Potestas que se desenvolve já em um âmbito de reflexão independente da ética, como pensamento do poder como relação estritamente social.
O que esse movimento delineia assim é a curvatura ideológica pela qual o capitalismo nascente inflete a linha de continuidade dessa nova autonomia de modo a comprometer também a concepção do poder. Ora, desde atributo do imperador romano a atributo de Deus que o papado devia terrenamente representar, a Potestas (potência) será a seguir novamente dessacralizada para investir o conceito estatal e moderno de soberania.
No entanto, assim como o Ego moderno do cartesianismo, esse conceito de Estado também apresenta a inflexão característica sobre o que vinha se desenvolvendo desde a Renascença.
É então proveitoso comparar: a) a citação de Châtelet sobre a definição de República de Jean Bodin (1576), surgindo como concepção de Potestas – “República é um reto governo de vários lares e do lhes é comum, com potência soberana”; e b) a observação de Foucault sobre o desenvolvimento, entre o quinhentos e o século XVIII, dos tratados que “se apresentam não mais como conselhos aos príncipes, nem ainda como ciência da política, mas como arte de governar”.
Ora, justamente Foucault demonstra que essa literatura que tem como tema o governo surge relacionada com o “retorno do estoicismo”, no quinhentos, assim como a nova temática da pedagogia e as questões das pastorais católica e protestante. Governo das crianças, de si mesmo, da espiritualidade, são temas que se relacionam a essa concepção contrária a Maquiavel e que lida com uma noção imanente do ato de governar.
A expressão “potência soberana” parece-me permitir situar a definição de Bodin no âmbito da Potestas temporal que permanece como sendo o de Maquiavel, apesar de já se expressar em termos de governo, não de principado. Quanto a Maquiavel, trata-se do príncipe, o soberano, como princípio singular transcendente que não possui o território por qualquer direito naturalmente assegurado por Deus ou por algum pacto social mas que é aquele que sabe manipular estrategicamente esse “jogo de forças humanas e o conflito de paixões” que se lhe afigura como sendo a sociedade, nos termos de Bréhier.
A relação de soberania assim instituída é de exterioridade. O principado é o território assegurado por meios jurídicos, da força ou de aliança, mas de modo que há sempre o risco de as coisas serem de outro modo. Foucault define o tratado de Maquiavel como “essencialmente” “um tratado da habilidade do príncipe em conservar seu principado”.
A influência de Maquiavel, como dessa noção de Potestas temporal correlata à transcendência do soberano, se verifica portanto nos momentos em que se coloca a questão de como, em que condições, se pode manter o poder absoluto do soberano sobre o Estado – como o momento napoleônico, do Congresso de Viena ou das unificações da Itália e da Alemanha.
Bréhier opõe a Maquiavel o “idealismo jurídico” de La Boétie. O poder de que o tirano pretende se apossar não se produz nesse apossar-se mesmo – já o príncipe de Maquiavel é um guerreiro, não um jurista. Mas esse poder é alienado pelo povo por uma “servidão voluntária” que ao menos permite supor que ele existe independente da dominação do tirano, ainda que sob esse modo subjugado.
Quanto a Foucault, seu objetivo é mostrar que os tratados contrários à Maquiavel – Guillaume de la Perrièrre, La Mothe Le Vayer, Pufendorf – possuem um conteúdo positivo, “objeto, conceitos e estratégias”, não constituindo apenas um avesso do problema de Maquiavel – como o tirano pode dominar o povo – isto é, esse mesmo problema mas visto pelo lado do povo. Trata-se nesses tratados de outro gênero de pensamento político, uma arte de governar, que estará na origem da ciência da Economia Política assim como no controle policial da sociedade civil. Contudo, será necessário observar de modo bem mais minucioso o conjunto de relações que assim se tecem.
VIII: Ibn Khaldun – A história e as ciências humanas
a)
Uma observação de Châtelet no artigo sobre a História no volume sete de sua “História da Filosofia” pode nos ser proveitosa para a colocação da questão que deverá estar subjacente ao que doravante deveremos examinar.
Uma observação de Châtelet no artigo sobre a História no volume sete de sua “História da Filosofia” pode nos ser proveitosa para a colocação da questão que deverá estar subjacente ao que doravante deveremos examinar.
Logo no início do artigo Châtelet observa que as questões mais atuais
ligadas ao interesse que pode haver em “fazer história” – questões de método,
enfoques, procedimentos e meios – pecam por irrealidade ou abstração. Mas não o
fazem menos por também constituir uma redundância ou desajeitada reiteração das
mesmas questões já propostas por Hume, Voltaire e Montesquieu.
Um pouco mais à frente, a mesma perspectiva se reintroduz. Há uma
"pré-história da história" e assim Châtelet afirma que trata-se sempre, ao menos,
do mesmo “gênero”, forma inalterável desde que há cidadania, direitos políticos
do cidadão, logo desde Heródoto.
A perspectiva enunciada nesse texto de Châtelet se estabelece numa certa
duplicidade de registro pois não se trata apenas de história sem tratar-se
também de epistemologia. A “disciplina” pode flutuar conforme os desvios
observados pela acumulação dos saberes. Mas ela é como a matéria, enquanto que
mais fundamental continua sendo aquilo que a informa, o gênero ou forma mesma
de sua inteligibilidade.
Châtelet vai se opor, tenazmente, ao longo do texto, à filosofia da
história e nisso a contemporaneidade poderá lhe oferecer algum suporte já desde
Braudel realizando o sonho de Michelet através da desqualificação disciplinar
de todo método em favor do protocolo. Pode-se assim entrever que a definição de
história que se enuncia desde o seu nascimento concomintante ao do Estado
político – “texto que visa a introduzir a inteligência do presente pela
inteligibilidade do passado próximo ou longínquo” – é a que se preserva na reviravolta
contemporânea que permite por sua vez superar as querelas das escolas de
história filosófica, historicizante ou sociologizante. [ Nesse contexto, Chatelet sintetiza onde se trata habitualmente de opor épocas históricas da história como o antigo e o moderno ou respectivamente o "erudito" e o "científico". Porém o interessante é o propósito da síntese de Chatelet, como veremos em seguida, onde não deixa de constar uma concepção evolutiva.]
Não há saber historiador mas sim conhecimentos historiadores oriundos da impressionante proliferação de acontecimentos desde a irrupção da sociedade de massas com seus meios de comunicação correlatos. Contudo esses conhecimentos do extinto ou do presente têm que estar numa relação de eficiência com o atual, têm que se conscientizar de que equivale em cada uma de suas escolhas ou a cada etapa de sua produção a uma tomada de posição no combate ideológico.
Essa perspectiva epistemológica de Châtelet, do volume sete, ressoa assim com precisão com o estudo de Abdel Maleck no volume 2 sobre Ibn Khaldun, no século XIV refletindo sobre o quadro problemático de transições
e crises do Maghreb do século VIII . Ela repousa numa ontologia. O ser, ato ou
substância, qualquer que seja tem uma natureza e um conjunto de manifestações
contingentes. A totalidade não pode ser conhecida pela inteligência, indo nessa direção a razão estiola-se nas ilusões. Já os dados de flutuação contingentes, pertencentes a realidades
naturais inteligíveis que correspondem cada uma ao seu conceito próprio, formam
o campo de observação das ciências que se especificam conforme seu objeto, isto
é, o conceito ou realidade natural existente por si mesma. Não há saber historiador mas sim conhecimentos historiadores oriundos da impressionante proliferação de acontecimentos desde a irrupção da sociedade de massas com seus meios de comunicação correlatos. Contudo esses conhecimentos do extinto ou do presente têm que estar numa relação de eficiência com o atual, têm que se conscientizar de que equivale em cada uma de suas escolhas ou a cada etapa de sua produção a uma tomada de posição no combate ideológico.
A inserção filosófica dessa perspectiva aparece portanto por sobre qualquer bifurcação que se pode apontar entre os dois autores considerados. Pois Châtelet pode inserir Khaldun em seu esquema evolutivo da história esboçado no artigo. Mesmo que para Chatelêt Khaldun pertença à estirpe dos primeiros fundadores, entre Heródoto, Tucídides e Políbio, a emergência da "história" respondendo aí à necessidade de estar a par "do que se trata" quando a ordem já não é mitológica mas política. Em todo caso, o correlato desse saber é prosaico e atende à necessidade da deliberação que é agora a do cidadão comum.
Há assim, para Chatelet, a historiografia antiga que analisa a verossimilhança dos relatos para deduzir racionalmente um plano causal no interior de um conceito de tempo que se mantém, como devir, numa relação fundamental com o movimento. Há posteriormente uma nova ideia de totalidade temporal introduzida pela revelação cristã como plano da criação, da gênese ao juízo, de modo que a história desde Santo Agostinho não se delimita mais como texto sem refletir a necessidade te (le) ológica de sua filosofia inerente. Mas o Espírito absoluto de Hegel ou o Capitalismo poderiam servir de inteligibilidade a essa inerência tanto quanto a Revelação.
Assim, conforme Chatelet, a superação do que ele considera a historiografia racional da Antiguidade clássica, prosaica e sem conceito, é mais do que uma tendência histórica, instituindo-se como uma de suas orientações fundamentais. Ele julga portanto a introdução da teleologia cristã desde Santo Agostinho, rompendo com a irrealidade "sublunar" do tempo aristotélico e conceituando o tempo criação de Deus, a história da humanidade como a de um só homem, uma necessidade de introdução conceitual. A filosofia teve portanto uma função na história, ainda que não devesse monopolizá-la.
A sociedade contemporânea oferece então mais dois aportes constitutivos. O conceito de tempo físico que se instaura pela revolução das ciências instaura um modelo positivo à história de Ranke e Niebuhr que a entendem desde o século XIX como ciência cujos resultados devem submeter-se à lei da verificabilidade. Mas opondo-se a isso surge a orientação que tem como modelo as ciências humanas e seu círculo característico enunciado por Dilthey, em que o intérprete da história é ao mesmo tempo agente histórico.
Mais atualmente há a implicação da luta de classes. Mas mesmo sem reduzir a história à sociologia a proliferação de dados e temas atravessa o campo de forças da atualidade. Superam -se os álibis de neutralidade, a razão pura ou a teleologia, a descrição objetiva ou a erudição e a especialização.
Entrementes havia ocorrido a disjunção Kant-Hegel. Kant, jogando com a duplicidade causal de necessidade e liberdade enunciava a história como sutil composição desses elementos. Assim essa composição permite introduzir o espaço de manobra que articula como em Weber e Durkheim o escalonamento dos fatos em seus patamares periodológicos e a construção sociológica de uma causalidade de que se poderia derivar, como de uma ciência autêntica, previsões e decisões políticas.
Hegel, procurando superar a dualidade, inscreverá o nexo teleológico do Espírito de modo a favorecer de certo modo mais a narração ou reconstituição "evenemencial", isto é, dos acontecimentos. Assim, ainda que Châtelet não pareça derivar diretamente dessa disjunção as orientações opostas de história historicizante ou sociologizante, permanece no ar uma inclinação nesse ou naquele sentido na descrição dos projetos de Kant e Hegel.
Ibn Khaldun está, nesse esquema como vimos, junto a Tucídides e Políbio, isto é, na inserção antiga de uma historiografia racional na acepção de Chatelet, isto é, oposta à fé que vem depois, com Santo Agostinho. Com efeito, o estudo de Abdel Malek sobre Khaldun inicia por inserir seu pensamento na problemática comum à época de transição da Escolástica ao Renascimento, pela qual se desejava emancipar a inteligibilidade de uma implicação puramente silogística a partir de princípios propostos, para aplicar-se à observação do real de modo a nele mesmo desvendar as conexões causais.
Aqui vemos portanto que mesmo permanecendo consensual a inserção de Khaldun na história dos fatos e na mentalidade laicizada, Abdel Malek compreende mais que Chatelet a posição pós-escolástica de Khaldun. Não se trata de privação do conceito nessa opção pelos acontecimentos, como num estado de anterioridade, mas sim de criticismo, recusa da totalização como de uma pretensão infundada da própria razão. O interessante é pois que a Leste o criticismo confronta epistemologicamente os limites da razão, ao invés de ter havido na era renascentista apenas crítica da predeterminação da fé aos interesses racionais. Na terminologia de Khaldun, ater-se aos fatos é seguir tanto no que concerne à crença quanto à ação, "a ordem do Legislador".
Contudo a constituição da história enfeixa, com Ibn Khaldum, algumas relações surpreendentes com temas que assim parecem ora renovar-se, ora inaugurar-se. Inicialmente observa-se que há consciência da escanção que opõe gênero e método. A historiografia não esgota a tarefa de compreensão da história. Deve haver algo pelo que se pode deliberar sobre a pertinência dos relatos ou sua verossimilhança. Acima desse nível descritivo dos acontecimentos há uma tarefa mais fundamental que abrange o domínio das causas, o porquê e o como dos eventos.
Até aí porém aparentemente tudo ainda cabe no esquema de Châtelet, até porque a Leste o uso do termo "ciências racionais" reveste-se do mesmo sentido de conhecimentos da realidade empírica que Chatelet subscreveu - se bem que possa haver um alcance conceitual, ainda que não metafísico-totalizante, nessa realidade. Em todo caso, a historiografia antiga implica uma meditação dos fatos até que se deslindem suas conexões de motivos de modo a fornecer modelos de ação e compreensão do devir. Mas como destacou Malek, Ibn Khaldun fornece também uma definição de história: “informação sobre a sociedade humana”, isto é, a civilização e os fenômenos que nela têm lugar “naturalmente”.
A sociedade humana reveste assim tanto a aparência do múltiplo quanto a
determinação do uno. Enquanto objeto uno da história desdobra o campo
contingente de flutuação que são os seus múltiplos fenômenos observáveis:
selvageria, abrandamento dos costumes, formação de grupos agnásticos,
constituição dos Estados.
Essa multiplicidade ordenada de fenômenos é porém já o resultado do
escalonamento em séries da proliferação indefinida dos eventos que em cada
série pode vir a ter lugar. Já se está no elemento pós-escolástico de um
pensamento da sociedade que se relaciona de modo necessário com o Estado. Mas
se o objeto da história é a sociedade, o domínio das causas depende de uma
ciência que visa não a descrição de suas manifestações ou de sua natureza ao
modo de uma fisionomia produzida pela reunião de traços ou fenômenos que a
compõem. Trata-se agora não tanto da superfície social mas daquilo que incrementa a consistência mesma dessa superfície, isto é, da sociabilidade, que Khaldum vai designar pelo termo “Umram”. A história se enraíza sociologicamente. Enquanto a história é uma “informação sobre a sociedade humana” a sociologia tem “a sociedade humana e os fenômenos que lhe são próprios “ como objetivo.
A história noticia os eventos que se agrupam em séries precisas. A sociologia dá a razão de cada série como articulação específica e situada do que deve apontar como sendo os elementos fundamentais da sociabilidade, isto é, os níveis que Khaldun estabelece estruturalmente como do econômico, do político e do cultural.
O que não quer dizer que a Política não se constitui aí também como ciência, independente da sociologia. Enquanto ciência independente ela é administração “da casa ou da cidade”. A sociologia analisa então, juntamente com os econômicos, os modos administrativos que compõem a sociabilidade. O econômico se concebe mais fundamentalmente porém, como meio que define a especificidade de um grupo. E a vigorosa inspiração dessa “economia” precursora já se instala no âmbito conceitual do trabalho.
O campesinato nômade ou tribal (umram badawi) é a sociabilidade que se
constitui primitivamente como meio de subsistência das pessoas que o compõe
aglutinando-se através do espírito de grupo, solidariedade de parentesco ou
étnico.
O acúmulo de riquezas e a constituição de soberania corresponde à
formação das cidades e do Estado (umram hadari). Se o Estado soberano é o
estágio a que o desenvolvimento social conduz inapelavelmente, sua formação
conjuga os fatores econômicos (acúmulo de bens), culturais (superação do estado
de pura necessidade frente à natureza) e políticos (desde as alianças de grupo
até a dominação das tribos por alguma dentre as famílias que as compõem). A proposta sociológica de Khaldun oferece assim elementos que parecem facultar o uso de termos como “prefiguração do materialismo histórico”, ciência política, economia e sociologia. Sobretudo parece possibilitar, como faz Abdel Malek, localizar-se em Khaldun a “fundação das ciências humanas e sociais” considerando-o “nosso contemporâneo”. Sem dúvida a estatura intelectual de Khaldun não deve ser minimizada. Mas situar desse modo seu empreendimento é algo que põe em jogo uma compreensão histórica e epistemológica de modo que até esse ponto preserva-se fundamentalmente a perspectiva de Châtelet.
Francamente contrastante é a perspectiva de Foucault. Já tivemos ocasião de aproximação ao conceito de a priori histórico que a informa. Fica assim descartada de início a opção de uma forma básica de ciência que seria a da história ao longo de sua flutuação disciplinar. Asism como todos os saberes sua constituição e desenvolvimento só podem ser enfocados no interior de sua própria contemporaneidade, a partir do traçado das condições de possibilidade que forma a epistémê de uma época.
Ora, na atualidade a história parece ter tido fim. Não simplesmente na evocação de um horizonte pós-moderno para o qual tudo afinal veio a tender na homogeneidade sem política de uma sociedade tecnológica. Mas porque tanto narração quanto explicação de acontecimentos, tanto apreciação da contingência quanto estruturação de motivos parecem se ter solvido na imanência dos processos que fazem proliferar as ciências humanas, o inconsciente, a produção, a linguagem. Ao mesmo tempo em que o objeto mesmo dessas ciências, o ser humano, se desuniversaliza pela limitação de sua inserção na história.
Mais fundamentalmente o que ocorre agora é que a história solveu-se na historicidade. Tempos que se tornaram heterogêneos uns aos outros, como poderiam ser aptos a estender um tecido que fosse “a história”, de modo a constituir algo mais do que o permitido por uma analítica da finitude que designa por certo positividades mas rigorosamente especificadas e delimitadas na efetividade epocal de sua eclosão?
Quanto a isso se pode concordar, sim, que Foucault revoluciona a história. Pois se o a priori histórico-epistêmico não rompe com o procedimento de (re)constituição das heterogeneidades irredutíveis estas não surgem tampouco na flutuação aleatória de um “mundo” de acontecimentos fortuitos de que só se pode captar os contornos, os vestígios, ao modo de fenômenos espontâneos. Se não há “causa” no sentido de se ter que explicar porque o encaminhamento de uma época se verificou nesse ou naquele sentido – nem ciclo nem determinismo – esses fenônenos não são por isso mais fortuitos.
Não porque devessem remeter sempre uns aos outros ao modo de um circuito fechado de influências mas porque se estabelecem sobre um fundo de relações que compõe um campo epistemológico. Assim, o prefácio de As Palavras e As Coisas se expressa em termos de deslocamento, da história à “arqueologia”. [Nota: Aqui portanto não se trata apenas do parâmetro de época ao invés de percurso contínuo, nem apenas da ideia fenomenológica que unificaria consigo mesma a cada uma, mas especialmente da perspectiva estruturalista da autonomia do fenômeno interior à época e que a constitui. Não são os mesmos fenômenos, de uma época à outra, apenas mudando o seu modo de presentificar-se. A articulação dos fenômenos também lhes é própria, a partir porém de um princípio de multiplicidade dos seus elementos. Continuo pensando que essa é a originalidade de Foucaul, contudo desacordos foram se acumulando até agora, quanto à constituição dos fenômenos de época.]
Foucault insiste em que não se trata de um procedimento que pudesse ser descrito como história das ideias ou das ciências – ainda que não precisem se eximir de se utilizar dos resultados. O espaço a partir do qual se constitui o saber não é neutro. Ele se organiza como ordem de constituição que torna possíveis saberes e teorias.
Nessa perspectiva devemos agora interrogar o caráter precursor da sociologia de Khaldun, inserindo-a no contexto dos desdobramentos epistêmicos que conduzem à teoria do governo e ao pensamento do poder – fundando a escanção entre Renascimento e Idade clássica ou modernidade.
Quanto a isso, utilizando a referência de As Palavras e as Coisas observa-se que aquilo que Foucault define como sendo o sentido da história até meados do século XVII – estabelecer a compilação dos documentos e dos signos – parece assinalar a Khaldun um lugar de exceção. Ou introduzir o momento de bem aquilatar as peculiaridades de Oriente e Ocidente cristão.
b)
Inicialmente, em nosso cotejo cumpre mostrar que há um percurso historiador, também conforme Foucault. O ver e narrar da Antiguidade opõem-se a esses puros compilar e redizer do Renascimento. Mas a Idade Clássica ou modernidade estrita deverá reconduzir ao ver das coisas mesmas – que afinal se torna mais como vislumbrar já que logo esse ver se encontrará com aquilo que o deve possibilitar, desde Kant.
Assim, do ver e narrar antigo à compilação e glosa do Renascimento. E daí a esse novo espaço do ver que é, na modernidade estrita, contudo, classificatório e ordenativo ao invés de simplesmente descritivo como na Antiguidade. Após o século XVIII a história deverá repor algo do ofício da interpretação mas constituindo agora o âmago do empírico, aquilo mesmo pelo que as coisas vêm a ser possíveis objetos de conhecimento.
A excessão de Khaldun ou o problema do Oriente não são assim obstáculos reais. Como já foi assinalado por Bréhier, o Oriente medieval e escolástico não apresentava a questão do poder espiritual de um papado sobre o saber, de modo que a Renascença, com toda a liberação do saber que fez intervir, pode se comparar de certo modo àquele mundo de intensa espiritualidade oriental que se desenvolve porém no âmbito pleno do poder temporal.
Ora, Khaldun inscreve uma reflexão crítica no interior de um domínio que parece, pelo testemunho de Abdel Malek, ter se constituído ora pela narrativa dos feitos desse poder, ora – desde o século IX até sua própria época – pelos resumos dessa gigantesca narrativa – mais de mil livros, analogamente ao que ocorre na China. Pode-se confirmar assim, aproximadamente, o esquema de Foucault também no Oriente. História descritiva a que posteriormente se justapõe uma atividade de síntese, de reelaboração.
Mas nesse domínio de reescritura e síntese, Khaldun faz o “balanço teórico”. Abdel Malek observa assim com precisão o que constitui a novidade e a restrição de Khaldun com relação à época.
A novidade é que esse balanço inclui uma “recusa fundamental da dimensão especulativa”. Não apenas, em proveito da observação, ruptura para com a silogística dedutiva que praticam os falâsifah, mas principalmente uma recusa da metafísica, ou da teologia que prescreve o ideal para inserir na história ora uma cronologia tradicional ora uma tipologia dos desvios. É a descoberta de um objeto, a sociedade humana concebida como aquilo que os seres humanos fazem, construção de sua atividade efetiva, ação basicamente econômica mas também política.
A restrição é que não tendo sido dada a constitutividade desse objeto, isto é, as classes sociais, tampouco teria sido possível estender essa atividade no sentido de projeto, conforme o teria permitido a intuição da classe que seria o motor da história. Essa perspectiva de Abdel Malek se movimenta inteiramente no espaço teórico das continuidades, o que lhe permite considerar Khaldun "o criador da história científica e da sociologia".
Reconduzindo porém a leitura de Khaldun à orientação epocal que poderíamos haurir de Foucault, vemos que a linearidade de sua observação permanece junto à arquitetura do signo que compreende o regime do saber circunscrito à Renascença. Se não há a Leste a circunstância da recondução à autonomia do poder temporal como está havendo a Oeste, os acontecimentos que lá abalam nessa época a sedimentação de uma hegemônia política de sete séculos são concomitantes a mudanças que permitem o criticismo pós-metafísico. Mas se não houve ingerência inquisitorial na escolástica árabe, é compreensível que tenham emergido horizontes de ruptura da unidade totalizante, uma vez que aquela hegemonia era de fato temporal porém sempre ligada à visão religiosa. Aqui lembrando que também houve uma escolástica judaica (ver meu blog "estudos medievais")
[ Um estudo das influências multiculturais entre ocidente e oriente nessa época de descobertas na Europa, transcende o escopo do nosso estudo, porém alguns temas conhecidos poderia surpreender a expectativa de que as mudanças aconteceram a Leste por um vetor único vindo do Oeste. A tese da esquerda aristotélica, o materialismo aristotélico aviceniano da luz, como o fermento da ruptura assim que penetra no ocidente vindo dos árabes é a de Bloch. Não obstante, entre os árabes medievais Aristóteles era conhecido misturado aos neoplatônicos, pois se ignorava que a obra atribuída a ele continua capítulos de Proclo, o que só foi descoberto a Oeste, entre São Alberto Magno e São Tomás.]
Khaldun não rompe com a centralidade do monoteísmo islâmico, porém, conforme Malek, em sua recherche da ordem racional a razão já não é ancilla theologiae (serva da teologia) ao contrário do que distinguia basicamente a escolástica.
Assim, do mesmo modo que a Oeste, o "realismo" renascentista de Khaldun se exerce na verdade pela semelhança que há entre os seres na existência. Impérios, assim como pessoas, constituem elementos de uma natureza fundamental que os distribui conforme o encadeamento causal que se repete por toda parte. As coisas se aproximam de modo a revelar uma natureza secretamente partilhada na condição de fatos, contingência cognoscível apenas parcialmente: nem como quididade num todo perfeitamente encadeado, nem como dedução do futuro a partir da inserção da quididade no todo. Eis porque a história pode ser postulada, nesse âmbito, como "ciência racional" de um modo bastante oposto à escolástica.
Os impérios que se sucedem são realidades, tangíveis assim como as coisas e as pessoas. Não são propriamente a reconstituição teórica ou a representação objetiva do conhecimento. O “sistema regular do mundo” é “ordenação perfeita”, conforme a expressão de Khaldun. E por isso as mesmas leis se aplicam a todos os seres, desde que estes sejam na qualidade de fatos que se encadeiam na trama das coisas.
É curioso porém o deslizamento dos termos em Khaldun, pois “sistema” e “ordenação”, tanto quanto a recondução da história desde a glosa à observação do real, são termos chave na ruptura para com o Renascimento, isto é, na irrupção da moderna Idade Clássica, conforme Foucault. E vemos em Abdel Malek uma sutil discordância para com a opinião que ele mesmo cita de Nassif Nassar, sobre "a fórmula" de Khaldun, que seria a de um "realismo, positivo e metódico", pretendendo Malek contudo ser "para quebrar o círculo positivista de toda historiografia" que "Ibn Khaldun avança ousadamente em direção à sociologia", a qual vai fornecer um critério de saber adequado à esfera dos feitos humanos. Não se trata pois de negar o seu realismo, mas sim a ingenuidade da imediatez do dado.
Há um influxo próprio sem dúvida, na construção historiográfica de Khaldun, uma vez que se sua epistemologia já não referencia a adequação escolástica da coisa ao intelecto, como critério da verdade, ele utilizar a terminologia da conveniência que faz lembrar o classicismo de Spinoza. Porém para Khaldun não se trata da conveniência entre ideia e ideado, mas sim do problema de se conhecer o desconhecido.
Aquilo que é desconhecido só pode ser conhecido por algo que já é conhecido, porém não é qualquer conhecido que conduz ao conhecimento do desconhecido, Khaldun ensinando então, conforme a citação de Malek, que "para todo desconhecido, há um conhecido que lhe convém e pelo qual somente se pode conhecê-lo", e uma via pela qual é preciso ir do conhecido ao desconhecido para obter deste o conhecimento. Algo que ressoa sem dúvida com as regras do método cartesiano. Mas ocorre que esse momento novo, a época clássica, em que se ocupar das diferenças é mais determinante do que se deter nas similitudes, vai ter como conseqüência o alijamento da história do campo das ciências que se prescrevem apenas ao que oferece a clareza e a evidência dos juízos derivados das “intuições e seus encadeamentos”, na expressão de Foucault que observa ainda a extensão dessa implicação no horizonte mesmo da modernidade estrita, não apenas no interior do cartesianismo.
Enquanto que, conforme Malek observou argutamente, a sociologia só é inventada por Khaldun, porque se trata de ultrapassar a mera tarefa de "escrever a história". Se fosse apenas disso que se tratasse, ele teria se limitado aos acontecimentos relativos à África do Norte do século XIV, nas pegadas dos grandes historiadores árabes então conhecidos: Tabari, Ign Ishaq, Waqidi e sobretudo Masudi. Mas Khaldun envolveu-se com os acontecimentos, e para ele a história devia ser feita para ser ultrapassada por uma "crítica eficaz da civilização em crise" - o envolvimento aí é reflexo dessa crise, a inserção biográfica de Khaldun nos acontecimentos. Ao ver de Malek isso não se resume à utilização dos fatos para propósitos de deliberação imediata, mas "a busca de uma resposta que não se limita à esfera teórica" implica em algo mais como "uma dialética autêntica entre o específico - um específico que, já então, não é mais o da hegemonia - e o universal - isto é, a ciência das sociedades humanas, cujos fundamentos essa sociologia vai colocar".
A nossos propósitos de apreender o corte renascentista entre o que precede (a escolástica do medievo) e o que segue (a época clássica), o que me parece particularmente ilustrativo da orientação de Foucault é o seguinte. Se na Idade Clássica ocidental ocorre o alijamento da história do campo da ciência e sua circunscrição ao campo da simples erudição é porque não se pode constituir para ela nessa época uma – em termos foucaultianos – "positividade." Não apenas por uma repetição do preceito aristotélico antigo de que a história, sendo do humano como do fortuito, não era tão filosófica quanto o mito - ou poesia - que encerra uma referência ao universal. Inversamente à descontinuidade de que se trata, se pudemos estabelecer uma continuidade esquemática de “história” descrita em As Palavras e as Coisas, é preciso ter em conta o fato de que esse reconduzir a história ao ver, que se estabelece como o movimento próprio do Clássico, introduz um outro âmbito de sua aplicação.
Não se trata portanto, nessa modernidade estrita, de história “científica” que não seja “história natural”, isso que os historiadores de ciência costumam designar como a primitiva biologia. Uma espécie de crônica sobre os hábitos e ciclos vitais de uma espécie animal, na época clássica Foucault mostrando que se tratou de uma esquematização da natureza como todo. E se a contemporaneidade reintroduz a interpretação, assim como a ciência da história social, é porque desde o século XIX se estendem as regiões claramente delimitadas das “ciências humanas”. Rompendo-se a totalidade da natureza onde os atos humanos são puramente fortuitos, a partir do evolucionismo que emerge em princípios deste século, a história já se volta a entender no sentido humano, porém agora cientificamente.
Khaldun pensava esse objeto impossível na Idade Clássica: a sociedade humana concebida como realidade natural ao modo de um organismo. Assim ao que parece, também não colocou o sentido da ciência histórica da contemporaneidade, uma vez que o caráter factual da trama permaneceu solidário a uma filosofia das coisas. Como Malek destacou, "a passagem da história à sociologia" em Khaldun "vai se fazer a partir da concepção da necessidade interna do determinismo específico para cada esfera do saber: 'Todo ser contingente, seja ele uma substância ou um ato, tem necessariamente uma natureza que lhe é própria e um conjunto de manifestações que lhe sobrevém acidentalmente". Um conhecimento da natureza sociológica permitiria distinguir o falso e o verdadeiro de um relato histórico.
Mas no Renascimento, o que permitia postular ou esfera natural era menos uma concepção de mundo quanto uma grade do signo, pelo que a linguagem que reúne os conceitos na perfeição do encadeamento à exemplo do gramatical reúne do mesmo modo a realidade em si. Esse é o princípio da mentalidade renascentista segundo Foucault.
O conceito não seria assim, como veio a ser na Idade Clássica, uma representação sobre as coisas na ordem do conhecimento mas a coisa mesma na semelhança de sua marca verbal. A ordem da natureza, no Renascimento, assim como em Ign Khaldun, institui um mesmo princípio de ser que é a linguagem muda inscrita nas próprias coisas. A Oeste essa mentalidade se exemplariza numa "gramática geral" como ciência da origem ou essência da linguagem, conforme o princípio de que toda linguagem humana só pode visar glosar e comentar - nesse sentido "representar" - essa linguagem natural.
A forma do signo é semelhança com aquilo que ele indica. Entre o signo e o referente há a "assinalação", entre o que marca e o que é marcado há a semelhança que permite relacioná-los. A natureza é o mundo de figuras, signos a decifrar que são eles mesmos formas da semelhança depositadas sobre as coisas e que subsistem, enquanto marcas, por si mesmas, independentes de sua decifração pelo homem.
O mundo dos signos convergentes é circular de modo que essa escrita esotérica das coisas determina a necessidade de um limite já que esse jogo da semelhança realmente não possui termo. A noção de microcosmos desempenha estruturalmente essa função de limite, conforme Foucault, antepondo a uma possível infinitude do macro a curva constringente de sua semelhança com o micro. A distância entre ambos não pode ser infinita. Os seres devem ao menos teoricamente ser contáveis, fechando-se o domínio de tudo o que nesse interior se assemelha.
No limiar do século XVII o sistema de signos se transforma. Irrompe o
espaço da Representação que facultará a aglutinação das "positividades":
gramática geral, análise das riquezas e história natural. Compreende-se pela
teorização de Foucault a impossibilidade de atribuir a essas "positividades" o
estatuto de estágios primitivos daquilo que se designarão como as novas
"empiricidades": Trabalho,Vida e Linguagem, já no âmbito da epistemê
contemporânea desde o século XIX.
Cumpre agora observar o curso dessa démarche teórica descontínua de modo que nos
seja possível compreender porque a restrição observada por Abdel Malek sobre a
sociologia de Khaldun – o fato de que não se chegou a uma problematização de
classes – não poderia ser dada como deficiência e sim como a afirmação mesma do
domínio em que se desenvolve. Em outras palavras, porque Marx só se torna
viável nesse cenário do século XIX.
IX – Ciência, Ideologia e Ocidentalização
A convergência do pensamento de Khaldun com o Renascimento ocidental
pode parecer talvez ter sido algo forçado pela sobreposição da leitura de
Foucault. Afinal a Renscença tem bem mais a ver com os dois séculos
subsequentes à própria época de Khaldun. Contudo, creio que o traço mais
saliente dessa convergência é o modo como aí se faz o elogio da monarquia.
Mas, pode-se replicar, esse traço abrange bem mais que uma época, ainda
que se conserve a observação pela qual trata-se na Renascença da transição ao
regime monárquico absoluto que constitui a gênese do conceito moderno de nação.
O que conserva o elogio da monarquia no âmbito da Renascença é, a meu
ver, que essa atitude só se compreende relacionada ao salto que se verifica
desde o pensamento político da cidade ao Estado. Aqui o pensamento de Khaldun
toca ao mesmo tempo que se afasta do Ocidente.
Em Khaldun o poder monárquico se propõe, num viés bem pós-escolástico, como mais conveniente não por ter uma destinação sobrenatural e sim por mais convir à “natureza da espécie”. O ser humano se agrupa. Mas o que pode fazer com que o grupo social seja mais do que uma multidão desordenada vai ser o poder do chefe. Entre o campo e a cidade, entre os modos nômades e sedentário se constitui, porém, um ciclo. O campo não se constitui como o motor da evolução histórica e sim a cidade. Mas o soberano exercício do poder nessa sociedade – Estado não evita a decadência. Após o que o ciclo recomeça.
Ora, seu pensamento orienta-se pela realidade política do Oriente. O califado parece oferecer o modelo do Estado que se bem realizado poderia constituir o antídoto a esse movimento cíclico que no entanto é o mais natural, pois se prescreve ao modo dos organismos individuais.
E desse modo o antídoto poderia ser a monarquia. O texto de Malek
sugere efetivamente que as coisas, em Khaldun, poderiam não ser tão “verdadeiramente
‘inalteráveis’”, isto é, que ele possivelmente vê na monarquia forte a
possibilidade de conservação do Estado contraposta ao ciclo que no entanto tem
se verificado como a realidade natural da história. É certo que, em todo caso,
ele identifica o exercício da soberania, que supera a dispersão das tribos e a
condição nômade, com a instituição monárquica mesma. Em Khaldun o poder monárquico se propõe, num viés bem pós-escolástico, como mais conveniente não por ter uma destinação sobrenatural e sim por mais convir à “natureza da espécie”. O ser humano se agrupa. Mas o que pode fazer com que o grupo social seja mais do que uma multidão desordenada vai ser o poder do chefe. Entre o campo e a cidade, entre os modos nômades e sedentário se constitui, porém, um ciclo. O campo não se constitui como o motor da evolução histórica e sim a cidade. Mas o soberano exercício do poder nessa sociedade – Estado não evita a decadência. Após o que o ciclo recomeça.
Ora, seu pensamento orienta-se pela realidade política do Oriente. O califado parece oferecer o modelo do Estado que se bem realizado poderia constituir o antídoto a esse movimento cíclico que no entanto é o mais natural, pois se prescreve ao modo dos organismos individuais.
Contudo, se até aí temos o que pode haver de comum entre a Renascença ocidental e Khaldun, o que nele permite ainda conservar - ou antever - a terminologia do “Império” parece ser esse modelo do califado. Já no Ocidente o pensamento do poder monárquico entra, em plena Renascença, no auge polêmico que o conduzirá à concepção do liberalismo político, com Locke, e desde esse período sempre conserva a proximidade do conceito de nação ao invés de uma ideia de império como reunião de povos. Não obstante a realidade política da época clássica ser a dos grandes impérios coloniais, de modo nenhum semelhante ao ideal do principado renascentista.
Vimos que o Renascimento ocidental é o lugar em que se desenvolvem os seguintes modos de pensar o poder: aquele que se deriva da noção de direito natural e de pacto social ( Luque) e aquele que se propõe como imposição da força ou astúcia (Maquiavel). Mas ambos se igualam nisso pelo que em todo caso é o soberano que deverá personificar o poder temporal naturalmente concebido e a imposição da força ou astúcia não deixa de ser necessária, isto é, de certo modo naturalmente necessária, para que haja vínculo social nacionalmente assegurado.
A ruptura que introduz o clássico ou período moderno em sentido estrito – da era da semelhança à da representação – estabelece também o espaço da possibilidade de quebra desse círculo que parece fechar toda problematização política renascentista na figura do soberano. Algo como o liberalismo – do rei às instituições parlamentares – pode ocorrer, como na Inglaterra da revolução gloriosa.
Châtelet, na entrevista radiofônica com Emille Noel, opera essa demarcação de modo que estabelece, inicialmente e desde a citação de “O Defensor da Paz” de Marcilio de Pádua, a questão da afirmação da legitimidade do poder temporal. Vemos também assim uma importante característica da problematização ocidental do poder na Renascença, isto é, o fato de estar intimamente relacionada com o quadro de superação da hegemonia do poder espiritual da Igreja.
Mas essa problematização que deverá conduzir à equalização de “potência soberana” e “Estado” tamporal permanece, conforme Châtelet, “abstrata”. Maquiavel e Bodin são citados como seus formuladores. Maquiavel pela demonstração da necessidade da unidade política para a existência da sociedade, Bodin pela proposição de que o que pode assegurar essa unidade é a “Potestas”, a potência ou soberania consensualmente estabelecida.
Châtelet vai afirmar que o que ainda não se desenvolveu e que se torna necessário então é a elaboração de uma teoria política que só se efetiva com Hobbes e Locke. Como se o Renascimento tivesse apenas constituído o espaço da questão mas não os seus termos próprios, esse espaço tendo definido apenas o vácuo de uma teoria que devesse fornecer a inteligibilidade tanto dessa necessidade da unidade quanto desse consenso circularmente nela e por ela estabelecido. Assim quando a teoria finalmente se efetiva, com o absolutismo de Hobbes, surge a noção de estado de natureza, recolocando-se a noção de pacto social e de Estado político em outro sentido. O liberalismo político só vai emergir após Hobbes, com Locke, mas então já dentro dessa oposição de estado de natureza e pacto social como a questão própria da "teoria política".
Já Foucault no curso do “Collège de France” sobre a “Governamentalidade” mostra que existitu sim, na Renascença, "teoria política", e de modo algo surpreendente, que essa teorização positiva não ocorre na continuidade daquele espaço, definido assim como abstrato por Châtelet, da questão da soberania.
Pois até aí tratava-se da necessidade postulada de pensar como a soberania se justifica enquanto exercício de poder do soberano. A teoria que vem preenche-la, no entanto, permanece “filosófica”, não “científica”, isto é, política no sentido antigo. Trata-se em Hobbes como em Locke de definir o estado fundamental do homem para só assim poder definir como se constitui o liame político na sociedade.
Para Hobbes esse estado fundamental é o de natureza, para Locke é já o do direito da pessoa sobre o produto do seu trabalho, isto é, o direito do indivíduo à existência. Em seguida trata-se de mostrar como desses estados primitivos se deriva a necessidade do soberano. [Vemos em todo caso como o liberalismo se constroi por uma argumentação centrada no estado da natureza que se tornou o campo de prova da teoria a partir da introdução do material sobre o aborígine americano, supondo-se que os relatos dos viajantes provavam cientificamente, contra Hobbes, que na origem ou simplicidade natural não havia nenhuma guerra de todos contra todos, mas sim a paz da existência dos indivíduos ajustados à natureza pelo trabalho.]
Ora se aliena a liberdade individual em favor do soberano para superar o estado selvagem da natureza à Hobbes, no qual nenhum direito pode ser garantido de antemão, ascedendo-se ao Estado político; ora os seres por seu próprio direito e conscientemente se põem de acordo para atribuir ao soberano a missão de garantir o bem comum, uma vez que se introduziu no entremeio um estado de guerra pela ação de degenerados, à Locke.
E era por isso que Châtelet não podia ver num Maquiavel uma autêntica “teoria política”. Tratava-se aí apenas de uma prática de exercer o poder, não de uma formulação filosófica sobre a natureza mesma desse exercício.
Mas justamente Foucault mostra que o exercício de poder deve, contra Maquiavel, ser pensada já no quinhentos de modo bem mais “prático”. Em todo caso ao invés de asceder ao geral do “por que o poder” trata-se de centrar-se na particularidade mais estrita de “como é que” se conduz esse exercício. E é só no âmbito desse intuito que se põe a questão – e ela se põe já aí – do que é governar.
Foucault insere essa teorização política do quinhentos – notadamente Guillaume de La Perrierre (“Miroir Politique”, 1567) e La Mothe de La Vayer – numa descontinuidade. Ela é coerente com o desenvolvimento concreto do aparelho administrativo da monarquia que já se desenvolve desde essa época, mas também com o salto do pensamento político pós-feudal no sentido do Estado.
Pensar o Estado não põe as mesmas questões do pensamento da cidade. Ele exibe questões intrínsecas de modo que Foucault assinala assim o conjunto de “análises e saberes” que constituem entre o quinhentos e o século XVIII uma ciência do Estado. O quadro se torna bastante complexo nesse ponto. O problema do poder já com Perriere se torna a questão de como e o que é governar. Mas a essa linha de teorização vai se interpor a outra linha, aquele que estivemos examinando, a que se desenvolve exclusivamente como problemática do poder soberano.
As duas linhas, ou a) se tornan excludentes e Foucault observa que entre La Perriére e o século XVIII ocorre todo um bloqueio da “arte de governar” ou teoria do governo pela preminência teórica da problemática do “poder soberano”; ou b) se interpenetram amiúde e Foucault mostra como as teorias do contrato social, Hobbes inclusive, constituem matrizes teóricas a partir de que se procurará formular uma teoria do governo; ou ainda c) se entre-esclarecem de modo que se a reconstituição arqueológica dessa teoria micro do governo mostra o limite macro, por assim expressar, da teorização do poder soberano, o bloqueio que esta institui sobre aquela assim como o modo de sua interpenetração permite ver que e porque no início a própria formulação da arte do governo foi muito débil.
Vamos agora procurar recuperar a inteligibilidade que Foucault institui ao longo do texto entre a, b e c. Em qualquer caso convém observar que de certo modo Châtelet não deixa de ter razão pois se a teoria do governo não coincide em seu gênero e seu objeto com a do poder soberano, uma perspectiva amplamente filosófica dessa última só ocorre a partir de Hobbes e Locke.
Ora, a teoria do governo enuncia dois deslocamentos constitutivos com relação à teorização do poder soberano. Há inicialmente a pluralidade das formas de governo na imanência de uma sociedade ou Estado enquanto na teorização do poder soberano ocorre a tendência de identificar o exercício desse poder com a constituição de Estado proposto, por exemplo como atribuição do poder do príncipe.
Já La Perriére afirma uma tipologia possível de governantes – rei, imperador, juízes, etc., enquanto La Mothe de La Vayer, no século XVII, atribui três esferas de aplicação da ação de governar. Governa-se a si mesmo conforme a moral, a família conforme as leis da economia e o Estado conforme a política. É a introdução da economia “ao nível da gestão do Estado”, porém, que define essa teoria do governo . Assim o governante ideal de La Vayer deve se instruir nos três domínios para que possa aplicar ao Estado aquilo que neles se mostra mais útil.
Mas desloca-se também a finalidade do exercício pois se o objetivo do poder soberano, sua razão mesma de ser já que não se o atribui de modo algum como um direito por si, é o bem comum, a finalidade do governo, isto é, cuidar das coisas, está naquilo que vem a ser a conveniência em cada caso. Governar é cuidar daquilo que se governa, provendo o seu bem específico. Assim o âmbito do governo é também plural, conforme o objeto sobre que se exerce, enquanto o do poder soberano, por exemplo com Maquiavel, é a unidade do território ou principado.
Quanto à introdução da Economia, a articulação da teoria do governo se faz inicialmente, como vimos, pelo eixo da família. O limite que lhe impôs do exterior a teorização do poder soberano se redobra assim pelo pai de família como modelo interior de sua própria elaboração. A questão é que na realidade a economia do Estado não se escalona pela da famíllia. Foucault vai mostrar que o desbloqueio da teoria só pôde ser observado a partir do século XVIII, quando a abundância da moeda e a expansão da produção agrícola, relacionadas à expansão demográfica, fará intervir esse novo conceito que é o da população.
[Aqui porém devemos notar que Locke no "Segundo tratado do governo" de modo nenhum conservou o modelo da família. O uso do material informativo do selvagem americano permitiu-lhe criticar a identidade pai-monarca na origem, que havia sido proposta por Hobbes. Na origem não estava o grupo, mas os indivíduos livres, e assim se estabilizou a "teoria política" do liberalismo até Darwin, que postulou na origem nem as famílias nem o indivíduo, mas a horda primitiva que se conserva nas teorizações de Marx e Freud exemplarmente.
Na atualidade a questão da origem primeira foi exaurida, com as pesquisas lidando com problemas localizados a partir da desjunção epistemológica entre diferenças paleontológicas e singularidades sociológicas. O percurso da desjunção em nível de modelo foi progressivo a partir do século XX, mas parece-me completo agora e determinar a "pós-modernidade", sem grande relato do progresso psicossocial totalizante, isto é, convergindo psicologia e antropologia, possível.]
Para Foucault, a estatística permite configurar o conceito de população devido a seus fenômenos imanentes, irredutíveis aos da família. Também quanto aos seus efeitos na economia, enquanto que a família se torna agora pensável como instrumento pelo qual o governo acessa a população. [ Como vemos, ele supõe que a ruptura para com a origem na família não ocorreu senão pela introdução da inteligibilidade estatística, enquanto que nós assinalamos, inversamente, que já havia ocorrido desde Locke, pela introdução do material informativo do aborígine americano como o determinante do pensamento clássico e romântico, ou seja, o que considero o determinante na emergência das ciências humanas].
O objetivo do governo ao ver de Foucault torna a se centralizar, como ocorria com a teorização do poder soberano, mas pela população. Com isso já não se propõe a teoria como “arte do governo “ e sim como ciência política que é, portanto, ciência econômica concebida a partir da população.
Ora, nesse momento as relações da ciência do governo com a teorização do poder soberano se invertem. Ao se investir como ciência o governar deixou de ser algo a ser deduzido a partir de uma teoria consistente do poder soberano mas, inversamente, como ciência tornou-se o fundamento pelo qual se pode modernamente se colocar a questão da forma institucional do Estado.
Assim Foucault afirma que não se tratou de modo algum de substituir uma teoria pela outra mas sim que a ocidentalização, a condução à “preminência desse tipo de poder que se pode chamar governo”, instituiu o triângulo soberania-disciplina-gestão governamental com a população como finalidade de seu exercício e os meios de segurança como mecanismos essenciais.
A governamentalização do Estado deriva assim de um processo complexo pelo que este deixou de ser definido pelo território para se constituir por sua massa populacional. Foucault estabelece os elementos dessa gênese: a pastoral cristã como modelo arcaico, a técnica diplomático-militar como apoio de seu desenvolvimento e os instrumentos sociais que configuram a formação da polícia como garantia de sua constituição. A finalidade do governo não seria a população apenas de uma perspectiva extrínseca, mas compreende o controle no detalhe. O estudo da governamentalização é também a observação do surgimento da sociedade de controle.
O que me parece importante reter aqui é que a problemática, assim como apresentada por Foucult, permite assinalar a bifurcação pela qual se acentua a curva da ocidentalização. A racionalização do exercício do governo expressa bem o momento em que o Ocidente como que escolhe seu caminho. Se até o âmbito pós-escolástico, no século XIV, é possível observar uma continuidade com o Oriente, mesmo lote cultural greco-romano como campo comum de teorização, a partir da Renascença o âmbito ocidental se especifica de modo irredutível.
Não se trata de algo fortuito o fato de que assinalar essa bifurcação tenha se tornado especialmente favorecido por esse estudo do curso sobre a governamentalidade de Foucault. É exatamente pela inserção do percurso da racionalização no plano político que se pode definir algo como o Ocidente e que se pode, concomitantemente, observar a evolução do pensamento humano, e de modo geral a problemática epistemológica, já inteiramente situadas no elemento da ideologia.
[ A trajetória dos meus estudos me permitiu descobrir como fenômeno realmente básico na ocidentalização porém, uma racionalização que é na verdade ciência do desenvolvimento, isto é, discurso que constroi a oposição primitivo-civilizado ou geo-ego-logia, com o Sujeito, ciência e História, tornando-se o que o ocidente atribui a si ter realizado, porém colocando-se as próprias ciências humanas como a questão da emergência evolutiva dessas realizações na história, ou seja, na e como a "modernidade". Ou seja, ao mesmo tempo que se constitui como multiculturalismo, as ciências humanas instituem ao longo da modernidade apenas a visibilidade opositiva da cultura (primitiva, não-ocidental pré-científica) e da civilização (moderno-ocidental científica). O discurso da modernidade implica uma alter-egologia do não-ocidental que traduz a penetração do capitalismo imperialista como cientificização local, ou seja, importação da dicotomia, para fins de alijamento da heterogeneidade nas instituições.]
Foucault procede pois como se somente nesse lugar de mistura da racionalidade com a sociabilidade fosse possível observar a transposição mais radical da Episteme no sentido da ocidentalização: da antiga inserção no domínio do mito à constitutividade da ideologia. A conseqüência é que não se pode afirmar um projeto que seria o da ocidentalização ou da racionalização desde os gregos. É preciso pensar a ruptura de modo extremo, âmbito de outro projeto, não como uma espécie de transposição do mesmo. Compreender ou apreender essa transformação é o que deve ser possibilitado já pelo estudo da modernidade estrita, o período que Foucault designa o “Clássico”. [ Onde não houve qualquer referência foucaultiana ao acontecimento da descoberta ultramarina como algo determinante no rumo das mudanças, pelo contrário. Ele chega a considerar que a própria etnologia nada deve ao conhecimento das sociedades não-ocidentais que estuda, pois seu objeto seria apenas a análise de textos.]
X – Renascimento e Filosofia
Observando a filosofia do Renascimento vemos que a linha infletida e as
rupturas que assinalam as descontinuidades do que poderia, no entanto,
reunir-se sob a noção ampla de “Ocidentalização”, encontram aqui um momento
notável.Heidegger possui o mérito incontestável de ter tematizado a ruptura inaugural [ dentro do discurso geo-ego-lógico da unidade da civilização]. Os gregos fizeram nascer o Ocidente no movimento de desterritorialização do poder despótico. Mas não se reconhece esse projeto como idêntico à reterritorialização conceitual do platonismo. A fundamentação do pensamento metafísico já é outro Ocidente.
Mas se poderia propor que aí onde nasce esse projeto novo delineia-se também tudo o que pôde vir a ser esse domínio. O período medieval teria sido apenas um interregno ou afinal contribuiu como um incremento naqueles tempos conturbados de assimilação dos povos bárbaros na composição do povo europeu.
Porque em todo caso agora a ocidentalização abrange algo mais que um processo político, ou mudou a escala de alcance desse termo, Política. A ocidentalização tomou o rumo da racionalização que é coextensiva, enquanto ratio, à universalização. Logo não se poderia registrar, quanto a isso, nenhum desvio, nenhuma diferença.
Assim, na época que estamos examinando, o que se poderia esperar se não uma retomada dese projeto antigo, seu recomeço ou retificação purgado já de pressupostos feudais que o veiculavam à pura crença, mesmo que isso se tenha feito, por vezes, sob o emblema da liberdade máxima do crer – a famosa ruptura de razão e fé da pós-escolástica?
O que ocorre porém não parece poder ser rotulado apenas como uma mudança de amplitude. É o que Foucault procurou mostrar, quanto ao corte da Idade Clássica, tanto em relação ao que lhe antecede quanto à contemporaneidade. Aquilo de que se pode retraçar os pontos de cruzamento, os focos de convergência, os elementos de dispersão e os meios de estabilização, o regime do enunciado, não se mantém a partir de uma definição prévia, como o singular momento de um mesmo processo.
Carpeaux já havia observado o traço peculiar da Renascença na Itália. É moderna em relação à Europa da época, mas feudal em comparação com a modernidade estrita. Ora, o que permanece feudal no Renascimento, o que já não se pode divisar no Clássico, é sua base consensual de antítese, por assim expressar. Pois há união profunda das correntes aparentemente mais opostas na rejeição comum à filosofia escolástica: à concepção teocêntrica do universo, às doutrinas éticas e políticas relacionadas com esse teocentrismo, à síntese de razão e fé, mundo natural e domínio do sagrado.
A conseqüência que daí se depreendeu foi que aquilo que assim atravessou os domínios mais diferentes, as oposições melhor marcadadas, se ofereceu a partir de instrumentos conceituais inteiramente forjados no âmbito pós-escolástico, isto é, o escotismo e principalmente o ockamismo. Assim observa-se por exemplo a influência de Ockam sobre Lutero, iniciado nessa “teologia nominalista” por Staupitz. Mas o ockamismo influencia também fortemente o humanismo, o que se pode destacar com Nicolau Cusano.
Essa instrumentação conceitual não deixa de enunciar o modo próprio de sua inserção. Não se trata de continuar às avessas a problemática da “escola” mas de uma transformação lenta de relações estruturais na sociedade, do encontro de um mundo novo ao mesmo tempo em que se desenvolve a amplitude de todo um regime do enunciado delimitado por esse quadro de transformações.
Antiguidade e feudalismo, vimos, não evoluem tampouco na mesma consistência. Mas aquilo que enunciou a guinada racionalizante da ocidentalização antiga comparte com o cristianismo algo de profundamente análogo. Trata-se, em filosofia, de enunciar o ser metafisicamente fundado, o ser impessoal, sempre o “que ser” independente do “como ser”.
Trata-se de fornecer uma explicação do ser, enquanto o que designei pensamento humano, do mesmo modo que aquilo que Heidegger conceituou como o pensamento matinal dos gregos, devia atuar o ser assim como ele é aí, desvelar o pré da presença, para expressar de modo simples. E esse ser impessoal se enunciava de modo análogo ao cristianismo que entre todas as crenças se propõe como a crença legítima, a religião versus a idolatria.
Ora, no Renascimento a pretensão da racionalidade não se joga do mesmo modo. Não se trata de fornecer a doutrina, filosófica ou religiosa, legítima, mas sim do projeto de enunciar os princípios de uma religião universal que pudesse englobar e justificar todas as crenças efetivamente sustentadas através da história e da multiplicidade dos povos. Como fazem Plethon e Postel, esses princípios são os da filosofia antiga tal como interpretada à luz do saber desses novos tempos, notadamente Platão. Ou, como Pico della Mirandola, trata-se de mostrar a convergência de todas as doutrinas, a concordância de todos os filósofos.
A coincidentia oppositorum de Nicolau Cusano – em Deus coincidem todos os opostos – corresponde a um verdadeiro regime epistêmico. O intinerário dessa epistémê conduz da aparente multiplicidade das coisas que se apreendem pelos sentidos (“phantasia”) às relações que se estabelecem unindo de certo modo as representações conceituais (“ratio”) e daí ao mais desejável, a anulação do múltiplo na unidade da “Inteligência”.
Mas enquanto esse processo permanece no âmbito do cognoscível, enquanto conhecimento humano, ele se limita pela impossibilidade de se atingir de fato essa unidade como o que é realmente. O absoluto da unidade transcende a possibilidade do conhecimento humano que é sempre de algum modo especificação, captação de diferenças na explicatio. A intuição mística que pode alcançar a unidade da complicatio em Deus já não se propõe portanto no âmbito propriamente epistêmico, esse lugar da douta ignorância. O objetivo transcende o conhecimento na via do que é puramente espiritual.
Pode-se sugerir que esse regime se tornou viável no mundo da ordem cristã desde Erígena. Trata-se da circularidade fundamental, de Deus a Deus, tendo como meio a natureza. Mas agora, como ocorre explicitamente em Marsílio Ficino, esse meio tornou-se o ser humano, o amor sendo a realização da circularidade do processo cósmico. Essa razão que caracteriza o regime da Renasceça e que aí preside tantos intuitos de mostrar a realidade una da vida do espírito não mais se define, como observa Bréhier, como faculdade de raciocinar.
Trata-se de uma concepção mística, fortemente neoplatonizada que se conceitua como o Verbo, o Logos, “a alma do mundo que anima todos os seres e que inspira os profetas” na expressão de Bréhier. Assim compreende-se porque por vezes prefere-se o termo “Inteligência” ao termo “razão”. Mas também essas sínteses que de outro modo pareceriam surpreendentes entre revelações sibilinas, cabala, oráculos caldeus, hermetismo, sabedoria dos Etruscos – tudo isso profundamente permeado pela religiosidade do cristianismo.
A ênfase que se costuma apresentar desse período acentua a emergência das ciências naturais, reservando a das humanas à contemporaneidade. Mas o que se pode observar é que a racionalidade do Renascimento não comporta ainda, de todo, essa gênese que só se efetiva a partir de Galileu, e se efetiva já no século XVII que Foucault designa “o clássico”. Assim mesmo quando, no período mais tardio da Renascença com Telésio e Giordano Bruno, trata-se de fornecer uma explicação autônoma da natureza isso não significa ainda negar uma realidade que a transcende.
O “materialismo” de Telésio, que identifica natureza e matéria, conforme Sciacca, é na verdade o “animismo estóico”, conforme Bréhier, que admite uma força ativa imanente desdobrada em tendências opostas de calor e expansão ou frio e contração. Alma material, pneuma, fundando o conhecimento na sensação (o sentir) que se encontra, como a consciência, em todos os seres da natureza (pampsiquismo) – esse animal universal em que todas as partes se correspondem por simpatia.
Bruno, afirmando a infinidade do mundo e o heliocentrismo também concebe um princípio imanente da natureza como força ativa, Deus “misturado nas coisas” como a alma do mundo que as ordena.
Sciacca observa que na obra de Campanela ocorre a “solução filosófica” do que seria a antítese básica entre a tendência naturalista do Renascimento e o humanismo. O sentir de Telésio se desdobra referindo-se não mais apenas à exterioridade das coisas mas também à interioridade da autoconsciência. Mas já todo conhecimento da exterioridade é sentido como consciência de si mesmo (sentir de sentir). Ora, o que Campanela enuncia assim é o problema crítico do conhecimento, apontando a dúvida cética como resultando do encobrimento da autoconsciência pela consciência das coisas externas.
Sua solução do problema é metafísica. A autoconsciência, inata, prova a existência de Deus assim como fundamenta o conhecimento e realiza a unidade homem-natureza. Pois o que o exame – bastante agostiniano – da autoconsciência revela são três atos fundamentais do ser: poder ser, saber ser, amar ser. Posso ser, sei que sou, amo o meu ser. Esses princípios que o autoexame encontra na consciência de si precisam se estender a tudo o que é – enquanto ser. A autoconsciência se torna assim o conhecimento inato do ser que ( se ) é.
Bréhier observa que o sistema de Campanela, apesar do seu caráter tardio, abrangendo já o início do século XVII, permanece inteiramente circunscrito ao âmbito da Renascença. Pampsiquismo, mundo como ser vivente e sensciente, portanto magia natural como arte positiva de utilizar forças ocultas, astrais ou que emanam da vontade, assim como em Plotino, porém já bastante relacionado ao situamento dos seres na natureza vivente. Mas poder-se-ia ainda assim propor que a singularidade de Campanela apontada por Sciacca – ter lançado o problema crítico do conhecimento – tem a ver com essa escanção temporal, já próxima de Descartes?
Não seria o problema mesmo do conhecimento – sentido como problema – algo mais próximo da modernidade estrita do que desse mundo inteiramente marcado pelo estatuto do redobramento a si de todas as coisas como partes da unidade ou todo que se pensa como realidade ou Deus? Vemos que o próprio ceticismo renascentista foi uma profissão de fé de homens profundamente religiosos, conforme Bréhier, em Montaigne alcançando contudo a inflexão radical do auto-exame, a circunscrição do que pode ser objeto de afirmação ou negação apenas ao "Moi".
Essa unidade profunda da mentalidade Renascentista parece, em todo caso, lançar num mesmo sentido pensamento humano e conhecimento da natureza. Creio que seria oportuno deter-se mais sobre essa questão. Pois a filosofia de Campanela, talvez mesmo por esse caráter de ulterioridade, oferece como que uma síntese do pensamento neoplatônico cristianizado-naturalizado do Renascimento assim como desenvolvido em todos esses autores que estamos examinando. E nisso seu pensamento deixa ver algo que aí é essencial.
A colocação da questão do conhecimento na verdade não se limita, apesar da observação de Sciacca, a Campanela. Seria interessante, quanto a isso, a comparação com Montaigne, já que se os motivos não poderiam ser mais diversos – fundamentação mística e metafísica de Campanela, ceticismo pirrônico de Montagne – a reflexão evolui no mesmo meio de conhecimento de si como critério ou possibilidade de validez.
Mas o pensamento de Campanela situa de modo incomparável a consistência neoplatônica da Renascença, pois poderia se indagar em que essa consciência de si não apenas repõe a teorização de Santo Agostinho ou se, na ordem inversa, não é precursora da problemática do cartesianismo. Ora, vê-se bem que por uma lado a autoconsciência em Santo Agostinho jamais conduziria à magia natural como manipulação consciente dos elos imanentes que relacionam todas as coisas.
Mas também observa-se que esse inatismo da autocerteza não conduz, como em Descartes, a uma concepção de ideias inatas que garantem a validez da representação das coisas. O Verbo, a Inteligência, na Renascença, não mantém com o objeto uma relação puramente exterior de representação mas sim de constutividade. As coisas são ora coesas na unidade de Deus, ora especificadas conceitualmente na inteligência, ora percebidas como seres individualizados. Assim, de certo modo, a ideia é a coisa mesma, o que fundamenta a crença na manipulação da coisa pela manipulação numérica ou do nome e tantas práticas de magia por simpatia.
No entanto é esse o ponto de mutação, por assim expressar, da Renascença. Sua inserção de algum modo na modernidade, seu caráter de transição. Pois é o verbo, participado na inteligência do homo-microcosmos, que se articula como meio de ser, não mais a imediatez da natureza como até aqui se pôde de certo modo prescrever. Certamente a orientação neoplatônica poderia sugerir algo de modo bem outro. Mas esse aporte microcósmico do humano não me parece pertencer ao domínio do neoplatonismo antigo. E é ele que assinala a tranposição do meio pela qual a própria emergência das ciências naturais pode se fazer compreender.
Pois ao invés de ter fundado um meio experimental de racionalidade que as ciências humanas na contemporaneidade deveriam como que suplementar, as ciências da natureza emergiram desse meio novo que se inaugura por uma transposição fundamental do pensamento humano. Essa transposição não significa tampouco algo como um projeto que se pudesse traçar do homem-microcosmos ao Ego transcendental do Kantismo. Mas sim que esse longo período que se tem o costume de designar sob a mesma rubrica do moderno e no qual se reconhece a feição mais característica da nossa própria racionalidade ocidental se repõe sobre vários modos de sistematização.
Assim o conhecimento fazer problema, no âmbito da Renascença, tem mais a ver com a tarefa aí sempre renovada de conceituar a profunda unidade recém-descoberta dessa natureza não pré-determinada pela silogística ou pelo dogma. E isso a partir do novo lugar do sujeito na economia do conhecimento. Não se trata portanto, mais propriamente, de oferecer um aporte crítico do que significa pensar, o que deverá inaugurar o espaço de reflexão na modernidade estrita.
Quanto a isso, é importante retomar agora os efeitos da emergência desse sujeito dado a pensar, que vimos desde o escotismo. `A época do Renascimento encontram-se reunidos os meios pelo qual o tema se amplia. Na verdade ele se torna central aí pois a concepção do homem-microcosmos, que integra a circulação do mundo pelo conhecimento intelectual e pelo domínio mágico da vontade, só pode se estabilizar a partir de uma conceituação explícita do “eu”.
Esses meios podem ser visados a partir da transformação social que se opera agora. A classe dominante deixa de ser a nobreza feudal e se torna aquela dos comerciantes e banqueiros, burgueses. Assim se compreende a preponderância italiana e posteriormente espanhola. O ideal cortesão da época é o do “super-homem”, conforme a expressão de Carpeaux. Trata-se de uma arte de viver, da estetização máxima de todos os setores da existência, de éticas inteiramente voltadas à ação.
Carpeaux mostra que a política de Maquiavel supõe mesmo um príncipe assim, cujo território é tratado como a um objeto artístico. Carpeaux explica também desse modo a crítica comum na época à astrologia determinista em prol da magia como espaço do exercício da vontade. Ora, sem negar de modo algum o valor dessas afirmações, deve-se porém estendê-las de modo a compreender a inserção desse individualismo, característico da nascente sociedade burguesa, nessa época, que não se confunde por exemplo com a teorização do “eu” da Idade Clássica posterior.
O que se precisa enfocar é então o sentido mais geral do humanismo. O termo costuma ser anteposto, como vimos já em Sciacca, a “Renascença”. Enquanto a Renascença constitui o renovado interesse pelo naturalismo, o humanismo é a centralidade do ser humano com os temas que lhe são correlatos, entre os quais as teorias políticas, a ética, a utopia social.
As teorias políticas compartem o embasamento ideológico do poder temporal frente à dominação eeclesiástica. Mas esse poder temporal é absoluto e centralizado, forjando as bases do Estado nacional "moderno", isto é, ante-"contemporâneo". Abrange, como vimos, as teorias do pacto social de que o soberano se beneficia. Abrange também a arte política de Maquiavel e a literatura de crítica a Maquiavel formada pelos “Espelhos do Príncipe” em que Foucault soube delinear a evolução da “arte” à “ciência” do governo.
A ética, como vimos, se encaminha no sentido de uma concepção centrada no íntimo do ser humano ao invés da tradicional síntese do naturalismo idealista antigo. Quanto à utopia, seus efeitos, naquilo em que não se limitam aos que se englobam nessa observação do humanismo, deveremos examinar posteriormente.
O que se depreende dessa observação? Algo que, no conjunto de transformações que anunciam a era moderna, pode ser filosoficamente enfocado na obra de Campanela. É o conceito de Potestas como um dos constituintes do ser, sendo os outros como examinamos, a sapiência e o amor. Ora, a potência do ser – querer ser e tender a conservar o seu ser – estende a inteligibilidade do poder como abrangência do indivíduo, da sociedade e da natureza.
Assim ao invés de uma antítese, o que ocorre no humanismo é o embasamento filosófico e já ideológico do que se designará Renascimento com a focalização epistêmica que o caracteriza. A magia é a ciência mesma assim como pode haver conhecimento autônomo da natureza nesse período. Mas quando o meio circundante da oferta do capital ultrapassar a fronteira do metalismo, concomitantemente à transição epistêmica que deverá inserir o indivíduo no plano da representação, surge o novo quadro de ciência “puramente” natural.
A inserção da Potestas é o lugar conceitual em que se pode observar o enraizamento ideológico do pensamento humano que permite embasar o nascimento mesmo das ciências da natureza, o enquadramento da sua possibilidade epistêmica de modo que na era da representação teremos que examinar a transição desse conceito haurido na filosofia de Campanela ao seu novo uso na filosofia de Spinoza.
Essa perspectiva permite situar o famoso antagonismo de Erasmo e Lutero, o humanista católico e o reformador protestante. Erasmo propugna a renovação do cristianismo pelo retorno à simplicidade do Evangelho, contra a corrupção do clero e as hipocrisias das instituições. Mas o cerne humanista vê na Escritura uma verdade universal, portanto também encontrável nos autores e filósofos clássicos da Antiguidade. O humanismo pode transcender-se no rumo da sobrenatureza, como da mente de Deus onde se reunem os opostos, mas assim como o naturalismo dessa época, é o ensino da amizade aos estudos terrenos.
Que a verdade liberta, essa lição de Cristo alcança o júbilo do ser humano ao encontro de um mundo novo, isto é, livre das superstições e corrupção institucional que o oprimem. Quanto a Lutero, seu ideal é o da subjugação total do ser humano a um Deus concebido como expressão da soberania, da subjetividade absoluta ou vontade onipotente.
A subjugação a Deus se encaminha no mesmo sentido, de certa forma, erasmiano, de libertação do ser humano presente, frente às instituições decaídas. Mas o ideal não poderia coincidir menos pois Lutero procede a um corte radical entre o sagrado e o mundano de modo que jamais se poderia estender a mesma noção de verdade às Escrituras e à literatura, por clássica que seja.
Mesmo a afirmação da felicidade autônoma do ser humano, decorrendo da harmonia cultivada de alma e corpo, pareceria a Lutero muito herética, pois para ele qualquer êxito humano depende da graça, é uma concessão de Deus e só relacionada a Deus pode ter algum sentido não pecaminoso, sendo também inatingível pelas obras, pela mera posse da virtude.
Enquanto que a “virtú”, no humanismo, cultivo dos estudos ou "artes", polidez das maneiras, não se constitui apenas como objetivo da vida feliz mas é seu meio mesmo já que impele e engaja o ser humano no desenvolvimento de suas aptidões e assim modela as atividades, a ocupação e o tempo, tratando-se do cultivo estético da personalidade.
O que pode haver de humanismo na Reforma, mesmo sob esse viés antitético, é aquilo que se expressou na filosofia de Campanela como o Poder Ser, o cerne do pensamento da Renascença, expresso na autonomia da vontade. Para Lutero, a vontade que se devota a Deus.
Mas a concepção de vontade, na Reforma, se constitui como “arbítrio” que por sua decisão autônoma se aceita como “servo” pela revelação da onipotência de Deus. Há também nesse ponto ensejo para apreciar o deslocamento de Lutero em relação ao humanismo autêntico. Pois a vontade que se envolve no humanismo é autônoma mas não puro “arbítrio”. A arte e a virtude impõem regras e exercícios. A autonomia da “bela” vontade renascentista consiste no seu polimento, na sua adesão aos processos de desenvolvimento, enquanto o protestantismo pensa a vontade despótica de Deus, cujo espírito habita o seu porta-voz humano dotando-o com o mesmo sentido estático da subjugação do outro.
Se a Reforma é antitética ao humanismo em bloco, no interior deste ocorre uma certa polarização entre as correntes platônicas e aristotélicas. O platonismo agrupou-se notadamente na academia de Florença de que participaram Ficino e Pico della Mirandola. O aristotelismo centraliza-se em Pádua mas exibe uma oposição interna entre os averroístas e os que adotam a orientação de Alexandre de Afrodisia.
A polêmica paduense gira em torno da eternidade do intelecto. Os averroístas, como Nifo, reservam-na ao intelecto universal, portanto não extensiva às almas enquanto individuais mas sim enquanto participantes dessa universalidade. Os alexandrinistas, de que Pomponazzi é o maior representante, fazem do intelecto agente mesmo apenas uma função do organismo humano, ou grau superior do desenvolvimento da alma sensitiva.
O naturalismo de Pomponazzi é bastante acentuado mas a reflexão moral, influenciada pelo estoicismo, conduz à afirmação da autonomia do ser humano, responsável pelo sentido de sua própria existência já que não se admite qualquer finalidade sobrenatural, extrínseca aos valores a que se adere apenas por amor à virtude. A moral do período, bastante influenciada também por Aristóteles, como vimos, é em geral votada à ação.
Esses traços permitem situar aqui a questão que se colocou tantas vezes sobre a dependência suposta entre Renascença e Antiguidade - o que "renasce" sendo o conhecimento dos textos antigos, penetrando através do Oriente com que se retomou o contato após o interregno do fechamento feudal. Quanto a isso é exemplar a oposição das visões de Burkhardt e Bakhtin, um pensando a Renascença como imitação da Antiguidade, outro sublinhando a singularidade do período, como vimos quanto ao cômico, muito mais formalmente estruturado pelos modelos populares do passado feudal.
Carpeaux adere à posição de Bakhtin, mostrando que o papel da imitação deve, nesse contexto, ser bastante minimizado. Os motivos antigos servem para justificar as inovações “modernas”, eivadas de elementos feudais e do realismo popular. Esse realismo, como a profunda tendência à ação, são característicos do Renascimento autêntico. Assim para situa-lo frente aos “proto-Renascimentos”, como o carolíngio e o do século XII, que examinamos anteriormente, Carpeaux assinala a superação do anacronismo estilizante, da linguagem alegórica do feudalismo oficial, entre outros motivos pela recuperação da visão popular feudal, profundamente realista.
A reprodução fiel da figura parece ser fenômeno intrínseco desse período dentro dessa perspetiva realista. Compreende-se agora a impossibilidade de identificação com os modelos clássicos. Há uma consciência da inserção no tempo, da distância entre o antigo e o presente. O que ocorre, e examinaremos mais tarde a importância desse tópico, é que o ultrapassamento do mito corresponde à entrada na história ao mesmo tempo que ao enraizamento ideológico da epistémê.
Assinala-se assim a salvaguarda da coerência em manter, nesse sentido explícito, o epíteto amplo “moderno” aplicado a todo o processo cultural que se estende, desde a pós-escolástica, na ruptura com o domínio antigo inteiramente inserido no âmbito do mito – ainda que desdobrado na forma da teologia.
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= Idade Moderna = Ver os meus blogs "Temas de filosofia
moderna" e "Enlightment"; Sobre o início do século XX, o blog
"Hegel" e em blog a construir colocarei trechos que restaram a
propósito, assim como os estudos de filósofos que restaram, especialmente
Spinoza, Leibniz e Kant.
= A partir daqui
iniciam-se os textos sobre as ciências humanas já formadas. Nesta
página não cabem na íntegra, colocarei em "o devir das ciências
humanas II" /////////////////// =====
(28/06/2016) //// Realizei hoje (30/06/2016); a transcrição
deste texto à página do blog "O devir das
ciências humanas" de abril 2012;
este texto está inteiramente revisado, ´se
houver erros de escrita
ou coerência verbal devem
ser atribuídos a sabotagem de origem
desconhecida. /////////////////////////